Sobre o amor

amor

Caro Rilke,

“O amor é sentimento único, mas não é igual. Isso o faz um monstro terrível e ao mesmo tempo desejado. Torna o homem masoquista, egoísta. É tão forte que desmascara o individualista.

Quem nesta vida pode ser tão rico sem ter um ser amado? Que delícia teriam as águas do mar se fossem insípidas? Que beleza teria a noite sem ter o céu de estrelas bordado? Que fascínio teria abrir, ao amanhecer, uma janela se o Sol não fosse dourado? E no campo a Primavera sem os apaixonados querendo flores para colher? Que suavidade há no olhar dos que não amam? Que certeza há nos corações dos que não crêem no amor? E quantas dúvidas moram, perpetuam-se nos corações dos que amam? É o doce e o sal, o amor; o veludo mais áspero que a minha mão já tocou; é a ferida que mais arde e que parece não precisar de cura, porque se ela cicatriza vem com ela a morte do amor. É preciso que doa para permanecer vivo, é preciso que lateje – não basta ser latente -, incomode, tem que ser mesmo forte, irreverente, cruel, um carrasco que castiga, causando prazer em vez de dor. Só assim pode ser amor; inquietante, barulhento, dentro da alma. Mesmo que às vezes a boca cale, o amor precisa ser uma tormenta dentro do coração. O amor vive da guerra dentro da paz que proporciona. Alimenta-se do desejo contínuo de permanecer… Indecifrável, indefinido. O amor me faz entender de amar; não de amor.

Para entender de amor, morri. Até jurei desamar ou nunca mais amar, mas com este poderoso, quem pode? Vira e mexe, você xinga o mundo, desfaz-se em pranto, risca, rabisca sentimentos, pensa que chegou ao mais profundo e, de repente, você submerge e emerge das águas profundas deste sentimento um outro amor. Amores são amores, divergem tanto e não poderia ser diferente. Por ser universal é único, não é comum; tem personalidade; chega diferente a cada um. O amor… A dor que ninguém rejeita; a poesia que todos querem cantar; o profundo mar; o abismo que todos querem velejar; o obscuro; o negro; o transparente; o claro sentimento da vida. Nele tudo está contido. Tudo há. Não há falta de razão no amar, no amar de cada um. No modo de dizer que sente, ama ou de sentir. Ele é permanente. O eterno sentimento… Sem face, sem cheiro definido, sem lugar-comum; nasce nos becos, no gueto, na lama, em sodoma, em gomorra, onde quer que ódio morra, nasce o amor. Eu desconheço sentimento mais profundo, nem o vinho mais caro, nem a uva mais rara, nem o manjar mais doce tem o seu sabor. Um sabor tão raro, doado pelos deuses, presente divino; anjo sem rosto; um céu cheio de inferno; e fogo; que nos consome; purifica e dá vida.

Assim, é o amor… Doce mistério da minha vida, da tua, de todos; quem não carrega consigo a larva desta borboleta tão mutante com asas plenas? um viajante sem pouso certo habita nas noites, até nos sepulcros; no coração daqueles que mesmo enterrados foram, levando consigo um segredo de amor; os mistérios noite a dentro nos cemitérios, quantos partiram pobres sem provar o seu sabor? No coração da prostituta, que a carne doa sem pudor, nela também habita o amor; este sentimento que me move, te move, conduz o mundo; do santuário ao profano ele é a mola que move, que faz vibrar, que pulsa e faz jorrar sangue ao órgão mais vital; vício; adrenalina; pulsante coração cheio de amor habita em todo ser que ama. Será assim o amor? Tenho amado tanto… Tento entender o amor. Não existe no mundo este professor. Todos já tentaram traduzir, tentam tingir de alguma cor. Muitas tentativas e ele será sempre mutante, errante, perpétuo, imperfeito, frágil, sutil , assim como as estações: chuvoso, nublado, outono perfumado, quente como o Sol, num dia de Verão, com seu aroma de Primavera, inconfundível; o seu colorido possui cores tão cintilantes, tão diferente; ninguém consegue pintar um quadro com a verdadeira cor vinda do amor” (In: Johann e Maria, Parte VIII).

(Ednar Andrade).

Disse tanto ou tentei dizer,mas também tenho a certeza que esta foi a minha visão neste contexto, quando escrevi em 21 abril de 2010. E esta não é a verdade sobre o amor. Longe de mim ser dona de alguma verdade, principalmente quando o assunto é tão divergente quanto este sentimento que chamamos AMOR.

Querido Rilke, em Direito dize-se: “cada caso é um caso”. E no amor… Cada amor… É um amor. Não existe uma forma direta, concreta,não existe fórmula, nem tampouco receita para amar ou sentir-se amado.

Minha postagem: ela refere-se a uma notícia que encontrei por aqui navegando no uol. Chamou-me a atenção e pus-me a refletir se isso é amar, daí gerei o título da postagem. Formar um conceito sobre o amor é muito particular. Cada um com suas experiências, satisfações – ou o contrário-, vê o amor como o sente, vivencia ou vivenciou. Qualquer maneira de amar vale a pena; é um fato! Nisto contigo concordo e nada discordo e o que expressas é o que sentes, é a tua visão particular do teu paraíso ou inferno.

Já dizia Tche: “hay que endurecer sin perder la ternura”.

O amor mudou-me, como certamente a ti também. Por isso, posso compreender, entender, até sentir um forte cheiro de,perdoe-me se estiver enganada, ironia, descrença, desolação na tua abordagem ao comentário feito à minha postagem.

Fica assim não.

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo como “estou contente outra vez” (Caio Fernando Abreu).

PS: olha se é quimera, não sei; mas, nenhum de nós bebe nesta taça sem sentir o seu sabor. Pela tua revelação, lamento. Mas, quem não gostaria de ter um amor e compartilhar a vida até o último instante. Foi isso que me chamou a atenção: quantos de nós terá este direito? Não importa ou importa? fica a pergunta.

Abraços, querido.

Eu… Ainda creio no amor, com todas as suas quimeras e que as tuas quimeras sejam felizes, daqui para a frente, certamente tu mereces uma feliz quimera. Este é o desejo dessa amiga.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Ednar Andrade 22 de outubro de 2011 16:09

    Psiu, Carlos. Há até quem diga que o amor é foda, e daí? Não é? Rsrs…

  2. Ednar Andrade 22 de outubro de 2011 16:07

    Nada obsta, cada um tem seu conceito sobre o amor, pois se em Direito cada caso é um caso, se para Rilke é quimera, há quem pense no caralho como amor, assim como Jabor.

    Abraços, Carlos.

  3. Carlos de Souza 21 de outubro de 2011 11:13

    gosto muito de lembrar paulo césar pereio dizendo a sônia braga em Eu te Amo, de arnaldo jabor: “amor, o caralho!!!”

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