Sobre “Cidade Submersa”, de Iracema Macedo

Eis que nos chega mais um livro de poemas de Iracema Macedo, Cidade Submersa. Uma colagem, um mosaico de cidades. Reais e imaginárias. Imaginárias, dentro de cidades reais. Iracema… lembrou-me a poesia bem concreta de Gaudí. Não falo de poema concreto. Falo de poesia na pedra, no paralelepípedo. Não sei porque, mas me lembrei de Gaudí. Não sou crítica literária e só falo do que me pega a emoção pela mão. Ou pelos cabelos. Iracema me leva por becos, retornos, ruelas, trilhos e trilhas. E estradas. A poética de Iracema tem uma marca que é o surpreender e arrebatar. Tipo redemoinho. Redemunho, como se dizia na Angicos do meu tempo.

E assim, também esse livro, Cidade Submersa. Um livro diferente dos anteriores, que enfatizavam os humanos sentimentos internos. Agora, a temática privilegia a relação da pessoa com o exterior, a cidade, as cidades. Um dizer, quiçá, mais contido, penso. Penso, mas, logo, existo: o que era contenção vira amplidão. Vira praças, parques, largos. Indelével, a marca da poética de Iracema.

Um poema de Iracema é um poema de Iracema. Não se confunde. A gente reconhece esse dizer por vezes abissal. Há espirais em Iracema que me levam ao barroco. Ou será, nesses poemas de Cidade Submersa, a presença da cidade de Ouro Preto que me leva ao barroco?

Não sei, não preciso saber. Coisas barrocas me fascinam. Sejam as esculturas do Antonio Francisco Lisboa ou a música O quereres, de Caetano Veloso. Na poética de Iracema, o barroco é só um acento. Um perfume. Só? Em se tratando de barroco, um acento, um perfume, é muita coisa. Alastra-se. Um dos mais belos poemas do livro, Escudo de Aquiles, finda (finda? não finda, acabam as linhas escritas, mas os versos continuam no leitor, então não finda) celebrando contrários complementares: “E mesmo sendo feito de poeira, estrada, terra, espanto/Escuridão espessa e nuvens claras/Há lutas, batalhas, bodas e alegrias/lanças, taças e festas/no teu escudo celebradas”.

Cidades percorrem o eu lírico. E ele foge para o poema. Que eles falem, o eu lírico, a musa: “arrombei a porta da casa/larguei os filhos/os sapatos, as máscaras/estou com um incêndio/na boca, na voz, no riso/matei toda essa vida calculista/roubei/e estou fugindo para o poema”.

Há nesses poemas um equilíbrio entre a surpresa e o reconhecimento, esses dois aparentes contrários. Porque o poema em Iracema pode ser tudo, menos aparência. É um poema que chama o leitor a ir além do imediato. Porque é na surpresa que está a marca da poética de Iracema, e, portanto, é na surpresa que se reconhece essa poética. É no súbito, que vira substantivo nessa escrita, que namora e mora na filosofia. Morar? Eureca! A cidade submersa, reconheço, é a filosofia.

Cidade Submersa é um livro de andanças. Mas também de querências, porque querência não é só ficar, é levar na carne o lugar de onde se sai. E transfigurá-lo em poesia. Verbo vira carne, mas também paralelepípedo.
Mas, dizer sobre esse livro não diz. Tudo o que se diga sobre a poética de Iracema não retratará a contento essa poética. É preciso que ela mesma, a poética, se diga, pois é um gosto quando ela se escreve: “Vocês não viram meu caderno?/nele foram rabiscados/a tempestade de hoje à tarde/o trem que perdi para a capital/a vontade inteira que tenho de ser real”.

Rabisca, Iracema, rabisca essa vontade de realidade que temos todos nós e se suspende para contemplar algo como a tradução de sombras em desejos (como está dito no poema Grafite). Rabisca e mata tua própria sede (como o manancial de água e espinho no poema Cactus) e alivia esta sede eterna que temos muitos nós, de contemplar a tradução da beleza em arte.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. José de Castro 23 de Junho de 2016 15:18

    Tudo isso e muito mais, amiga poeta Carmen Vasconcelos… Mas você conseguiu dar uma visão bem panorâmica e de uma forma muito bonita à poética de Iracema Macedo… Só mesmo uma poeta para escrever um mini-ensaio assim… Amei. Abraço afetuoso.

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