Mais

Sobre política e igreja

Toda verdade com excessiva marca humana é suspeita em potencial.

Para se fundar uma igreja faz-se mister cumprir alguns requisitos: uma verdade a ser propalada; um ícone que lhe represente; e a palavra, seja oral ou escrita. (Desnecessário dizer que no mundo ocidental a palavra falada perdeu valor de verdade. Só a escrita nos convence. Embora Jesus Cristo não tenha escrito uma só palavra, a fundação de sua igreja só foi possível a partir deste artifício).

No caso de Jesus, é preciso dizer que os fundamentos de seu mandamento só são acessíveis se se “ler” (jamais ouvir) o discurso proferido no sermão da montanha.

Além deste, nada há que seja de sua autoria, e este discurso talvez seja o menos lido, o menos acessado e o mais fragmentário em termos de verdade.

Cumpridos estes requisitos, a igreja está habilitada a recrutar fiéis. A fórmula é simples, mas o caminho é árduo.

Muitos profetas se perderam no meio do caminho antes de se constituírem mitos substanciosos ao ponto de “suas verdades” atingirem o ponto de saturação ideal à consecução da fé.

Edilberto_Sobre politica e igreja.4Elementos sutis e voláteis

Não podemos confundir a fé com a igreja. A sua constituição química provém de outros elementos, não exatamente diversos daqueles que constituem a igreja, mas autônomos em relação a ela.

Para consumação da fé, contribuem elementos mais sutis e voláteis: a percepção da instabilidade do real associada ao medo que lhe advém em função do desconhecimento.

Além disso, não há fé sem uma descrença. Só é possível a fé ligada à descrença no humano. Toda e qualquer verdade com excessivas marcas de humanidade são suspeitas em potencial.

Só é possível a fé se se descrer igualmente do conhecimento: nada é mais humano do que o conhecimento. O desconhecido é matéria essencial para a fé.

Nada é mais humano do que a política. A elevação do homem à vida social só foi e só é possível por meio da política. A política é o cimento inconcreto que serve de liga à vida social. Seria natural que as igrejas renegassem a política e dela se afastassem.

Mas por que isto não se dá? Por que ao longo da história humana a política e a religião alternam-se em posições de amor e ódio?

Edilberto_Sobre politica e igreja.3Pra gente ver o que sobrou do céu

Arrisco um palpite. Creio que não há no homem como fugir ao humano. Negar ao homem a condição de humanidade é tirar-lhe o chão onde pisa.

Sem o chão, só nos restaria o céu e este supõe a morte. Por mais que creiamos, a vida é o bem almejado, e isto nos faz humanos.

Assim anda igreja e política, em braços e abraços ao longo dos tempos. Vivemos hoje mais um desses enlaces.

O século XXI provocou mutações radicais, não necessariamente progressos, que culminam com um enlace fecundo entre igreja e política; entre a fé e o humano.

Não é peculiaridade do século XXI, uma vez que em quartos do século XX este fenômeno se deu e, muitas vezes, de forma nefasta.

Mas em nossa era os elementos principais para esse conúbio tornaram-se mais dinâmicos: as verdades se multiplicaram confundindo-se ambiguamente com a mentira.

A palavra escrita assumiu a dinamicidade da palavra falada, dando-se quase que em tempo real, pontuada por ícones e símbolos que quase assumem a função dos gestos da oralidade.

Fora isto, a constelação da palavra com a imagem facilitou imensuravelmente a criação de ícones representantes da verdade: Trump, Lula, Bolsonaro, Nicolas Maduro, Moro, Papa Francisco, Luciano Huck, Malala Yousafzai, Anita, Xi Jinping, Pablo Vittar, Angela Merkel, Joaquim Barbosa, Narendra Modi, Malafaia… a lista é infinda.

Nesta constelação, a política brasileira e mundial vestiu-se com os elementos da fé. Correntes adversas se alternam na defesa de suas verdades. Ícones são elevados e condenados.

Em todos os casos a verdade prescinde do conhecimento, pois este é o elemento corruptor da fé.

Não tardará que se ergam novas igrejas.

Share:
Edilberto C.

Comentários

Leave a reply