Sobre hai-kais (haicais, haikais…) e alguns mestres das palavras

Matsuo Bashô, o mais célebre dos haicaístas
(松尾 芭蕉, Tóquio, 1644 – Osaka, 12 de outubro de 1694)
◊♦◊

Oportuno o post haicaísta do mestre Jarbas e o pequeno debate por ele provocado, o que aproveito para recuperar uma história pessoal/literária minha e trazer a conhecimento um diálogo que tive (por e-mail) – acerca dessa espécie poética –  com o saudoso e famoso haicaísta brasileiro/amazonense  Aníbal Beça, na ocasião da elaboração do meu livro “Pena Mínima”, Sebo Vermelho, 2007.

Ao indagar a Aníbal acerca da necessidade/exigência de rigor, ou não, no cumprimento de algumas regras específicas (inclusive sobre métrica) dos hai-kais, assim me respondeu o mestre:

“Lívio, não sigo não. Comecei fazendo haicais à maneira de Guilherme de Almeida, mas desde 84 abandonei o modelo. Hoje faço sem essa preocupação das 17 sílabas, embora permaneça bem perto desse número. Para mais e para menos. O que ocorre é que sou músico, tenho o ouvido absoluto, e mesmo que não queira, muitas vezes acabo fazendo dentro da métrica. Creio, também, que a minha experiência com os companheiros da lista Haikai-l tenha me influenciado. Mas um dos mestres por lá, o Prof. Paulo Franchetti, prega a abstenção da métrica. Portanto, vc. está acobertado pela tese de um dos mais expressivos conhecedores da arte do haicai no Brasil.

passarinho preso
mesmo com alpiste
não canta melhor

Abraço amazônico

Anibal Beça”

Naquela oportunidade, Nei Leandro de Castro, que terminou fazendo o prefácio de meu livro, estabelecia-me questionamentos sobre o cumprimento de métrica, regra do kigô etc. Fiz , então, questão de encaminhar a Nei o e-mail que havia recebido de Aníbal.

Poucos dias depois, Nei me encaminhava o prefácio abaixo, o que me encheu de orgulho:

“HAIKAI, BUSCA, VIAGEM

Nei Leandro de Castro


O haikai, aparentemente, é uma composição poética simples. Compõe-se de três versos, o primeiro com cinco sílabas, o segundo com sete e o terceiro com cinco.  Mas quando se adentra nos mistérios do poema japonês, começam a surgir pelo caminho os labirintos que podem conduzir ou não ao verdadeiro haikai. O kigô, por exemplo, faz parte da composição e pode representar a primavera, o verão, o outono e o inverno, cada estação com suas características observadas do ponto de vista do poeta. É preciso ainda observar as diferenças entre o som japonês, a métrica japonesa e a transposição dos haikais para a estrutura de nossa língua. Sempre julguei que a metrificação do haikai era tão rigorosa quanto, por exemplo, a do soneto. Aprendi recentemente que acentuação dos versos do haikai pode ser quebrada, desde que a quebra não resulte em excesso de sílabas. Mais um mistério dessa poesia oriental.

No Brasil, Leila Miccolis, Aníbal Beça, Alexei Bueno, Paulo Franchetti, para citar apenas quatro exemplos, cultivam o kaikai com rigor na métrica. Millôr Fernandes, autor de um famoso livro do gênero, faz o que ele sempre soube fazer: um humorismo de alto nível. Lívio Oliveira, ao colocar seu engenho e arte a serviço do haikai,  também se sai bem: usa as sílabas certas, transgride a métrica porque lhe é permitido transgredir, talvez não tenha seguido rigorosamente as normas do kigô, mas escreveu poemas, com imaginação e sensibilidade, construídos com versos que mostram leveza de estilo e força verbal.

Este Pena Mínima, que reúne haikais e poemas curtos, é criativo a partir do título. Na sua coleção de miniaturas poéticas, há kaikais conseqüentes, haikais do sertão, da razão, do mar alto, do corpo da mulher, da razão e da desrazão, das dimensões, do Beco e sua alma. Aquele minimalismo do autor, já observado no seu livro Telha Crua, está bem evidente por aqui. “Todo início tem/ dores que não se sente./ Somem no desejo.”  De repente, o sertão seridoense se despe do gibão de couro e adota o quimono oriental: “Portal do sertão:/ algarobas pendulares/ verdejam do cinza.” A razão e a desrazão firmam um pacto para chegar em paz aos braços da poesia: “Solta, a razão/ delira tão loucamente/ que enxerga o poema.” Às vezes, o poeta insone inventa a solidão como jogos florais de vésperas da primavera: “Acordo, não durmo./ Pássaro improvisando/ um jazz no meu sono.”

Os denominados poemas curtos deste livro, ou seja, de poucos versos mas fora da estrutura do haikai, têm o mesmo nível de qualidade dos demais. Libertados das amarras dos 17 versos, liberados dos mistérios do kigô, esses poemas têm mais autonomia para voar, seduzir, aninhar-se na intimidade da poesia. Síntese desse enfoque é o humor do poema “Purgatório”: “O terço do meu avô/ tinha uma cruz azul-claro/ e contas… algumas pagas.”

Não se sabe se Lívio Oliveira vai permanecer cultivando o haikai, embora isso não seja demérito para ele ou qualquer outro poeta. Mas quero crer que a sua jornada pelos labirintos e mistérios da composição japonesa seja  mais uma mostra de sua inquietação poética, de sua busca, de sua viagem pelas planícies e abismos da palavra, o que ele vem demonstrando desde o seu livro de estréia, O Colecionador de Horas.”

Afirmo aqui no SPlural que  o hai-kai  não é uma fórmula tão fácil para se encontrar a poesia. É preciso deter certas habilidades linguísticas e de pensamento para que se consiga a essência  e o sentido de tão poucas palavras juntas. O que nem sempre é obtido, o que nem sempre obtive. Mas, continuo tentando, com êxitos ou não.

Correnteza

Contra a maré: braço!

Eu, rumando ao precipício…

…resistindo, traço!

(L.O.)

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 13 comments for this article
  1. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 2 de Agosto de 2012 9:54

    Silvos e ondas:
    I

    Pés sobre arrecife/

    e as águas vêm no embate./

    Sol projeta cores.

     II

    Mudança em repente/

    dos ventos, das dunas soltas,/

    areias se espalham.

     III

    A dama nua em pêlo/

    enxerga o horizonte roxo/

    e as águas são outras.

     IV

    O dia reacende/

    um sopro, em toque uníssono:/

    sibilos do tempo.

     V

    Verde e calma pele/

    do bosque e o mar de antigos,/

    solene partida.

     VI

    Metamorfose nata:/

    gorjeios, voz candente,/

    sereia seduz.

     VII

    Olhar que antecede/

    delírios, os desvarios/

    da pulsão final.

     VIII

    Onda e a voz dança./

    Infinita, projeta-se/

    ao longe e alta.

     IX

    Sede fantástica./

    Fartos lábios cintilantes/

    convocam ao mar.

     X

    Tempestade é ritmo/

    das novas, breves alvíssaras:/

    dia derradeiro.

  2. Jarbas Martins 2 de Agosto de 2012 10:33

    Mestre Lívio Oliveira, estou com a ‘boneca” do meu livro “51 Haicais” pronta, esperando publicação, e numa correria danada atrás de alguma editora que queira publicá-lo. Creio que a encontrarei. Quem viver Verão.Tudo bem. O livro é dedicado ao meu amigo haicaista Luís Carlos Guimarães, e aos poetamigos dos blogs Balaio Incomun, de Moacy Cirne, o Papo Furado, do grande poeta Jairo Lima e, claro, deste bravo Substantivo Plural, onde em nome de uma reforma agrária poética, como bem disse Marcos Silva, fizemos assentamento.Você foi o incentivador desse belo e vitorioso movimento poético. Por isso, está convidado para fazer o prefácio dos meus 51 poemetos, uns bons, alguns medíocres, quem sabe algum antológico. Diga que aceita, amigo e poeta Lívio. É pra já !No Facebook fiz também valiosas amizades, e a esses amigos e poetas também estendo a mão calorosa da gratidão. Ablação.

  3. Jarbas Martins 2 de Agosto de 2012 10:42

    Silvos e ondas. Bela amostra, poeta Lívio. Clareza, brevidade e comedida emoção, que lembram o meu poeta Ungaretti, artífice da arte minimalista, seus recônditos, magia e dobras insinuanates.Para o meu individualíssimo cânone da poesia norte-rio-grandense.

  4. edjane linhares 2 de Agosto de 2012 13:23

    Legal a simetria das sílabas 5/7/5. No dia a dia, o haicai vem perfeito na contagem. É pura magia. No seu II e X, você conseguiu introduzir o kigo, que é a indicação da estação, do tempo em que foi escrito (ventos/outono e tempestade/inverno). Um abraço.

  5. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 2 de Agosto de 2012 20:59

    Obrigadão!!!

  6. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 2 de Agosto de 2012 21:00

    Topo, Jarbas! Topo!

  7. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 2 de Agosto de 2012 21:01

    Edjane, valeu pela sensibilidade!

  8. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 2 de Agosto de 2012 21:02

    É uma tentativa!

  9. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 2 de Agosto de 2012 21:03

    Continuemos!

  10. Jarbas Martins 3 de Agosto de 2012 6:29

    Prepara o prefácio para os meus “51 Haiciais”, poeta Lívio Oliveira ! Aliás, não sei se são haicais estes poemetos postados aleatoriamente na rede social.Lívio Oliveira, Edjane Linhares e Nei Leandro de Castro com a palavra.

  11. Edjane Linhares 3 de Agosto de 2012 12:45

    Jarbas, não tenho o dom da palavra, como vocês. Cada estilo de escrita revela a personalidade do autor. Os seus haicais (para twitter) são charmosos e modernos. Estou sem escrever há anos, mas ontem no meu quintal escrevi algumas linhas, que dedico a você e a Lívio. Abraços.

    Manto rio verde
    quadras em vez de capim
    castigo da seca

    na tarde fria
    seta de asas certeiras
    fiéis gaivotas

  12. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 3 de Agosto de 2012 15:25

    Edjane, que bom que o desejo poético tomou conta de vc! Parabéns!

  13. edjane linhares 3 de Agosto de 2012 19:13

    Preciso de mais tempo para lapidá-los. Estes tiveram pequenos deslizes. Enviarei para os seus emails, posteriormente. Grata.

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