Sobre livros e escritores

Foto: Antonio Heredia

Velho é certo que estou ficando. Impaciente também. Parece que essas duas coisas andam juntas. Não há como negar. Os sinais estão por toda parte. Já rabugento não sei. Não gostaria de ficar. Sempre temos uma visão edulcorada, condescendente da gente e às vezes não enxergamos o óbvio.

Este ano iniciei uns quatro a cinco romances e deixei pelo caminho. Alguns nas primeiras páginas, outros já tendo chegado a 80, 90 páginas. A questão inevitável que se coloca é a seguinte: estou ficando chato pra literatura? Bom, pode ser que eu tenha mudado. Ou os romances mudaram e a antiga liga que existia acabou.

Fiquei pensando também que às vezes os escritores querem inventar demais, para se diferenciarem e mostrarem que são os caras, não se importando se os leitores têm formação ou saco para acompanharem suas obras. Hoje não estou mais interessado em formas literárias intrincadas, virtuosismos e vanguardismos. Quero, apenas, ler uma boa história.

Felizmente, depois desses livros todos descartados cheguei a um que iniciei esta semana e estou gostando, “Os enamoramentos”, do escritor espanhol Javier Marías.

Compartilho com vocês esse trecho sobre escritores, escrito no livro pela editora María Dolz, narradora do romance:

“Tinha mais preguiça para enfrentar minhas tarefas, ver meu chefe se pavonear, receber os chatérrimos telefonemas e visitas dos escritores, e isso, sei lá por quê, tinha acabado se transformando numa das minhas incumbências, talvez porque eu tendia a dar mais importância a eles do que meus colegas, que simplesmente fugiam dos ditos cujos, sobretudo dos mais convencidos e exigentes, por um lado, e, por outro, dos mais chatos e desorientados, dos que viviam sozinhos, dos que são um verdadeiro desastre, dos que paqueravam de um modo inverossímil, dos que anotavam nosso telefone para começar o dia e comunicar a alguém que ainda existiam, valendo-se de qualquer pretexto. São gente esquisita, a maioria. Levantam-se da mesma forma que se deitam, pensando em suas coisas imaginárias que no entanto lhes toma tanto tempo. Os que vivem da literatura e adjacências, e portanto não trabalham fora — e já vão sendo uns tantos, nesse negócio tem dinheiro, ao contrário do que se proclama, principalmente para os editores e distribuidores —, não saem de casa e a única coisa que têm de fazer é sentar ao computador ou à máquina de escrever — ainda tem um ou outro pirado que continua utilizando esta última e cujos textos têm de ser escaneados, depois que ele os entrega — com incompreensível autodisciplina: só mesmo sendo anormal para trabalhar em alguma coisa sem ninguém mandar.”

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