Sobre os domingos tranquilos (ou: “em memória de um caranguejo-mártir”)

(I)

Domingo era dia de quase nada fazer e depois…descansar, pegar uma rede ou uma Redinha. Parecia até que era o último dia da semana, apesar de ser o primeiro. Mas, o dia da criação – já o tinha afirmado o poeta – era o sábado. O domingo é somente o dia da recriação, da preguiçosa ressaca que invade corpos e mentes. Fazer o quê? Fazer nada, pois é domingo. Melhor esperar. Aí tudo passa e os novos dias se farão, ainda, sob sol. E o sol do domingo parece ser (às vezes, porque até o sol descansa) mais forte, castigador. Como se fosse mais um dos sinais do Pai-eterno. Sinal da dureza, da pouca cortesia, mostrando que a vida é mesmo uma Capela Sistina que os japoneses registram com suas imensas máquinas, sob berros da segurança nem tão religiosa assim: “No photo!!!”.

(II)

E aí o domingo continua sob o teto maravilhoso de Deus, ou de Michelangelo, Miguel Ângelo, que quis se aproximar de Deus e ganhou um problema de coluna. E, cê sabe? Se tem “Michelangelo” no nome, já tem meio-caminho andado para ser gênio. Michelangelo Buonarroti, Michelangelo Antonioni, Michelangelo Merisi da Caravaggio…E aí eu te peguei neste domingo, porque sei que você não sabia que Caravaggio também era Michelangelo. É…o perigoso Caravaggio… E acho que só o Mario sabe. O Mario é blasé, mas sabe de tudo. E eu nunca soube se o Mario levava, ou não acento. E fica assim, mesmo. Sem acento. Mas, o Caravaggio era muito perigoso. Não tanto quanto o Mario…Mas, era.

(III)

Eras há em que os domingos em meio a mercados de pulgas pululantes e alegres não ocorrem por estas bandas. Mas, ocorrem por lá, pelaí, mercados invisíveis de pulgas, participando todos os fantasmas do Cemitério do Alecrim. Por sinal, devia haver mais respeito com o bronze alheio. O povo leva tudo. E aí não dá para passear como se estivéssemos num museu. Na Recoleta, ainda dá. Afinal, o argênteo argentino adora uma boa morte. E nós? Adoramos o quê? Essa nossa terra ensolarada e tão distante das demais é dada a muitos deuses, muitas crenças, adorações aos milhares. E aí eu me lembro que o povo daqui e o de lá se adoram. Principalmente, ao som do calcinha preta, que escrevo com minúsculas para ficar mais excitante.

(IV)

Calcinhas minúsculas…tudo que quero ver neste domingo. Quero ver somente passar o Rocas-Quintas lotado. Um jogo do ABC? Tenho gosto pra isso e pra outras coisas tão importantes. Apesar de torcer pelo América, pela América sem (com) salvação. Mas, Lula já deixou a presidência. Preside o América, puxa vida! Aí poderemos vencer a fome de gols e títulos.

(V)

Mas, o assunto não é esse. E o domingo vai se acabando, lenientemente. E olho por sobre a santa que fica lá na Pedra do Rosário e avisto um caranguejo gigante que vai se aproximando da cidade. Bem antes de eu tirar o sal do corpo e comer um churrasquinho-de-gato, com uma cachacinha daquelas, em qualquer canteiro da cidade…E bem antes de eu poder contribuir com o uso do crack dando moedas nos sinais vermelhos da nova e já tão velha província ensolarada…E bem antes de eu passear pelas bancas de revista de Amaury, Jussier e Tota, comprando as notícias que já li na internet…E bem antes de eu ter o meu infarto cotidiano…

(VI)

Bem antes de tudo isso, o caranguejo avermelhado e alaranjado se ergue do Potengi tão mal-amado e devora o primeiro prédio que vê, com seus olhinhos longitudinais, avançando pelos (i)memoriais da velha Ribeira e chegando até o Edifício Rio Branco, onde ergue – no cocuruto do prédio – seu pesado exoesqueleto, ameaçando os transeuntes. Não, sem antes ter esmagado um babaca (ou galado) que ousara chamá-lo de siri. Mas, que doido! E decide que manterá alguns reféns (Inácio, Volonté, Palocha) para somente após partir para a destruição total e definitiva (porque eu não aguento mais esse papo de Copa) do Machadão, que já não serve para nada aos domingos. Incauto, o grande Uçá não havia percebido (não tinha olhos na traseira, infelizmente) que havia um grupo forte, de homens e mulheres fortes, capitaneadas por um intelectual de iniciais NLC e que subia a velha Junqueira Aires (que já deve ter recebido novo nome) com armas extremamente potentes. Explodiram o bicho ali mesmo. E foi pedaço de queratina e uma carne branca, branquinha por todo lado da cidade.

(VII)

Os ambientalistas até pensaram em mover uma ação…mas, se lembraram que nada conseguiram quanto à arborização daquela vila ampliada e ainda havia a preocupação maior que era conseguir e trabalhar firme para que o maior-cajueiro-do-mundo tomasse conta da estrada, das casas, da cidade, do Estado, do país…Coisa melhor, evidentemente, do que defender a memória de um caranguejo.

(VIII)

Hoje, domingo, apesar de todo o drama ocorrido na cidade dourada de sol e das pulseiras das dondocas, houve alguém que decidiu fazer quatro “monumentos ao caranguejo desconhecido”, tudo em bronze do Alecrim. Um ficará defronte à ANL, onde todas as quartas será tocado o hino oficial da cidade e, depois, a “Serenata do Pescador”. Outro, no calçadão do próprio edifício Rio Branco, fazendo sombra para os camelôs e pirataria. O terceiro, no alto da Prefeitura (a ser inaugurado durante os festejos do “Natal em Natal”). O quarto, o maior e mais bonito, sofisticação em ouro e tinta a óleo, ficará à frente da inexpugnável Fortaleza dos Reis Magos. E velará diariamente por nós. E haverá troca de guarda ambiental, todos os domingos ao meio-dia, diante da monumental estátua.

(IX)

E, após findos todos os trâmites regulares da burocracia cartorialiterária, com direito a cordéis e improvisos de repentistas fanhos, descobriu-se que muitos dentre aqueles concidadãos da futura megalópole natalina do sol-a-pino haviam passavado a ensaiar e incorporar os hábitos do crustáceo-mártir: andavam, quase todos, para trás, para trás, para trás.

(X)

E a paz perdurou, intacta e sem pressa, por milanos e mais milanos e mais milanos…Após o quê se teve notícia acerca de um novo caranguejo titânico e colossal nascido nas imediações do Morro do Careca. E aí, nada mais havia a fazer, pois era um domingo…

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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