Sobre o texto de Valério Mesquita

Amigos e amigas:

O texto de Valério é muito tenso. Penso que ele merece respostas ponderadas para não se “atear fogo ao fogo” (cf. “Doce de coco”, de Jacob do Bandolim e Hermínio Bello de Carvalho).

Ele fala em nome do Cristianismo. Lembro de passagens, nos Evangelhos, que louvam o amor entre os seres humanos – por que não entre heterossexuais e homossexuais? Não estou falando agora de amor no sentido erótico, falo do sentimento bom de uma pessoa em relação a outra. Embora o erotismo seja também sentimento bom: temos genitais porque Deus o quis, Deus nos fez a sua imagem e semelhança, deve ter também genitais.

Vivemos numa república leiga. Os preceitos religiosos (de qualquer religião) não se confundem com a voz do aparelho de estado nem da lei.

Os cristãos têm todo o direito religioso de classificarem as atividades sexuais como quiserem e cobrarem fidelidade de seus ministros e seguidores a tal classificação. Nesses termos, a Igreja Católica e outras denominações cristãs, bem como os islâmicos e os judeus que rejeitam a homossexualidade devem convencer seus fiéis a não serem homossexuais, nos limites da prática religiosa. O espaço público é outra coisa. Cidadania não é fidelidade a uma crença religiosa.

O projeto apontado por Valério não torna o homossexualismo prática obrigatória para ninguém. Ele também não incentiva atentados ao pudor, devidamente criminalizados em relação aos heterossexuais e que também são crimes quando praticados por homossexuais – transar em público, agredir sexualmente outras pessoas, etc.

Tal projeto combate, isto sim, preconceitos e violências. Não é porque uma babá é lésbica que ela atentará contra o pudor infantil. Se o fizer, existem leis que protegem as crianças. Vi na televisão uma babá heterosexual que atentou contra o pudor de um menino, a lei é a mesma que se aplicaria a uma babá homossexual.

Lembro a Valério que homossexuais masculinos e lésbicas são espancados, assassinados, chantageados – existem estatísticas assustadoras, falam até que o Brasil é campeão na área. A lei poderá protegê-los desses crimes que sofrem. O Cristianismo se preocupa com os sofredores – ou não?

Numa antiga edição da revista “Fradim”, de Henfil, dois homofóbicos concluem que os homossexuais são filhos de Deus e começam a atirar pedras para o céu, contra Deus. Diante desse projeto de lei, os homofóbicos atuais farão o mesmo?

Se homossexuais praticam amor, Deus não pode ter nada contra o amor.

A culpa pela discriminação não é de Deus. A culpa pela discriminação é de seres humanos. Mas a humanidade pode melhorar.

Abraços afetuosos para Valério e para todos:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 6 de maio de 2010 10:18

    Denise Querida,

    Veja como é grande a nossa luta. Voce vai precisar cancelar a assinatura de muitos outros jornais, pq existem cidadãos que alem de propagarem preconceitos e baboseiras querem ocupar todos os espaços. Tem emprego no Tribunal de Contas. Aí pode, né!

  2. Denise 6 de maio de 2010 10:03

    Eu fiz minha parte contra a homofobia: Cancelei a assinatura da Tribuna do Norte e por causa da matéria de Valério Mesquita. É pouco, mas é alguma coisa.

  3. Marcos Silva 4 de maio de 2010 22:32

    Nina:

    Obrigado por mostrar sabedorias da tradição judaico-cristã (existem passagens similares noutras tradições religiosas, encaro religião como pensamento e arte). Melhor nós nos mirarmos nessas passagens, não nas manifestações de agressividade e ressentimento em nome de religiosidades.
    Um beijo em seu céu:

  4. Nina Rizzi 4 de maio de 2010 21:26

    sempre, sempre te adorando. olha, de Elesiastes, atribuído ao maior sábio dos hebreus, Salomão:

    9; 2:Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.

    9;6: Também o seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.

    9;7: Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com coração contente o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras.

    9;9: Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol.

    9;10: Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.
    *

    beijos.

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