Sobre a censura do Facebook ao poeta Anchieta Rolim

Por Tácito Costa

Há mais ou menos um ano eu cheguei a pensar bastante em tirar o Substantivo do ar e passar a usar o Facebook como um blog. Em parte devido ao excesso de trabalho, cansaço e enchimento de saco, e também porque já percebia àquela altura a relativa perda de força dos blogs, com alguns fechando ou migrando para a plataforma de Mark Zuckerberg.

O blog da colunista de O Globo, Cora Rónai, foi um que fechou e ela passou a usar o Facebookm para postar seus textos. Eu lembro que ela fez um post explicando os motivos da transferência e eu concordava com quase todos.

Fiquei com a idéia de fazer o mesmo martelando na minha cabeça durante meses. Até que chegou Sérgio Vilar, deu novo gás a mim e ao Substantivo. Desisti da idéia e adotamos outra estratégia, a de utilizar o Facebook para levar leitores ao Substantivo. Ao invés de produzir conteúdo de qualidade – de graça – para o senhor Zuckerberg. Desse jeito, acredito, ganham os dois lados, o Facebook e o Substantivo. Ele fica com o dinheiro e nós com o trabalho – rs.

Recentemente, esse mesmo caminho foi adotado por noves importantes publicações mundiais, entre elas, New York Times, a BBC, o Guardian, o Bild e o Buzzfeed. O jornalista Caio Túlio Costa fez uma boa análise sobre o que isso representa para o jornalismo (aqui).

A análise de Caio Túlio foca mais no aspecto econômico da parceria. Deixando de lado uma outra questão da maior relevância, a de um possível conflito editorial entre esses veículos e o Facebook. Numa situação dessas, é óbvio que prevalecerá a “linha editorial” ou vontade pessoal de Zuckerberg. No limite, a censura vale para todos, veículos e internautas.

O Facebook é uma empresa. Com tudo que essa condição implica. Faz negócios, não chega nem perto de fazer jornalismo. Seus interesses nem sempre coincidem com os da sociedade. Acreditar no contrário é ingenuidade ou burrice. Usa todos nós para gerar conteúdo para ganhar dinheiro. Das mais variadas formas, inclusive vendendo nossos dados privados para grandes empresas comerciais.

Não são poucos os relatos de censura no Facebook. Algumas retaliações são inteiramente despropositadas, absurdas, como a da nudez indígena, que resultou numa nota de repúdio do Ministério da Cultura. Vocês devem lembrar desse episódio, faz apenas uns três a quatro meses que ocorreu.

Por isso, não me surpreendeu a censura ao texto do poeta Anchieta Rolim na última quinta-feira, 28 de maio (leia aqui). É um chavão dizer que a “censura é burra”. No entanto, é o que ocorre. Na maioria das vezes é mesmo. Tanto o caso da imagem da índia quando o de Rolim ilustram muito bem isso. O texto de Rolim não dizia nada demais, só fazia umas críticas mais que merecidas aos políticos. Não foi isso que o Facebook entendeu.

Analisando agora a censura a Anchieta e outros casos que tive conhecimento, acredito que fiz a opção certa em não abrir mão do Substantivo. Aqui publico o que quero, do jeito que julgo melhor, sem medo e sem censura. Inclusive criticando o próprio Facebook, quando for necessário, sem receio de sofrer censura ou ser banido.

Não podemos jamais ficar nas mãos de mega corporações como o Facebook e outras. É um risco demasiado grande e pode nos custar muito caro. Negócios e jornalismo, negócios e liberdade de expressão nem sempre convivem em harmonia. Na maioria das vezes são como água e vinho, impossíveis de misturar.

“A maior ilusão da internet é achar que o Facebook é um espaço democrático. Não é. E, na verdade, nunca se propôs a ser.” Paulo Nogueira. Leia o artigo completo: aqui

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Rafael Gardel 31 de maio de 2015 15:20

    Poeta Rolim, receba a minha solidariedade. Editor Tácito, meus parabéns. Não podemos e nem devemos calar diante dos poderosos. Força ao Substantivo Plural!

  2. Danclads LIns de Andrade 31 de maio de 2015 12:17

    “A maior ilusão da internet é achar que o Facebook é um espaço democrático. Não é. E, na verdade, nunca se propôs a ser.” É isso mesmo Tácito. As corporações, as elites, sempre irão se proteger. A vedação de censura, contida na Constituição Federal, é, aqui e acolá, desrespeitada. Não se entende o porquê da censura à postagem de Anchieta Rolim que não tinha nada demais, nenhuma conotação política, por exemplo, mas, alegaram imagens de violência, como se no facebook não existissem páginas que mostram a violência diária da cidade. Mas, estás certo, o facebook nunca pretendeu ser democrático. É só mais uma empresa que visa o lucro, bem como proteger interesses seus e de seus parceiros.

  3. Anchieta Rolim 30 de maio de 2015 13:22

    “…Não podemos jamais ficar nas mãos de mega corporações como o Facebook e outras. É um risco demasiado grande e pode nos custar muito caro. Negócios e jornalismo, negócios e liberdade de expressão nem sempre convivem em harmonia. Na maioria das vezes são como água e vinho, impossíveis de misturar.” Escreveu e disse… obrigado, Capitão!

    “A maior ilusão da internet é achar que o Facebook é um espaço democrático. Não é. E, na verdade, nunca se propôs a ser.” Paulo Nogueira. Leia o artigo completo: aqui

  4. Anchieta Rolim 30 de maio de 2015 12:01

    Como sempre, um belo texto! A permanência na internet de Blogs do nível do SUBSTANTIVO PLURAL, é vital para os apreciadores do conhecimento e da cultura. Não podem jamais, sair do ar. Seria o fim definitivo de um dos poucos meios de comunicação com respaldo e credibilidade. Isso seria ótimo para “eles”. É o que querem… Quanto menos espaços culturais com conteúdo, melhor para esses manipuladores das massas. Quanto ao Facebook, eu acho que esse tipo de empresa, é uma perigosa armadilha. Parabéns pelo texto, Capitão! Abraços!!!

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