Sobre a necessidade de se dar um tempo

Por Maria Clara Paiva

Os pensamentos correm contra os ponteiros do relógio. É hora de despertar, improvisar um café da manhã, tomar uma ducha, escolher uma roupa que torne a aparência apresentável, checar a arrumação da bolsa, da carteira, do penteado, e o trinco da porta de casa. O trânsito não perdoa, muito menos as auto-cobranças.

– Deveria ter saído mais cedo de casa! Deveria ter escolhido outro sapato! O teste na segunda, as notas dos críticos, a conta no fim do mês, o artigo a ser revisado, a reunião às 12…

A respiração ofegante entrega o ritmo da mente, e a mente se entrega à inútil corrida contra o tempo. Frenesi atrás de frenesi, e a vida entregue ao modo automático de reprodução. Não mais se produz. Não mais se conecta com aquela apreciação pelas abstratas pinceladas de Picasso. Esquece-se da doçura das notas de um piano, do gosto – desde a infância – pela piada muda do palhaço, do aroma da parede recém pintada.

– Quê? Quanta bobagem! Sentimento? Quanta utopia! Não há tempo para repensar… Não posso me entregar ao fracasso… O quê dirão de mim?

E a programação repercute dia após dia, pessoa a pessoa, humores a humores. O despertador, o café, a ducha, a roupa, a bolsa, a carteira, o penteado, o trinco, o trânsito, as culpas transeuntes. Os sentimentos não mais são reconhecidos, as segundas chances se esvaecem, e as prioridades gritam: a (auto)promoção no trabalho, o carro novo, as especulações alheias, a festa da empresa, o contracheque.
A vida se entrega à sobrevida. Os pensamentos se desconectam. A razão é perdida.

– Quem sou eu? Passional, racional, essencial ou material?

O despertador foi adiado. Um presente foi dado a si mesmo: café da manhã na cama. A ducha, agora, salgada e extensa. Não se dispensava uma camisa confortável, uma bolsa largada no cabide – repleta de cartões postais. O penteado era marcado pela boa vontade do vento que soprava.

O trinco da porta de casa estava, propositadamente, aberto: foi-se dar um tempo a si mesmo. Foi-se ser livre.

– Ah, o frenesi que me perdoe!

Natural da Cidade do Sol. Estudante de Psicologia. Amante de prosa, poesia e música clássica. Contempla a beleza de um abraço apertado e da espontaneidade de um sorriso largo. Não dispensa um moleskine dentro da bolsa. Devaneia mais do que se acha à primeira vista. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Márcio 13 de novembro de 2017 23:42

    Que texto! Que reflexão!

  2. Tácito Costa 7 de julho de 2015 15:53

    Maria Clara enviou um simpático e-mail querendo saber se poderia enviar seus textos para publicação no Splural. Respondi que sim. Claro. Essa tem sido nossa política ao longo desses oito anos, sempre acolhendo a todos, sem discriminação, filtros editoriais ou quaisquer outros. Portanto, seja bem-vinda Maria Clara. Sinta-se em casa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo