Sobre Macunaíma de João DaMata

Excelente texto, Damata. é claro que o nosso antepassado indígena e nem nós, contemporâneos miscigenados, não somos tristes (tisque, como diz a lavínia), muito pelo contrário.
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John Mawe, que esteve no brasil entre 1809 e 1810 e visitou com D. João VI algumas jazidas em MG, relata em seus diários que a busca incessante pelo enriquecimento fácil (a corrida pelo ouro e diamantes), fez do brasileiro, mais especificamente do mineiro, sujeitos avessos ao trabalho:
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“O que afasta ainda mais os habitantes desta cidade [Vila Rica] do hábito de uma indústria regular, é a esperança contínua que alimentam de se tornarem repentinamente ricos pela descoberta de minas. Estas idéias enganadoras, inculcadas no espírito dos filhos, dão-lhes incalculável aversão ao trabalho, embora vivam todos miseravelmente, e, muitas vezes, dos obséquios de outrem.”
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Mawe, reitera sua observação, inclusive no Rio de Janeiro:
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” Existe grande inclinação para a mineração entre os elementos da classe pobre. Iludindo-se com a perspectiva de ficarem rapidamente ricos, faz com que desprezem o trabalho, acarretando-lhes privações e miséria. Mesmo entre as poucas famílias deste distrito [Macuco-RJ], observei alguns exemplos de seus efeitos: os que se dedicavam inteiramente à mineração apresentavam-se, em geral, mal vestidos e pessimamente alimentados […]”.
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Rugendas, que também esteve no Brasil no período Joanino, faz a mesma associação salientando ainda como essa “falsa riqueza” corrói o caráter do mineiro:
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“A imensa abundancia de ouro em Minas Gerais, o lucro fácil que dava outrora esse metal, não podiam deixar de provocar conseqüências bastante prejudiciais ao caráter dos mineiros; a ociosidade, a prodigalidade, que andam de par com inúmeros desmandos. É preciso acrescentar a isso outras circunstancias também prejudiciais: a afluência de vagabundos de todas as partes do Brasil, a proibição de exportar o ouro e os diamantes para fora da província, etc. Dessas medidas resultaram crimes e violência; não é de espantar, portanto, tenha o povo de Minas Gerais uma reputação duvidosa.”
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De qualquer maneira, nos relatos desses viajantes europeus não se fala que somos sisudos ou tristes, Rugendas nota a esquiva do brasileiro em relação ao estrangeiro, mas compreende, já que muitos deles (ó, a ambição não é privilégio dos brasileiros!) são guiados pela cega ambição:
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“Não é raro ouvirem-se amargas censuras dirigidas aos brasileiros acerca desse aspecto de seu caráter [a desconfiança em relação aos estrangeiros]; […] para ser justo, é preciso convir em que a desconfiança para com o europeu não é inteiramente injustificável. Ela assenta na convicção de que os europeus que vêm para fazer fortuna, no comércio, nos empregos públicos ou de qualquer outra maneira, não têm nenhum amor ao país nem aos seus habitantes; ao contrario, um absurdo orgulho fá-los afastarem-se destes últimos; pensam apenas em se enriquecer para levarem em seguida para a Europa o que tiverem juntado; e para atingir esse objetivo, mostram-se decididos não só a fazer qualquer negócio no Brasil mas até a trair o país”.
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Sobre o caráter geral, a representação é de alegria, como nos diz Mawe:
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“muito pouca coisa basta para precipitá-los num estado de alegria, que atinge ao atordoamento e à embriaguez. […] Se há  pouca diferença […], entre Lisboa e o Rio de Janeiro o mesmo não ocorre nas classes inferiores e só estas podem ser chamadas povo. Nelas nada impede o desenvolvimento do caráter nacional e elas se diferenciam no Rio de Janeiro, e cercanias, das classes inferiores de Portugal, ou pelo menos da capital de Portugal; suas atitudes são mais francas e desembaraçadas. Tudo no Rio de Janeiro é mais animado, barulhento, variado, livre.
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Ewbank, estadunidense que também aportou no Brasil à essa época, também os vê como mais animados que os portugueses e que são, “[…] um povo hospitaleiro, amigo, inteligente e ambicioso. Estão adiantados em relação aos portugueses quanto à liberalidade de sentimentos e espírito de iniciativa”. Sobre seus lazeres:
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“As festas e procissões constituem os principais divertimentos populares: são os principais esportes e passatempo do povo. […] não levar tais fatos em consideração seria omitir os atos mais populares e esquecer os protagonistas favoritos do drama nacional.
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Ernst Ebel, alemão, também observa seus divertimentos, porém menosprezando-os, e aqui fica claro o preconceito: há o divertimento, mas não é bom para gente mais “culta”:
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“Concertos, bailes públicos e locais de reuniões populares são coisas que não se conhecem e, como entretenimento, não há mais que as igrejas e as procissões (que eram animadíssimas, para os pobres – grifo meu). Dêsse modo, a um estrangeiro culto só resta apreciar a bela e generosa natureza, o que, por certo, é uma esplendida compensação.
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A coisa piora muito, Damata, quando se fala nos negros, estes sim teriam enegrecido/ denegrido (quer adjetivos mais preconceituosos?) o caráter do brasileiro.
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O imaginário dos europeus teve, muitas vezes, força de intervenção  e transformação na realidade da época. Para eles era necessário intervir na vida cotidiana dos homens comuns com os valores da modernidade em detrimento de suas tradições. Seus discursos liberais foram introjetados, tensa e dramaticamente, na consciência do homem comum. Seus relatos sobre o cotidiano das classes subalternas – que pela perspectiva da modernidade os interpretou como indolentes e bárbaros – pode ser analisado como componentes de suas práticas sociais e de sua cultura que não era de acúmulo, mas de subsistência, não sendo, portanto, claro, inferior, apenas diferente.
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Essas representações persistem ainda hoje na sociedade brasileira, por exemplo, caracterizam negros como em estado de barbárie e desqualificados. Os reflexos desse imaginário são notáveis na marginalização social dos pobres em geral e que pode levar a destruição de suas culturas.
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A esses senhores indicaria a leitura do “homem cordial”, nas “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda. Ora, não jogamos xadrez, porque aqui é estranho ser sisudo, joagamos pelada, vamos ao Maraca. Até a nossa religião é alegre: “ergueei as mãos”…
beijos a todos.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 21 de junho de 2010 15:00

    Valeu, minha querida e culta Nina

    É isso ai. precisamos demistificar o que eses estranjas viram com um olhar europeu preconceituoso e colonizador

    Sei que voce leciona essa matéria e ja escrevu e publicou sobre os viajantes

    No meu artigo eu falo do Paulo Prado de quem havia falado a voce em comunicação privada

    beijos mais

  2. Nina Rizzi 21 de junho de 2010 14:44

    ô, esqueci de dizer, as citações estão nas seguintes obras:

    EBEL, Ernst. O Rio de Janeiro e seus arredores em 1824. Tradução e notas de Joaquim de Sousa Leão Filho. ed. ilustrada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972.

    EWBANK, Thomas. A vida no Brasil; ou Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras, com um apêndice contendo ilustrações das artes sul-americanas antigas. Tradução Jamil Almansur Haddad; apresentação Mário Guimarães Ferri. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1976, ilust. (Coleção Reconquista do Brasil, 28).

    MAWE, John. Viagem ao interior do Brasil. Introdução e notas de Clado Ribeiro Lessa. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1978. Edição baseada na de 1944, publicada no Rio de Janeiro, por Zélio Valverde. (coleção Reconquista do Brasil, 33).

    RUGENDAS, João Mauricio. Viagem pitoresca através do Brasil. Tradução Sérgio Millet, Biografia Rubens Borba de Moraes. 7ª ed. São Paulo: Martins; Brasília: INL, 1976. ilust. (Biblioteca Histórica Brasileira).

    beijos mais.

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