Sobre jornalismo abutre

Por Tácito Costa

Em sua coluna de hoje (05) no Novo Jornal Jomar Morais escreve sobre imagens chocantes postadas nas redes sociais do jovem estudante Augusto Medeiros de Araújo, encontrado morto após três dias desaparecido, assassinato que comoveu a cidade. Felizmente, ninguém das minhas redes de amigos postou tais fotos. Correria o sério risco de ser deletado junto com as fotos.

Essa sede de imagens e notícias sensacionalistas, que tem a violência como matéria prima não é nova. Os veículos impressos pelo menos até a década de 70 usavam e abusavam delas para aumentar suas tiragens. Então não é invenção das redes sociais. As redes substituem, nesse aspecto e com “louvor”, os velhos jornais impressos.

Coincidentemente, vi no último final de semana um filme que considero obrigatório para jornalistas e recomendo para quem se interessa por estudos da mídia em geral. Apropriadamente chama-se “O Abutre” e trata da relação da mídia com a violência para aumentar audiência.

Um tema que não é novo no cinema e que nos remete de imediato para o clássico “A montanha dos sete abutres”, de Billy Wider. É bem provável que não tenha sido mera coincidência esse novo filme também trazer o nome “abutre”.
A direção é do estreante Dan Gilroy, mais conhecido como roteirista, responsável pelos textos de Tudo por Dinheiro e O Legado Bourne. O filme concorreu ao Oscar 2015 de Melhor Roteiro Original, que acabou ficando com Birdman.

É estrelado por Jake Gyllenhaal (O Homem Duplicado, Os Suspeitos, Zodíaco, O Segredo de Brokeback Mountain, que lhe rendeu a primeira e única, até aqui, indicação ao Oscar). Prestem atenção no desempenho desse ator, na minha opinião, magistral. Estranho ele não ter sido indicado para Melhor Ator no Oscar deste ano.

Ao que tudo indica Jomar não viu esse filme. Embora seu texto tenha como título “De abutres e homens” (reproduzi no final).

Jornalistas e veículos de comunicação sem escrúpulos não são propriamente novidades no nosso meio. O que torna o jovem “repórter” Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) ainda mais sinistro são as acentuadas pistas de que se trata de um sociopata, que encontra numa editora de meia idade o par perfeito para levar ao ar o pior do jornalismo.

“O Abutre” é um filme sombrio e embora mostre a realidade atual do jornalismo praticado nos Estados Unidos não tenho dúvida de que não tardará a chegar ao Brasil, sempre tão ágil em copiar o que presta e o que não presta, sobretudo esse último.

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A COLUNA DE JOMAR

De abutres e homens

Uma postagem numa rede social abalou o final do meu feriadão.
Assinado por um membro da Justiça, o texto refere-se a um
episódio relacionado ao assassinato brutal de um jovem caicoense :
“Num momento de imensa dor para a família e amigos do jovem
morto por esses dias, vejo em meu Facebook, de maneira intrusiva,
fotos do corpo do falecido. Não só desnecessárias, como desumanas
e indignas. Daí entro na página “jornalística” para enviar
uma mensagem de repúdio, mas, quando vejo que a referida página
tem mais de 90 mil curtidas, desisto. É abutre demais para dar
conta”.

Meu instinto de repórter levou-me a averiguar os fatos. A página,
denominada “Notícias no Face”, está ativa há um ano e, a julgar
pelo número de curtidas no período, deve ter recebido pelo menos
200 mil cliques, sob a promessa de entregar ao leitor “a notícia
como ela é”.

Não é a única a dissecar as misérias humanas nas redes sociais
(onde há milhares de publicações do gênero), mas, como a maioria
das outras, é produzida sob semi-anonimato e sem os critérios que
deveriam nortear a atividade jornalística. É obra de amador, talvez
gente que lida com ocorrências policiais no exercício de outra função.
A abundância de fotos de “presuntos” e relatos de tragédias sugerem
a existência de muitos colaboradores.

Não foi “Notícias no Face” quem inventou a fórmula “escândalo e
sangue” para atrair leitores. O sensacionalismo e o “jornalismo marrom”
(aquele da difamação e das chantagens) tiveram dias de glória
sombria em jornais, revistas e no rádio e hoje comemoram a sobrevida
em horários nobres da TV, seja na versão escrachada e histriônica
– a dos Datenas e assemelhados – ou no estilo polido de telejornais
nobres. Nas redes sociais, no entanto, esse jeito irresponsável
de tratar a informação, operado por amadores, ganhou contornos
de uma enorme ameaça à sanidade coletiva e à honra das pessoas.

Ao ver as imagens publicadas na página citada e em outros blogues
do horror, senti-me profundamente incomodado, mas nada
me impactou tanto quanto sua vasta audiência. É aí, penso, que
está o melhor diagnóstico do problema, um nível acima dos estudos
recentes sobre os chamados linchamentos digitais e do clamor
pela atualização dos códigos legais às novas circunstâncias geradas
pela tecnologia.

Se há quem opere – e até ganhe muito dinheiro – com a exposição
espetaculosa da maldade, da violência, do sangue, da injúria
e da difamação é por que existem “abutres” que desfrutam cadáveres
decepados e reputações enlameadas, em mórbido exercício de
catarse.

E abutres – por favor, não se assuste – existem em cada um de
nós, sempre prontos a arrastar-nos ao banquete de restos putrefatos,
mesmo que disfarçado de “justa” indignação.

O ponto, aqui e agora, não é xingar e encontrar mais um culpado.
É descobrir como fazer tantas almas rastejantes a ver o sol e
trocar o cardápio, em favor de um mundo mais humano e proativo.

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