Sobre a “carta ao Brasil” de Mark Manson

Charge: Vítor Teixeira

Minhas últimas semanas foram muito cheias e tinha deixado o assunto passar batido, mas finalmente li na íntegra a estúpida “carta aberta ao Brasil” de um caçador de curtidas, compartilhamentos e cliques norte-americano que veio fazer turismo sexual durante o Carnaval, “pegou” uma brasileira para casar e ficou animado para vomitar em seu blog um discurso repleto de estereótipos amados pelas elites escravagistas e seus capatazes da classe média tupiniquins, facilmente abraçável por estas últimas que – como era de se esperar – o viralizaram idiotamente nas redes sociais (como costumam fazer com as mensagens da mídia oligopolista ou das páginas direitistas).

Me foi solicitada no Facebook uma opinião a respeito, já que supostamente eu também seria um “gringo”. Ressalto o “supostamente” porque, como quem me conhece sabe bem, não só não me considero um corpo externo e estranho à sociedade em que vivo, como faço o maior esforço para não observa-la de um ponto de vista que se auto-coloque como epistêmica e existencialmente alheio aos sujeitos sociais e políticos que dela participam. Ou seja, mesmo quando critico/denuncio processos e fenômenos, a meu ver, inaceitáveis da sociedade brasileira não o faço a partir de um “olhar de gringo”, mas da perspectiva dos movimentos populares e das subjetividades não-hegemônicas que emergem das complexidades e riquezas dessa mesma terra da qual me sinto parte.

Por bem, minha sensação foi que Mark Manson utiliza habilmente um astuto procedimento discursivo: joga afirmações com as quais quem tem uma visão sócio-crítica pode concordar perfeitamente e outras que permitem uma fácil identificação dos que têm uma visão de mundo “meritocrática”, conseguindo assim adesões amplas. A questão é que o contexto geral a partir do qual tece e concatena suas argumentações é uma mistura de colonialismo enrustido e neoliberalismo mal-disfarçado.

Mesmo que a carta enfatize a dimensão cultural de certas práticas individuais e coletivas enraizadas na sociedade brasileira (algo com o qual é possível concordar):

  1. Não problematiza, sequer esboça uma compreensão sócio-histórica da instituição e consolidação dessas práticas. Como surgiram e a quais interesses servem? Qual o papel da escravidão, do colonialismo, do feudalismo coronelista, do sistema de Casa Grande e Senzala, do latifúndio, da ditadura militar, da mídia oligopolista, da falência da educação pública (como projeto e não consequência) na construção e consolidação das práticas e atitudes supostamente “denunciadas” pelo caçador de cliques? Que status quo contribuem para reproduzir?
  2. Há seletividade escancarada na escolha das “práticas culturais” que o autor critica: fala de “familismo” (ser solidário apenas com membros da própria família e do próprio círculo íntimo), de “vaidade”, do “jeitinho” e tal, mas esquece deliberadamente – por quê será? – o racismo institucionalizado (deve achar que não existe, que é “vitimismo” de quem “encontra desculpas por não ser bem-sucedido”), o machismo violento (deve achar que “é uma invenção das feministas”), a homolesbotransfobia assassina (deve considerá-la “invenção” das vitimas ou “desculpas”, não é?), a truculência sistêmica da política contra negros e pobres, o escravagismo das elites e etcétera. Não são “práticas culturais” entranhadas no tecido social brasileiro? Por quê não falou delas? Será que é porque, como bom “meritocrata”, nega sua existência? Porque mencioná-las teria incomodado a classe média branca racista, machista, homolesbotransfóbica, legitimadora da cultura do estupro, do extermínio de negros e pobres e etc. que, assim, não iria viralizar sua carta? Porque criticar práticas comodamente atribuíveis a um “clima cultural” genérico (vaidade, jeitinho e etc.) é mais fácil do que apontar o dedo contra práticas – igualmente culturais – que refletem e (re)produzem relações historicamente consolidadas de poder e dominação, a inferiorização sistêmica de determinados grupos sociais (práticas cujas existência, portanto, é melhor negar)?
  3. Lendo o texto com atenção, fica evidente nas entrelinhas (e por vezes é abertamente explicitado no próprio enunciado) que o pressuposto conceitual e discursivo que estrutura toda a argumentação é o mérito individual como fator determinante do “sucesso na vida” (“sucesso” compreendido dentro da perspectiva do pensamento hegemônico, como questão meramente econômica). A afirmação de que no Brasil se recompensariam as vitimas (palavra que o autor da carta coloca indevidamente entre aspas) e se “puniriam” (isso sim merece aspas, mas no texto ele não as coloca) os bem-sucedidos reproduz o clássico discurso direitista do suposto “coitadismo” das categorias sociais marginalizadas quando denunciam a histórica opressão que lhes nega direitos, oportunidades e não raro à própria possibilidade de existir.

Enfim, essa carta não passa de uma operação de marketing de um turista sexual e caçador profissional de cliques que reproduz um discurso estereotipado, elitista, colonialista e essencialmente néscio. Não merecia tanto estardalhaço, mas o que esperar de redes sociais – e isso Mark Manson, espertamente, não o diz – tão midiotizadas?

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP