Sobre os propósitos de ano novo

Por Contardo Calligaris
FSP

Vem baixando, em todos nós, a capacidade de pagar o preço exigido por nossos próprios desejos

Festejei A chegada do ano novo, embora, como sempre, sem saber bem por quê. Há uma música de Lucio Dalla que escuto regularmente no primeiro de janeiro, “L’Anno che verrá”, o ano que vai chegar (migre.me/7mUFU e migre.me/7mUKs). As letras dizem que, como anunciou a televisão, o novo ano trará uma grande mudança, pela qual, entre outras coisas, no ano que começa, será Natal três vezes.

A cada passagem de ano, Dalla resume meu estado de espírito, cantando “Veja o que devemos inventar para continuar esperando” e “Daqui um ano, o ano que está chegando já passará, e eu estou me preparando para isso: essa é a grande novidade”. Mau humor (relativo) à parte, viajei a Nova York passando pelo Panamá.

Até agora, eu conhecia duas maneiras de lidar com feriados: nos EUA, por exemplo, os que caem no meio da semana são transferidos sistematicamente para segunda-feira, no intento de evitar as pontes e, portanto, a perda de dias produtivos. No Brasil, apesar de um projeto de lei de 2003, do deputado federal Milton Monti (PR-SP), continuamos com todas as pontes possíveis.

Pois bem, no Panamá encontrei uma prática oposta à dos EUA e complementar à brasileira: quando um feriado cai no domingo, eis que ele vai para a segunda-feira seguinte, de maneira que nenhum acaso do calendário ameace privar os cidadãos de seu feriado. Quem sabe alguém na Câmara se inspire?

Num tom mais sério, fui passear pela região mais pobre da parte antiga da Cidade do Panamá.

Premissa: em 1989, os EUA invadiram o Panamá para capturar o ditador Manuel Noriega, que foi processado e condenado por tráfico de drogas, crime organizado e lavagem de dinheiro. Noriega saiu da prisão norte-americana em 2007 e foi mandado para a França, que o processou e condenou por outros crimes.

A França, antes que o ditador cumprisse sua pena, decidiu extraditá-lo para o Panamá, que também queria processar seu antigo ditador. Foi assim que Noriega chegou ao Panamá pouco antes de mim, em 11 de dezembro de 2011. No meu passeio, esbarrei num grafite recentíssimo que dizia: “Nem esquecimento nem perdão, corrupto” (twitpic.com/7zf1kr). Enquanto eu fotografava o mural, uma mulher, que estava numa roda de bar, não longe de mim, gritou: “É isso, tire uma foto e a leve para Noriega, da minha parte”. Para evitar animosidades inúteis, eu me aproximei e expliquei que não era amigo de Noriega.

Os panamenhos não têm simpatia resídua pelo ditador. Apesar disso, dois quarteirões antes do mural, eu encontrei outro grafite, uma inscrição, mais antiga: “Bush assassino” -trata-se de Bush pai, responsável pela intervenção no Panamá em 1989, que custou um número incerto de vítimas civis (de 500 a 2.500). Também, nos combates, foi incendiada e destruída uma boa parte do bairro popular de El Chorrillo.

Noriega era (e é) odiado, a ponto de que muitos panamenhos preferiam que ele ficasse preso na França, pois temem que, agora, no Panamá, graças a cumplicidades escusas, ele consiga evitar sua punição.

Por outro lado, os EUA não são bem vistos porque a captura de Noriega custou vidas inocentes (e provavelmente feriu o orgulho nacional).

Os norte-americanos parecem estar se especializando em intervenções que 1) respondem ao interesse dos EUA e, ao mesmo tempo, 2) podem ser legitimamente consideradas como missões de socorro.

Infelizmente, muitas vezes, os danos colaterais dessas intervenções são excessivos para as próprias pessoas que estariam sendo socorridas. Não foi sempre assim: na Segunda Guerra Mundial, os danos colaterais da liberação da Europa foram enormes, mas aceitos quase festivamente pelas populações liberadas.

É possível que algo tenha mudado nos norte-americanos, mas talvez, nas últimas décadas, também esteja baixando a tolerância dos socorridos -um pouco como baixou, em todos nós, a capacidade de pagar o preço exigido por nossos próprios desejos. É o espírito da época: queremos emagrecer comendo trufas de chocolate e tonificar nosso corpo sem esforço, graças a pílulas que agiriam no sono.

Ora, em regra, o que queremos não sai de graça. Num momento de propósitos como o começo do ano, é bom lembrar o seguinte: há várias razões de não conseguirmos realizar nossos desejos; talvez a principal delas seja que, frequentemente, não estamos dispostos a pagar o preço que esses desejos exigem de nós.

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