Sobre “Inimigos Públicos”, em cartaz

“Um belo, denso e envolvente filme de gângster este Inimigos Públicos de Michael Mann. Quem é fã do diretor de Miami Vice e Colateral talvez reclame do rótulo “filme de gângster”. E daí? Não há nenhum mal nele. Pelo contrário: faz parte da tradição do cinema norte-americano o comentário social a partir da história de bandidos notórios, a começar pelos Scarface (o de 1932, de Howard Hawks, e o de 1983, de Brian De Palma), passando por filmes magníficos como O Segredo das Joias, de John Huston, a trilogia dos Chefões, de Coppola, e toda uma parte importante, talvez a mais notável, da obra de Martin Scorsese.

Em Inimigos Públicos, o assaltante de bancos John Dillinger recebe a interpretação charmosa de Johnny Depp, o que já predispõe o filme para os hormônios da plateia. Ainda mais que a Depp se associa a francesa Marion Cotillard (de Piaf), como seu par romântico, como a envolvente Billie Frechette. É um daqueles romances bandidos terminais, candidato a uma antologia do gênero.

Mas, claro, o que faz de Inimigos Públicos um filme diferente do usual é o tom empregado por Mann. Bastante rápido e convincente em cenas de ação, ele se permite, no entanto, um tempo considerável no desenvolvimento dos personagens. Cria ambivalências e rivalidades, que dão o tônus emocional à obra. O maior duelo é aquele entre Dillinger e seu perseguidor, Melvin Purvis (Christian Bale). Há entre os dois um embate físico, mas o principal se resume a uma luta de olhares, trocados entre grades, quando Dillinger se encontra preso numa delegacia. São momentos de intensidade. E que se colocam muito além de uma banal luta entre bem e mal, ou entre mocinhos e bandidos. Tudo é mais complexo, mesmo quando há de um lado um ladrão de bancos e, de outro, um policial obstinado.

Acontece que existe uma continuidade entre crime e política nessa grande tradição americana. Aqui, ela é representada por Melvin Purvis, dividido entre o dever e a desaprovação à política do seu chefe, J. Edgar Hoover. De certa forma, a trajetória de Melvin é mais trágica que a de Dillinger.” LUIZ ZANIN

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