Sobre autenticidade e aconchego

A carícia dela não era cafuné, ela acarinhava com as unhas, mas era carícia mesmo, não feria nunca, era um roçar de unhas no cabelo. É que as dela eram bem grandes, como eu sempre quis as minhas, mas nunca as tive. Ela me chamava para comer galinha caipira e puxa-puxa e eu comia. Depois eu fazia a lavação das mãos e da cara na bacia de ágata com água esbranquiçada de sabonete e ela mandava alguém me levar em casa. Às vezes eu ia sozinha, mas era raro. Para ela eu era meio bibelô, mas era bom.

À margem dela e de tudo, portando a minha sempiterna dificuldade de inserção, eu já experimentava espessuras. Apesar de as pessoas ao meu redor prestarem muita atenção às minhas necessidades objetivas, sempre prontamente atendidas, nunca reparavam no que para mim era realmente importante: as espessuras. Eu achava que tudo podia e devia ser espesso e denso, a começar de mim. Eu aprendia a espessura da chuva, da música, das vozes das pessoas, do mato secando, da noite espaçada. Eu aprendia a espessura das palavras. Queria me tornar espessa também, embora eu ainda precisasse da vida inteira para isso. Mas tenho é densidade, não tensão, eu bradava. Bradava, é bem verdade, para dentro de mim. Bradava à margem, enquanto alguém me desaprendia.

Quem, na legião dos anjos, acreditaria? Pareço tensa, talvez, como alguns parecem pedantes, generosos ou calmos. Pareço outras coisas também, é só um parecer, uma aparência. “O resto é silêncio.”

Nos últimos tempos, tenho posto minha atenção à espessura dos discursos. O discurso, coberto de aparências, é mais revelador quando olhado por dentro das palavras, ainda mais se as palavras estiverem só cobrindo a dificuldade que as pessoas têm de se olhar no espelho. Claro que há o risco de eu fazer conclusões equivocadas quando pesco as pessoas de seus discursos.

Acontece, mas o meu olhar é de contemplação, não prejudica. O meu olhar não ataca, nem fere, é carinhoso até, mais ou menos como as arcaicas unhas da madrinha nos meus cabelos.

Por que eu devo ficar na superfície do discurso, crer piamente no significado escancarado das palavras, se elas, as palavras, ocultam outros dizeres? Por que não as virar do avesso? Por que me satisfazer com a parte ataviada e envernizada do discurso? Por que não meter-me pelas fissuras?

Eu me meto, sim, silenciosa, em estado de contemplação, só para aprender de espessuras. Intenção de ser autêntico é uma coisa, autenticidade é outra. Autenticidade é uma coisa difícil, muito difícil. Não é só treinar um discurso e dizê-lo. Às vezes você pensa que está sendo autêntico, mas você está é reproduzindo uma idéia de ser autêntico.

Há discursos autênticos, do começo ao fim, com palavras tiradas da densidade da pessoa, que se fixam na fala totalmente, até com suas contradições, o que só reafirma a autenticidade, pois a contradição é condição humana em estado puro. Outros discursos, por melhores intenções que tenham, escondem até de si mesmos certas nuances contidas nas palavras. Escondem-se. E há outros discursos que apenas fazem tipo, repetem padrões, procuram aconchego em chavões, só para serem aceitos e defendidos por quem lhes interessa agradar.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 18 de setembro de 2011 9:14

    Tião, muitíssimo grata. Um abraço.

  2. Tião Carneiro 17 de setembro de 2011 13:01

    Seu discurso é autêntico panegírico ao autêntico discurso. Desculpe-me pela redundância ou pelo acriançado trocadilho dessa frase. Arranquei-a da densa touceira do iletramento, única coisa espessa, desconfio, de que que sou possuidor, já que, também desconfio, estou mais pra taquariço. Embora tenha abusado do “desconfio”, estou sendo verdadeiro, pode acreditar. Não tenho o menor temor da viagem pelas fissuras, essa é a verdade.
    Louvor, sim, essa é a palavra que me ficou na cabeça ao reler as suas. E isso não é um simples parecer, ainda que pareça. É o silêncio de aprovação de quem é doido por palavras, mas que, perante as suas, genuínas e humanadas, tornou-se mudo, só balançando a cabeça.

    Tião

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