Sobre poesia, música e outras artes: vem pra lua!

Que semana intensa a que passou! Entre dezenas de acontecimentos, evidentemente que estariam em destaque (situando-se entre uma e outra das marchas coloridamente opostas) as comemorações em torno do Dia Nacional da Poesia, 14 de março, data que toma importância crescente no meu calendário pessoal e na folhinha de contar os dias da cidade e da vida. A Capital potiguar comemora esse número com vigor e desejo. E foi o que vi e ouvi, principalmente nos dois dias da muito bem sacada e urdida Virada Poética de Natal, ideia lançada pela Capitania das Artes, sob o timão, a roda de leme do capitão de mares poéticos verbivocovisuais natalenses, o dínamo Dácio Galvão.

Poetas conclamavam, em contrapartida aos dúplices chamamentos políticos para as ruas e avenidas: “Vem pra lua!!!”. Muitos foram. Pra lua, luas, luares. E eu embarquei junto, participando de mesa de debates poéticos (o grande Tácito a presidiu) que uniram e dividiram três gerações, em análises que foram desde as mais abertas – com narizes e olhos expostos aos perfumes e brilhos da nova e circular (no sangue) poesia – às mais conservadoras e acomodadas, de orelhadas em orelhadas em aureolados cabotinismos/bocatinismos. E teve até espaço para os macaqueares das fórmulas e das celebridades imitativas transpotiguares. Mas tudo valeu. Porque vale a alma. Alma espantosa e penada do poeta, que é um eterno marginal, ainda mais na sua terra, onde é desconsiderado e malamado Mallarmé, todos nós, os nós à volonté.

E como foi uma semana intensa, valeu vinho e feijão no final. E cerveja, até sem álcool, para que a poesia não fosse parada por um lugar-tenente que freia retornatários-retardotários. A poesia prosseguiu, até com os computadores pif, pif, pifados de Thaís Gulin, que me pareceu menor do que eu via e ouvia na foto. Mas tinha um guitarrista dela que era a cara de Jimmy Page, nos tempos áureos do Led. E aí, viajar. Confesso que torci muito mais pro Mahmed, que promete. É um senhor grupo, uma senhora banda! No entorno, para ajudar a salvar a música, como o bom Mahmed fez, gostei de verouvir os “eviscerados” Cida Moreira e Filipe Catto, que – doutra turma – nem convidados foram para a festa do ce(n)tro, onde ainda deu pra bater bons papos, mais de vagares ou menos ligeiros, com Chacal, Nicolas Behr, Frederico Barbosa. Ali pude descobrir que todos os poetas são marginais. Senão, não-poetas. Porque a poesia é.

Mostrou-se poesia-e-música quase à margem do Potengi, onde quase todos os poetas moram, no prédio antigo e lindo do Alberto Maranhão, ainda de pé, porque sei-lá-se o Hotel Reis Magos ainda viverá mais umas dias para que lhe recontem a história necessária a que se reconheça que tem, sim, valor histórico, estético, arquitetônico, afetivo, efetivo, em suma, que tem valor para Natal, que não suma. Puxa! Por que desconhecem tanto assim nossa história? Pra quê? Eis a pergunta que cala a poesia, que não quer calar e que permanece em meio aos berros e aos barulhos dos arredores, entre máquinas de socar concreto e caçambas de recolher entulhos e metralhas.

Entre travessias e travessuras, viradas e virais, os poemas e a poesia ficaram mais tristes no domingo, quando eu soube da passagem do Professor Hermógenes, aos 94 anos de idade, para outro plano. Quando eu via o meu pai ensaiar movimentos de Yoga na Praia do Forte – lá perto de onde querem demolir o hotel histórico – não sabia que aqueles livros que ele lia eram escritos poéticos também. Afinal, quem vai negar que o natalense José Hermógenes de Andrade Filho, precursor da Yoga no Brasil, também era, em comportamento, ideias e sonhos, um poeta?

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga 17 de março de 2015 17:50

    Lívio Oliveira, vc nos ensinou uma grande lição semana passada.
    “Devemos escrever com sangue”.
    Nunca mais vou esquecer isso.
    E eu tbm fui pra Lua, estava fazendo evento em Currais Novos.
    Parabéns.

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