Sobre provincianismo

Por Lira Neto
Diário do Nordeste

Nada mais jeca e anacrônico do que querer aparentar, por fina força, que se é cosmopolita e modernete no quintal da aldeia. São Paulo já faz muito bem – melhor seria dizer muito mal – o papel constrangedor de macaquear as bossas e as “tendências” nova-iorquinas. Aqui, na paulicéia cada vez mais provinciana e desvairada, diz-se “tchau, tchau” como quem diz “bye, bye”. Começam-se frases com um inexpressivo “então”, talvez para simular o “so”, em inglês. “A cidade que nunca dorme” – até tal mote marqueteiro São Paulo surrupiou à prima rica, assim, na maior cara limpa.

Esta é a outra face – a mais atroz – do provincianismo. Ser provinciano não é apenas lançar livro de (maus) poemas em clube social da cidade, não é só ligar o som do carro nas alturas na porta do bar, não consiste apenas em assistir ao Fantástico na televisão gigante de plasma da churrascaria. Ser provinciano não é apenas buzinar para o carro da frente assim que o sinal abre, não é só jogar lixo pela janela do automóvel, não é unicamente falar alto, comer de boca aberta, palitar os dentes e chamar a mulher de “Dona Encrenca”.

Ser provinciano é também fazer pose de sofisticado e de entendedor de vinho enquanto a camisa de grife empapa de suor, é vestir-se conforme manda a Vogue no calor de quase 30 graus, é usar cachecol de lã em Guaramiranga, é escrever “New York City” em um texto em português para se referir a Nova York, é achar que a Praça Portugal é a Times Square. É, por fim, tentar ser a cópia fiel, mas nunca conseguir passar da mais cruel caricatura, aquela que expõe o retratado ao pior de todos os ridículos.

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