Sobre os silêncios da ditadura militar

Por Heloisa M. Starling
BLOG DA COMPANHIA

Entre os meses de novembro de 2012 e julho de 2013, uma pequena equipe que combinava jornalistas e historiadores foi montada pela Comissão Nacional da Verdade com a tarefa de desenvolver pesquisas numa área delicada de investigação: a estrutura de informação e repressão política construída pela ditadura militar brasileira, entre os anos de 1964 e 1988. Provavelmente era a primeira vez que ocorria uma experiência desse tipo no Brasil. A equipe mista tinha como objetivo localizar os acervos documentais produzidos pelos serviços secretos militares: Centro de Informações da Marinha (Cenimar); Centro de Informações do Exército (CIE); Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa); Centro de Informações do Exterior (CIEx).

Os jornalistas cultivavam há anos boas fontes na área militar e a eles coube a complicada operação de perseguir e apurar as informações capazes de revelar ao menos uma parte da história que não coincide com o que os militares querem contar – e analisá-las da maneira mais objetiva e fiel possível. Já os historiadores tinham a seu cargo outra ordem de problemas: os documentos por si só não dizem nada, ou quase nada, e fazê-los falar não é uma tarefa simples. É preciso explorar posições desconhecidas, conhecer outras fontes, alimentar novas perguntas. A história argumenta sempre.

Jornalistas e historiadores partilhavam algumas convicções. Ambos sabiam que não podiam mentir nem deixar mentir. A isso que os pesquisadores procuravam, Hannah Arendt chamou de “verdade factual”: a ostentação pública de fatos que não podem ser modificados pela vontade de quem ocupa o poder, nem podem ser demovidos a não ser por força de mentiras cabais. E então, quando o resultado de uma das pesquisas trouxe à tona um conjunto razoável de documentos confidenciais, sigilosos e ultrassecretos gerados no interior da instituição militar e revelou que as Forças Armadas muito possivelmente ainda conservam seus próprios arquivos sobre o período da ditadura, jornalistas e historiadores chegaram à mesma conclusão: os fatos não coincidiam com aquilo que os militares estavam dispostos a assumir em público e existem segredos que não se quer divulgar.

Nos quase trinta anos que nos separam do fim da ditadura, jornalistas e historiadores desempenharam papel importante nos procedimentos de redemocratização do país. As reportagens sobre corrupção, mordomias e sobre os desaparecimentos, assassinatos e tortura de opositores políticos durante o governo dos militares, de um lado, e a extensa literatura historiográfica produzida sobre o período, de outro, provocaram a memória do país sobre sua história recente. E contribuíram para que essa memória sobre a ordem política gerada pela ditadura e sobre os crimes cometidos pela ditadura seja encarada como uma necessidade jurídica, moral e política, necessária para a consolidação de nossa experiência democrática.

A coleção Arquivos da Repressão no Brasil guarda um pouco dessa história e conserva muito desse espírito. É uma coleção aberta a todos interessados em envolver-se com os desafios de nosso passado recente — seus debates, seus não ditos, os impasses aos quais eles nos conduzem e as evidências em que estão apoiados. Afinal, são muitos os silêncios que organizam a memória do Brasil sobre os anos da ditadura militar. Permanece o silêncio sobre o apoio da sociedade brasileira e, acima de tudo, sobre o papel dos empresários dispostos a participar na gênese da ditadura e na sustentação e financiamento de uma estrutura repressiva muito ampla que materializou sob a forma de política de Estado atos de tortura, assassinato, desaparecimento e seqüestro. Também existe silêncio sobre as práticas de violência cometidas pelo Estado contra a população e direcionadas para grupos e comunidades específicos — especialmente as violências cometidas contra camponeses e povos indígenas. Continua até hoje o silêncio em torno da construção e do funcionamento da complexa estrutura de informação e repressão que deu autonomia aos torturadores; prevaleceu, em muitos casos, sobre as linhas de comando convencionais das Forças Armadas; utilizou do extermínio como último recurso de repressão política; alimentou a corrupção; produziu uma burocracia da violência; fez da tortura uma política de Estado. E ainda sabemos muito pouco sobre a repressão aos militares que não apoiaram o golpe, sobre as condições de clandestinidade, ou sobre a vida no exílio dos opositores políticos da ditadura.

A coleção Arquivos da Repressão no Brasil tem a ambição de alcançar um público amplo — acadêmico e não acadêmico — e o desafio de apresentar um relato denso e fluido, claro e consistente. Se o tempo presente é nosso principal desafio, se temos hoje uma Democracia consolidada – mas uma República frágil e inconclusa — e se precisamos nos aparelhar para o futuro, conhecer o passado é uma das boas maneiras de se chegar a ele. Para isso servem as histórias que essa coleção pretende contar. Para nos lembrar do brasileiro que fomos e que deveríamos ou poderíamos ser; e para lembrar-nos de um país que tem um passado e precisa indubitavelmente ser melhor do que o Brasil que temos hoje.

* * *
Lugar nenhum, primeiro livro da Coleção Arquivos da Repressão no Brasil, de Lucas Figueiredo, já está nas livrarias. Confira os eventos de lançamento:

São Paulo — Segunda-feira, 5 de outubro, às 19h30, na Livraria da Vila (Av. Higienópolis, 618).

Belo Horizonte — Quarta-feira, 7 de outubro, às 18h30, no Memorial Minas Gerais Vale (Praça da Liberdade, s/n).

* * * * *

Heloisa M. Starling é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Lembranças do Brasil (1999) e Os senhores das gerais (1986).

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

vinte − quatro =

ao topo