Sobre Entre Nós – em cartaz na Casa da Ribeira

Por Sérgio Vilar
No Diário do Tempo

Assisti hoje (4) a estreia da nova temporada da peça Entre Nós, na Casa da Ribeira. Fiquei quase uma hora sem fôlego. O susto vem logo no início e desde então o expectador engole o goto, franze a sobrancelha e liga o botão da angústia.

Sensações desesperadoras. Texto denso ao extremo, amargamente poético. Frases levam você ao abismo e o puxam de volta a todo instante. Ódio e amor, depressão e adrenalina caminham de mãos dadas. Reflexão pura. Do amor, do existencialismo como um todo, mas sobretudo da solidão.

Sete bailarinos no palco. Todos com figurinos cinzas, como são também a alma dos personagens incorporados. A meia luz é a constante da iluminação. Choros, gritos, frases em formato de protesto ou convite à reflexão. Casamento perfeito com a trilha sonora, predominantemente clássica.

Decifrar gestualidades é tarefa aos da área. Eram gestos inquietantes, bruscos, desesperados em maioria. O duo entre a bailarina Manuelle Flor e Manuel (ou Marcelo?) foi muito bonito – a parte mais amena da peça. Transpareceu leveza de uma relação amorosa, embora prestes a ruir. Foi o que achei.

Da conversa informal do elenco com a plateia ao fim da peça, pareceu opinião geral – entre bailarinos, diretora, escritora e plateia – que o amor foi o foco da peça. Achei a solidão. Ora o amor ou o não-amor retratado migram, ambos, à solidão, como se não houvesse escapatória.

Uma frase dita diz algo como o perigo da distância extrema entre o amor e o ódio. É como se eles devessem caminhar próximos para melhor segurança, para prevenção, para evitar o abismo, o vazio repentino do abandono. E qual o medo, afinal? A solidão, em sua forma mais desesperada!

Vão lá, confiram a direção de Diana Fontes, o texto de Cláudia Magalhães. Tem sexta e sábado, ainda. Informações logo abaixo. Respirem fundo antes de entrar e molhe o rosto com água gelada ao sair.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Cláudia Magalhães 7 de junho de 2010 20:33

    Obrigada, João, pelas palavras gentis! A arte só tem sentido quando compartilhada! Uma enorme alegria dividir esse momento com você!
    Valeu, mesmo, amigo!
    Beijos
    Cláudia Magalhães

  2. João da Mata 6 de junho de 2010 12:48

    Claudinha, Querida

    Gostei do espetáculo e gostei da platéia, atenta e com belos comentários
    Entre nós, claro, o amor tem que ser entre nós.
    “Quem inventou 0 amor foi um Louco”
    Louco somos nós.

    Só a arte salva a saúva.

    Corpos no limite . Corpos retorcidos e tensos, suspensos nas palavras de Claudinha

    As palavras inventam o mundo

    Gostei, Parabéns

    Ps 3 em 1. Musica, palavras, corpos ( gestos)
    obscenos como o amor

    senti falta daquelas horas em que o amor serena.
    Quando estou nos teus braços e não quero acordar

    bjs

  3. Cláudia Magalhães 4 de junho de 2010 17:03

    Obrigada, Tácito, pelo carinho! Adorei te ver por lá… Um honra ter você nos prestigiando ! Bom demais!!!!!!

    Bjo
    Cláudia

  4. Tácito Costa 4 de junho de 2010 10:13

    A foto do post é minha, pra ser de celular e de noite, até que ficou boa, Sebastião Salgado que que se cuide – rs. Assino embaixo do post de Sérgio, até ia escrever, mas ele se adiantou e disse tudo… Vão lá e confiram o espetáculo. De alto nível mesmo.

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