Sobre meu processo de escrita: Entre criação, afeto e rotina

Sobre rotina diária…

Gosto de rotina. Acredito que pessoas que têm uma agenda cheia funcionam melhor com organização. É meu caso. Como eu tenho uma filha de 12 anos, que é deficiente auditiva e está no 7º ano, preciso organizar minha vida de acordo com a dela. Então, dormimos cedo para levantar cedo. Ela tem atendimento pela manhã, no centro de reabilitação para surdos (SUVAG) e eu acompanho-a. Nos dias que não tem atendimento, estudamos juntas as matérias da escola.

À tarde, quando ela está tendo aula online, eu trabalho nas minhas atividades escolares, já que sou professora da Rede Pública de Natal. Planejo atividades remotas, envio-as para as crianças, tiro dúvidas, preencho formulários, participo de reuniões e de formações. A noite é o momento que reservo para fazer cursos ligados ao movimento negro e tudo relacionado à minha vida – enquanto militante negra –, além da leitura de livros. Nos finais de semana procuramos fazer atividades em família, como jogar ou ver filmes juntos.

Sobre o ritual de preparação para a escrita…

Eu nem posso dizer que tenho um horário que trabalho melhor. Acredito que mães que trabalham não podem se dá a esse luxo. O que acontece, na verdade, é que faço minhas atividades de acordo com a disponibilidade de tempo que tenho. Mas, de fato, o momento que mais gosto de escrever é durante a noite, quando todes já foram dormir.

Passo o dia amadurecendo uma ideia; quando paro, sento em um local confortável e me ponho a escrever. Nada muito ritualístico. É, na verdade, bem prático. Eu sei que só terei aquele momento para escrever, então preciso aproveitar. Como escrever, para mim, é um processo de cura, acaba sendo terapêutico poder reservar algumas horas só para mim e minhas emoções.

Sobre o processo criativo…

A escrita das crônicas é mais tranquila. Eu, geralmente, acompanho algum acontecimento midiático e registro minha opinião sobre o fato, ou descrevo algo que se passou comigo e vejo como necessária a divulgação na forma de denúncia. Algumas vezes faço análises teóricas sobre assuntos ligados à negritude e ao racismo, a partir das leituras dos intelectuais negros que venho fazendo. É uma forma de educar e fomentar o debate de questões que foram historicamente silenciadas na academia. Como a crônica é um texto curto e com linguagem acessível, aproveito para alcançar mais pessoas.

Já a escrita dos contos é diferente. Eu vou fazendo pequenas anotações em blocos, no celular, depois organizo na forma de conto. A mistura entre conseguir abordar a temática, seguir a técnica do conto e controlar o emocional, exige um pouco mais. Mas, geralmente, quando eu sento para escrever, a história flui de uma única vez. É como se a narrativa estivesse pronta para sair, só aguardando o momento certo. Como se a voz de várias mulheres com quem convivi, e que existiram dentro de mim, quisessem falar por si. Eu respeito, honro e escrevo.

Em relação à pesquisa, essa é uma prática necessária. Como meus contos e crônicas são uma escrita de manifesto, eu preciso ter a responsabilidade de aprofundar nas leituras, não apenas de textos teóricos, mas também de obras literárias escritas por pessoas negras, para produzir um conteúdo aprofundado, fugindo dos debates rasos das redes sociais. É muita responsabilidade, sobretudo quando se é a primeira, e até agora única, colunista negra do RN. 

Sobre as travas da escrita…

Quem tem filhes e uma outra profissão, além de escritora, não pode se dar ao luxo de procrastinar.  Então, as crônicas para o jornal, eu nem tenho como não escrever, apesar de saber que conto com a compreensão da equipe, caso algum dia eu não consiga produzir o texto. Eles são sempre muito compreensivos!

Em relação à escrita dos contos, eu não estabeleço uma meta. Eu sinto a necessidade de dar vida às vozes negras e apenas escrevo. A narrativa vem. Não gosto da ideia de produção em massa. Não fico preocupada com uma escala industrial. Estou mais comprometida com a qualidade dos meus textos e a necessidade que eles impõem de virem para o papel. Honro com minha ancestralidade. Ela dita o ritmo.

Já o medo de não corresponder às expectativas é algo que ronda todas as mulheres, sobretudo, negras. Fomos ensinadas que este não é o nosso lugar, então, escrever e publicar é sempre um desafio muito grande. Nossa capacidade intelectual foi colocada à prova durante séculos, inclusive com o racismo científico. Por mais que saibamos da nossa capacidade e competência, não temer é uma tarefa bem difícil. Mas, isso não me amordaça. Muitas ancestrais deram a vida para que nossas vozes fossem ouvidas. As nossas narrativas já foram contadas tempo demais pela boca do outro. Mulheres negras ainda são apenas 6% do número de publicações. Precisamos e devemos escrever. Escrever é um ato político.

Sobre inspirações…

Minha inspiração vem das minhas mais velhas e dos meus mais velhos. Com elas/es aprendo tudo. Leio e releio obras de diferentes escritores e busco inspiração. Quero ser um pouco de cada um deles. Sigo aprendendo. Mas, infelizmente, a inspiração para a minha escrita também surge do racismo cotidiano. São episódios que exigem de nós uma denúncia e uma manifestação escrita, afinal, estamos diante de uma disputa de narrativas.

Mas, nem tudo são dores. As vivências em espaços como os terreiros de candomblé e jurema, além de nos fortalecer espiritual e culturalmente, nos dão fôlego e ideias para várias histórias interessantes. Como estou entrando em uma nova fase de escrita, essa experiencia junto aos meus irmãos, irmãs e babalorixá, tem sido muito potente.

Sobre a escritora que fui e quem eu sou hoje…

Eu tenho muito respeito por mim. Acredito que passamos por fases que estão ligadas ao nosso amadurecimento, não apenas técnico, mas também enquanto ser humano. Quando leio minhas primeiras crônicas, gosto de umas e sinto que faltou aprofundamento em outras, mas era o que eu sabia na época, tanto que refiz várias para o livro “Crônicas para acordar a casa grande”, que será lançado em breve.

Acho que venho ganhando segurança e estou ficando cada vez mais afrontosa (risos). Quanto aos contos, penso que talvez minha fase de denúncias tenha cumprido seu papel. Sinto que falei de todas as dores que havia em mim, concluindo meu processo de cura através da escrita.

Hoje sinto desejo de falar de outras coisas, afinal, pessoas negras não falam só sobre racismo; temos um futuro, embora as estatísticas mostrem o contrário. É sobre isto que quero escrever agora: amores, prazeres, nossas culturas e filosofias. Se eu pudesse dizer alguma coisa para mim mesma, seria: “que bom que aceitou o desafio de ser a primeira. Você abriu as portas para as outras que virão. Parabéns!”.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

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