Sobre “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação”, de Haruki Murakami

“De julho do segundo ano da faculdade até janeiro do ano seguinte, Tsukuru Tazaki viveu pensando praticamente só em morrer”. Com essa frase, o escritor japonês Haruki Murakami abre o seu romance “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação”. Um início que incita de imediato à curiosidade, afinal, o que de tão grave teria acontecido para o personagem desejar tanto morrer.

Nas páginas seguintes, a narrativa remete à vida presente do solitário Tsukuru, então com 36 anos, engenheiro que leva uma vida reclusa e monótona em Tóquio, onde trabalha no projeto e na construção de estações de trem, e à sua adolescência, em Nagoya. Na época da escola, ele morava com a família e tinha quatro amigos inseparáveis (duas mulheres, Preta e Branca, e dois homens, Azul e Vermelho). Cada um deles tinha uma cor em seu sobrenome e passaram a se chamar por ela. Menos Tsukuru, que era incolor.

Um dia, inexplicavelmente ele é expulso do grupo. O episódio o marcou de tal forma que Tsukuru desejou morrer e não parou de pensar sobre o assunto nos 16 anos seguintes. Até que, incentivado pela namorada, decide revisitar o passado e reencontrar os amigos, para saber o que aconteceu. Uma jornada de descoberta – recorrente na literatura -, que acaba em autodescoberta.

Há tempos que esse escritor, muito popular no Japão, que nos últimos anos figura como um dos favoritos das casas de apostas para o Nobel de Literatura estava na minha mira de leitura. Recentemente, meu amigo Carlos Peixoto disse-me que havia lido um livro dele e gostado muito, não lembro agora a que livro ele se referiu. De qualquer forma, reacendeu meu desejo de ler esse romancista. Pelo que li na internet, ele tem uma obra romanesca multifacetada.

Eu gostei muito de “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação”. Bem escrito, uma história contada com originalidade. Prende a atenção até o fim. Achei desnecessárias, contudo, algumas partes em que o escritor abandona a narrativa principal para, por exemplo, narrar sonhos de Tsukuru e uma história que o amigo dele,  Haida, conta sobre o pai. Fiquei procurando o que esses relatos acrescentam à história e não achei. Fica parecendo-me encheção de linguiça esse tipo de “intromissão” na história, digamos, principal. Não curto.

Não vou contar sobre o acontecimento que levou o grupo de amigos ao esfacelamento para não estragar a leitura de quem se aventurar pelo livro. Eu me surpreendi. E fiquei pensando em como um acontecimento, que pode ser pequeno ou grande, muitas vezes muda radicalmente e causa enorme sofrimento na vida de uma pessoa.

A parte final do romance, em que Tsukuru vai de Tóquio a Finlândia, para encontro com uma das amigas da adolescência, Preta, em busca de explicações sobre o passado, é muito comovente.

Durante o romance, em várias partes, Tsukuru Tazaki ouve o ciclo de sonatas para piano “Anos de peregrinação”, de Liszt, que eu não conhecia e que ouço agora enquanto escrevo, interpretada pelo pianista russo Lazar Berman, exatamente como ele descreve, uma música melancólica, triste, que tem muito a ver com o clima geral do livro.

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