Sobre o cinema de terror: dos zumbis de Romero aos jogos da morte dos anos 2000

Diretor de cinema George Romero

Por Yago Yan Fonsêca de Faria
Graduando em Letras pela UFRN, monitor de Literatura Portuguesa

Até agora eu ignorava o que fosse o terror, mas já sei: é como se uma mão de gelo agarrasse o coração. É como se o coração palpitasse, até arrebentar, num abismo vazio.
Oscar Wilde

1° rolo: o cinema como máquina de ilusão

Poucos contestarão a idéia de que o medo e o terror são estados ideais a serem retratados pelo cinema. Que outra mídia poderia captar os sons, as imagens, os climas e situações que compõem o genuíno terror de maneira mais fidedigna? O espectador senta-se em silêncio numa sala escura, há certo desligamento de consciência, um desprendimento, uma disposição a aceitar a fantasia.

Nesse estado de relaxamento, uma espécie de estado elevado de consciência, o nosso inconsciente, mesmo que seja por breves instantes, toma o controle e nos leva a um mundo completamente novo onde nós estamos totalmente suscetíveis a nos deixar conduzir por um universo povoado de fantasmas, vampiros, lobisomens e outra diversidade de criaturas fantásticas. O gênero da fantasia, visto não só no terror, via de regra, é tomado por puro escapismo, uma maneira de fugir da realidade e dos problemas, medos e anseios. Mas, então, como fica o terror nessa estória? Se nós usamos o fantástico (seja no cinema ou na literatura) para fugir da realidade por instantes, como podemos recorrer ao terror para fugir do medo e dos anseios do cotidiano? Podemos dizer que não existe uma opinião formada sobre o assunto, quem sabe possamos afirmar que a única razão para tal comportamento é que ao ver na tela outras pessoas sofrendo e se assustando com seres imaginários, mesmo levando alguns sustos, esquecemos temporariamente dos nossos fantasmas interiores e desviamos para personagens de ficção, num processo catártico de identificação, o que nos aproxima deles.

“A noite dos mortos-vivos”, de George Romero

Alguns podem achar que o sujeito tem um gosto pelo sadismo e assiste a filmes dessa espécie para deleitar-se com as dores dos outros, mas não cremos que tal pensamento se sustente. As pessoas sentem a necessidade de sair do marasmo de vez em quando para poderem suportar o tédio de suas vidas ordinárias por mais um tempo; e recorrer ao cinema de fantasia, sobretudo o de terror, faz sentido e diferença, afinal, é gratificante ver heróis e vilões se digladiando e, no fim, o mal sendo derrotado.

Com efeito, é reconfortante ver os mocinhos matando, prendendo ou punindo os vilões, monstros ou bandidos nos filmes, enfim, nada mais prazeroso que evadir-se da realidade por alguns instantes e ver as coisas indo do jeito que nós queremos nas largas telas. No início do terror, no cinema, tínhamos seres imortais, como o temível Nosferatu ou aberrações da natureza como o gigantesco King Kong, com um gosto nada bobo por fêmeas loiras, que o diga as lindíssimas Fay Wray e Jessica Lange.

Desde cedo, portanto, aparecerem manifestações do que era até então um rico gênero literário, concretizadas na tela. O conceito vigente de horror, em meados do século XIX, surgiu quando os primeiros experimentos com sais de prata foram realizados, levando a descoberta da fotografia e o aperfeiçoamento das técnicas de captação de imagem até o surgimento do cinema. Isso é denominado de horror gótico.

2° rolo: Os primórdios do horror

O início do cinema de horror pode ser atribuído ao horror gótico, que era moda entre os escritores da época. O termo gótico foi aplicado a esse tipo de horror muito depois que obtivesse importância, manifestandos-se em matéria de produção constante. Trata-se do horror com “classe”, “chique”, “estiloso”, o antigo horror europeu, de cadeiras de couro, cortinas de veludo e mortes com pouco sangue. O horror gótico, de maneira geral, centra-se em cenários típicos da Europa medieval: castelos, afastadas mansões mal-assombradas, pequenos vilarejos no interior da Europa. Homens de cartolas e fraques, damas de longos vestidos e cabelos bem arrumados, velas com sua luz amarelada, afastando (muito pouco) a escuridão, carruagens, longas capas negras, teatros mal-assombrados, seqüestros, lutas de espada, bailes de máscaras, assassinatos misteriosos.

Dessarte, temos como obras literárias marcantes do horror gótico (pouco antes da invenção do cinema) o conhecido Drácula, de Bram Stoker, estabelecendo o padrão (mais tarde estereotipado) do gênero; o monstro do Dr. Frankenstein de Mary Shelley, os contos escabrosos de Lorde Byron, os poemas obscuros e as curtas histórias de Edgar Allan Poe e tantos outros que deram sua contribuição para a construção do horror gótico, pois veio a constituir os primórdios do cinema de horror.

Desde o início do cinema, com a primeira exibição de uma película pelos irmãos Lumiére, o cinema vem causando espanto e surpresa (ainda mais o cinema de horror que tem justamente essa finalidade); esse elemento surpresa é o que caracteriza o cinema, essa quebra do tradicional, a emulação da realidade e a participação do público em seus momentos, no caso do horror, de medo ou susto. O primeiro filme verdadeiramente de terror foi “The Devi’ls Castle” do lendário George Mélies, que era ilusionista e foi o primeiro a começar a introduzir “truques” em seus filmes, o que possibilitou a evolução dos efeitos especiais e que hoje em dia se faz tão essencial em qualquer filme. O próprio cinema pode ser citado como experimental na época, tendo suas primeiras películas filmadas por pessoas sem qualquer prática ou conhecimento gráfico, foi sendo aperfeiçoado através de estudos de exposição e de jogos de luz e sombra; seus primeiros diretores foram verdadeiros desbravadores.

Com a virada do século, o cinema expandindo-se como arte e entretenimento, tanto nos EUA quanto na Europa, o inventor Thomas Edison faz em 1910 sua primeira versão de Frankenstein para o cinema, inspirado na infinidade de peças teatrais sobre o cientista que é obcecado pela idéia de criar a vida e acaba por dar origem a um monstro feito de partes humanas costuradas, arruinando a vida de seu criador. Em um movimento chamado de “Expressionismo Alemão”, foi criado um novo tipo de terror, o psicológico, aquele onde os monstros são unicamente os que vivem dentro de cada um de nós. Filmes como “O Gabinete do Dr. Caligári” de Robert Wiene e “M, O Vampiro de Duselldorf” de Fritz Lang, o cinema expressionista traz ao recém criado gênero de terror. Lembramos que com o surgimento da psicanálise e os estudos e primeiras publicações de Jung e Freud, o terror já fazia menção e abordava um assunto que estava apenas nascendo, o inconsciente humano.

Na década de 20, foram feitas adaptações de clássicos da literatura de suspense, tais como: ”O Corcunda de Notre-Dame”, “O Médico e o Monstro”, “O Cão dos Baskervilles”, a década traça o perfil do cinema de horror, enquanto nos EUA tal estilo tem a função única de entreter; na Europa, ele vai mais além, tem uma profundidade maior, tem a finalidade de passar alguma mensagem. Em 1921, é lançado “Nosferatu” de Murnau, um verdadeiro marco no cinema de horror. Ora, se Drácula é na literatura o grande patriarca dos vampiros, na telona ele perde seu posto para o aterrador Nosferatu, embora esse mesmo seja uma versão não oficial do vampiro de Bram Stoker. Toda a sensualidade suprimida anteriormente foi posta no filme de vampiro que tinha uma sede de sangue quase sexual, uma compulsão por seguir os instintos básicos que beirava a bestialidade, o vampiro buscava a sensualidade em todos os sentidos, tinha a noite como ambiente e há quem diga que a imagem de Nosferatu careca e se levantando de seu caixão ereto, em pé, representasse uma ereção.

3° rolo: do cérebro aos ritos de exorcismo, a habilidade de “assustar”

Agora dando uma pausa na nossa retrospectiva, procederemos a um salto no tempo. Iremos aos anos 60, quando o jovem George Romero resolve trazer de volta à vida os mortos e cria um novo gênero de terror: os zumbis, seres que não estão nem mortos nem vivos, são o limiar do real, criaturas que respondem a um único e selvagem instinto: o de se alimentar, e como eles precisam de sangue quente para alimento, nada melhor que alguns cérebros e corações humanos para fazer uma boquinha.

Assim sendo, o cinema fantástico ganhou muito com o terror que começou a ser criado nos anos 60, novas criaturas, novas ambientações, novos jeitos de assustar, enfim, um novo cinema de terror que surgia nas telas, um cinema mais visceral, mais sangrento e mais violento, obviamente não tão violento quanto o que viria a seguir, mas, para a época, um horror tétrico que transpunha a violência e chegava à beira do sadismo. Romero, quando dirigiu “The Night of the Living Dead”, foi precursor do gênero “Gore”, uma modalidade de cinema que tinha por personagens principais o excesso de sangue e tripas evisceradas. Esse diretor, que dirigiu ainda vários filmes de zumbis, tinha gosto pela coisa, e era talentoso, inspirou dezenas de diretores que fizeram dos zumbis personagens super-populares, talvez os mais populares da atualidade, sendo retratados ainda hoje do jeito que eram há 40 anos atrás, os simpáticos mortos-vivos ainda são errantes e guiados pelo instinto e pela fome, embora suas aparências tenham ficado mais assustadoras, suas mentes não evoluíram, o que não os torna menos aterrorizantes.

A febre do cinema de horror ocorreu mesmo entre os anos de 1970 e 1989, foram toneladas de produções originais e de adaptações de grandes livros, vários diretores se consagraram unicamente por suas produções de terror, Sam Raimi, que com seu “Evil Dead” conquistou o status de lenda; Wes Craven que com o célebre “Nightmare on Elm Street” nos introduziu um dos vilões mais conhecidos de todos os tempos, o famoso Freddy Krueger, que aterrorizava qualquer um que pegasse no sono, tanto na tela quanto na realidade. Foi também na década de 1970 que o terror alcançou o ultimato com “The Exorcist”, a história de uma garotinha possuída que tem o demônio arrancado de seu corpo por um padre descrente, um dos marcos do cinema de horror que, até hoje, 36 anos depois, ainda arranca sustos das pessoas. Nesse mesmo contexto, o cinema de horror atingiu novas proporções: os grandes musicais do cinema, com “The Rocky Horror Picture Show”, que na época foi considerado imoral e repudiado por muitos por ter como estrela principal o Dr. Frank’n Furter, um travesti vampiro da travestida Transilvânia, como explicado na película, o musical atingiu níveis astronômicos de sucesso, mesmo com a precariedade da produção, atingindo status de “Cult” e virou relíquia nas prateleiras.

Tais sucessos podem ser atribuídos aos diretores, mas não se pode tirar o crédito dos atores e atrizes que deram vida aos mocinhos, vilões e vítimas indefesas nos filmes, eles, caracterizados, ficaram para sempre marcados na nossa memória, é impossível não lembrar de Jack Torrance, o escritor falido e sem criatividade com traços de alcoolismo e abuso familiar vivido por Jack Nicholson na clássica adaptação “The Shining”, que, aliás, vem de uma longa linhagem de contos escritos por Stephen “The Legend” King, que teve várias outras novelas adaptadas para o cinema.

Em síntese, o cinema de terror deve muitíssimo à literatura fantástica, a partir dela, muitos diretores e roteiristas se inspiraram para criar roteiros e filmar; além de King, vários outros podem ser creditados como significantes para o gênero como: H.P. Lovercraft, Clive Barker, Edgar Allan Poe, etc, logicamente não foram colocados por ordem cronológica nem muito menos de importância, apenas quisemos citá-los e dar o devido crédito aos mestres do terror que deram origem ao gênero e elevaram à arte o que era puro entretenimento.

4° rolo: não preciso de enredo, eu quero é sangue!!!

Chegando aos últimos anos do relato proposto, nos deparamos com os anos 1990, época em que a tecnologia começa a evoluir bastante e os efeitos antes impossíveis são agora experimentados e usados em larga escala, filmes como: “Bram Stoker’s Drácula” (um remake do original com efeitos especiais e trama fiel), dentre vários outros, abusam dos efeitos especiais que antes não eram tão viáveis. Embora a produção dos anos 1990 tenha sido pouco expressiva se comparada a dos anos anteriores, logo chegou o ano 2000 para dar novo fôlego ao terror, o que se viu foi um aumento no terror sádico, o “Gore”, e uma diminuição bastante considerável no teor das histórias, pouco importava se o entrecho valia a pena, o que realmente faz a diferença é a quantidade de sangue falso e de membros decepados que aparecem na tela, obviamente nem todos os filmes de terror são assim, grande parte dos filmes dessa nova geração é feita apenas para chocar, mas existem sim, e muitas, as produções com bom roteiro.

Com efeito, nos anos 2000 o que se viu foi, as pessoas não ligam tanto assim para o que a história quer passar, preferindo ver membros decepados e vísceras fragmentadas do que pensar em entender o enredo; e que, a impaciência para esperar muito tempo por filmes, faz com que a produção da película sofra uma queda de qualidade. O mais importante agora é observar as evoluções do cinema, ver o que mudou o que melhorou e o que piorou, não nos cabe julgar a importância do cinema de horror, ela existe e pronto, não há nada que alguém diga que retire essa importância.

Por fim, espero ter prestado minha sincera homenagem ao cinema de horror e aos mestres da direção que se esforçaram tanto em nos dar sustos, grato eu sempre serei por vocês tornarem minhas noites de sexta muito mais divertidas.

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