Sobre o SP, cultura, internet, jornalismo…

Abaixo, entrevista que dei a jornalista Daniela Pachedo e publicada no Jornal de Hoje. Daniela é editora de cultura do vespertino. O título e sub-título são os mesmos que saíram no jornal, mas o restante tem pequenas diferenças. Como a entrevista ficou maior que o espaço, ela fez alguns ajustes e cortes (a primeira pergunta ela reescreveu), com minha autorização e posterior aprovação, quando li o material impresso. Então, o que segue (excetuando-se título e sub-título) é a versão integral, que enviei por e-mail. (TC)

POR DANIELA PACHECO
FOTO: JOÃO MARIA ALVES

Uma entrevista com o criador do “Substantivo Plural”

O jornalista Tácito Costa, responsável por um dos blogs culturais de maior sucesso da cidade, conta um pouco sobre o seu trabalho.

Fale um pouco sobre você?
Nasci em Santana do Matos (RN), em 1961, e lá morei até os 15 anos, depois vim para Natal, onde estudei no Colégio Estadual Winston Churchill. Formei-me em Jornalismo pela UFRN em 1984 – sempre estudei em escolas públicas. Este ano {2010}completei 25 anos de exercício de jornalismo. Estagiei na UFRN e no Diário de Natal. Trabalhei na Tribuna do Norte, Diário do Estado, jornal Dois Pontos, Jornal de Natal, Tv Potengi, Revista Preá, assessoria de imprensa da Fundação José Augusto, onde também coordenei o Prêmio de Poesia Luís Carlos Guimarães e fui professor de jornalismo da UNP. Em 1996, ganhou o prêmio de jornalismo da Coordenadoria de Defesa das Pessoas Portadoras de Deficiência (CORDE), com a reportagem “Preconceito e falta de vontade política dificultam integração dos portadores de deficiência”, e em 2000 recebeu o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, pela “defesa e promoção dos direitos humanos, das liberdades democráticas e pelo exercício pleno da cidadania”.

Tácito, você mantém o site cultural há quanto tempo? E, o que levou para essa empreitada?
Em junho de 2011 o blog completa quatro anos. Eu vinha no pique de editar, por quatro anos, a revista cultural Preá, da Fundação José Augusto, durante o primeiro mandato de Wilma de Faria. Com a saída de François Silvestre da presidência da FJA a revista perdeu o seu maior entusiasta e foi se esvaziando. Eu percebi isso e pedi para sair. Foi aí que começou a germinar na minha cabeça a idéia de criar um blog voltado para o jornalismo cultural. O que daria, de certa forma, uma sequência ao trabalho que já vinha fazendo. Então, poucos meses depois que saí da FJA fundei o Substantivo. Falei com um webmaster meu conhecido, Davi Giácomo, que fez a primeira versão do blog por R$ 1 mil, que paguei em parcelas de 200,00 – rs. De lá pra cá já fizemos duas reformas gráficas radicais, uma com o pessoal da Mariz Comunicação e a última, há cerca de três meses, com o webmaster Nicolau Chiavenato, ambas sem custo, permutei por banners dos dois. Além do último projeto gráfico, Nicolau nos dá suporte técnico, com a promessa de um dia, quando o blog ganhar dinheiro eu pagar todo o atrasado – rs, até agora tudo tem sido na base do afeto e da consideração.

De onde veio o nome SUBSTANTIVO PLURAL?
Arranjar um nome para o blog foi a coisa mais difícil e demorada de todo o processo. Isso porque todo nome que eu pensava ou que amigos me sugeriam já tinha domínio na internet. Criava um nome bacana e quando ia registrar não podia porque alguém já tinha feito isso antes. Até que cheguei ao nome Substantivo. Inicialmente, deveria se chamar somente Substantivo, mas alguns amigos deram a idéia de acrescentar Plural. Eu achava o nome grande, mas já estava cansado de pesquisar e acabei deixando assim mesmo. Foi bom porque reforçou o caráter plural do blog.

Você saberia dizer qual é o perfil dos visitantes do seu site?
Por ser um blog onde o foco principal é cultura e arte, então a maioria dos leitores são escritores, estudantes, artistas, professores, poetas, intelectuais e interessados em textos analíticos e que provocam a reflexão. Porque uma das características do SP é publicar muito artigo e ensaio. Também abrimos espaço para publicação de poesia. Não nos interessa muito a agenda cultural ou o factual em si, isso os outros veículos já divulgam, privilegiamos o debate e a discussão, que às vezes pode ser decorrência dessa agenda ou do factual.

Como você seleciona o que será publicado no blog? Essa é uma tarefa de uma equipe ou de um homem só? E, qual a sua opinião sobre essa função?
É tarefa de um homem só. Dedico muitas horas, com interrupções, dependendo dos outros trabalhos que acumulo, por dia ao blog. Se contasse com uma equipe poderíamos fazer um trabalho mais interessante. No entanto, a dificuldade em conseguir patrocinadores e anúncios é grande. Não consegui ainda viabilidade econômica, mas acredito que isso virá com o tempo. Talvez isso seja mais complicado em função das características do blog, cultural e independente, crítico, sem alinhamento automático com nada e ninguém. A tarefa de seleção dos textos é fácil. Como já leio mesmo os principais veículos impressos e online do país, isso mesmo antes de ter o blog, então é só ir fazendo a seleção, de acordo com o perfil que imprimi ao SP desde o início.

Como você vê o panorama cultural no Brasil hoje?
Com otimismo. Gostei dos trabalhos dos ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira. Os recursos para o setor aumentaram e a política de editais é muito inteligente, descentraliza e contempla com mais justiça os artistas. Segundo o Minc existem no Brasil atualmente cerca de 5 mil pontos de cultura. Saiu-se de um patamar de 0,2% do orçamento total do governo federal para mais de 1%, como a Unesco recomenda. Se investe hoje R$ 2,3 bilhões, o que representa 1,3%. A reforma da Lei Rouanet e do Direito Autoral estão sendo discutidas no Congresso e este ano foi aprovado o Vale Cultura. Claro, muita coisa ainda precisa avançar e melhorar, mas acho que se está indo no rumo certo.

E, em Natal?
Infelizmente, Natal foi na contramão. Tanto a Fundação Capitania das Artes quanto a Fundação José Augusto não se miraram no exemplo do Ministério da Cultura. Os últimos quatro anos foram lastimáveis, praticamente todos os projetos importantes que eram tocados por estas duas instituições foram abandonados, como as revistas Preá e Brouhaha, os prêmios de poesia e prosa, a edição de livros, o Encontro de Escritores (ENE), as Casas de Cultura estão abandonadas, funcionários do TCP não recebem salários há meses, editais não foram pagos, a biblioteca Câmara Cascudo está sucateada. Quatro anos desastrosos e perdidos, que ficarão para a história como dos mais terríveis para a cultura do estado.

Com relação aos lançamentos literários o que você destacaria?
Acho que 2010 foi um dos anos em que se lançou mais livros em Natal. Graças a iniciativas individuais, do Sebo Vermelho e da Editora da UFRN. Praticamente todos os nossos mais importantes escritores lançaram obras este ano, como Tarcísio Gurgel, Paulo de Tarso, François Silvestre, Nei Leandro, Bartolomeu Correia e Iracema Macedo. Antes que me atirem um monte de pedras, esclareço que não é lista de coisa nenhuma, estou citando de memória, pode ser que tenha esquecido algum nome importante.

Quando surgiu a rede social twitter você sentiu de certa forma uma ameaça para o blog?
Não. Embora fosse uma incógnita. Lembro que algumas pessoas chegaram a cogitar isso. Mas acho que não afetou muito os blogs. No nosso caso, ocorreu o contrário. No início de 2010 o blog tinha uma média diária de 1 mil acessos e passou para 2 mil agora em novembro. Em grande parte esse crescimento deu-se devido ao Twitter. Quando posto algum texto mais importante no blog faço uma chamada no Twitter, o que acaba atraindo mais leitores. E geralmente leitores que ainda não conhecem o SP.

Como é a convivência hoje em dia entre essas duas ferramentas?
Excelente. Uma alimenta a outra. No blog o foco é a cultura, sendo que aqui e ali postamos textos de política e sociedade que consideramos relevantes, não é algo fechado, tipo só postar texto cultural. Por exemplo, durante a última campanha eleitoral aumentou o número de textos políticos no SP. No Twitter, dominam os assuntos factuais em geral. No nosso caso, é uma mão na roda, como se diz, porque permite que eu não misture muito os assuntos numa plataforma só. Em média, por baixo, posto cerca de 30 posts/tweets por dia, divididos entre o blog e o Twitter.

Qual a importância da internet para o jornalismo?
A democratização, pluralidade e descentralização das informações. O que é fundamental para a Democracia. O fenômeno WikiLeaks traduz isso muito bem. No mínimo, obrigou a velha mídia a dividir o poder com dezenas de blogs e sites. A internet hoje se apresenta como um contraponto à mídia tradicional, principalmente, à grande imprensa (Veja, FSP, Globo, Estadão etc). Agora, democratizou para o bem e para o mal. Para o bem porque permitiu que opiniões e debates que não interessam à velha mídia fossem veiculados; para o mal porque universalizou a picaretagem, não são poucos os jornalistas e blogueiros que montam seus blogs e o transformam em balcão de negócios e negociatas, extorquem e fazem chantagem. Levaram para rede a velha máxima herdada das redações: “pequenas notas, grandes negócios”. Mas o leitor não é o idiota que muitos gostariam que fosse e saber discernir muito bem uns e outros.

E para a cultura?
Principalmente a difusão, a democratização e o diálogo cultural. Um artista da Europa ou da Ásia, por exemplo, pode muito bem está em contato com o que é feito na América do Sul. Acho que isso pode ser um antídoto contra a xenofobia. Hoje os autores (escritores, artistas plásticos, poetas, músicos etc) podem criar suas obras e jogar na rede. Não ficam mais dependendo da boa vontade de uma editora ou de uma gravadora. E essa arte pode ser vista e ganhar repercussão nos lugares mais afastados e improváveis do globo. Esse é um ganho fantástico, com a internet não faz mais sentido se falar em arte regional porque regional é o mundo, que se transformou na aldeia global antevista por Marshall McLuhan.

O SUBSTANTIVO PLURAL é um blog cultural de sucesso na cidade. O que você atribui a essa conquista?
Não tenho uma resposta categórica para isso. Desconfio que seja uma série de fatores. Tipo, o formato, como se fosse um fórum, onde todos podem participar em igualdade de condições, a qualidade dos textos, o excelente nível dos colaboradores/colunistas, a pluralidade e seriedade com que tudo é conduzido. Isso gera confiança e credibilidade, bens intangíveis vitais para a sobrevivência de qualquer veículo de comunicação, seja impresso ou online.

Qual futuro você imagina para o jornalismo no mundo da Internet?
O futuro na comunicação é a internet. Sobre isso não há mais nenhuma dúvida. Os números mostram que ela avança sobre todos os setores e não seria diferente com relação à imprensa. Claro que em países menos desenvolvidos ou emergentes, como o Brasil, esse futuro chegará de forma mais lenta. Tanto que a crise que atinge duramente os meios impressos nos EUA e Europa ainda não chegou com toda força por aqui. O que leva muitos a imaginar, equivocadamente, que somos uma ilha e que não passaremos o que outros estão passando nessa área. Mas, da mesma forma que atropelou as indústrias fonográfica e de filmes – a próxima é o mercado editorial – irá mudar profundamente a jornalística, é só uma questão de tempo. Quanto tempo? Não sei, ninguém sabe, varia de analista para analista. Agora, veja bem, jornais e jornalistas não vão acabar, apenas mudarão de plataformas, migrando do impresso para o online.

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