Sobre a revista da ANL

Escritores Manoel Onofre Jr. e Thiago Gonzaga

Foto: Aldair Dantas

Encontro com o mais boa-praça dos imortais potiguares, Manoel Onofre Junior, que me entrega, todo orgulhoso, o mais recente número da Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras, publicação agora retomada numa feliz dobradinha de Onofre com o escritor Thiago Gonzaga. Onofre é sujeito que não economiza em simpatia e simplicidade.

Não lembro se tive a oportunidade de ver alguma das 42 edições anteriores sendo lançadas, logo o (re)aparecimento de uma publicação voltada para as letras potiguares é de se comemorar – goste-se ou não de academias. Li de uma tacada só.

Primeira coisa a chamar atenção: independente de seu estado de mortalidade, é possível contribuir com a Revista da ANL, basta falar sobre a cultura potiguar. Esta edição gordinha, dividida em cinco seções, traz 28 contribuições, em 162 páginas.

Dentre os ‘Artigos e ensaios’, o ouro está nos ensaios (ou os que mais se aproximam disso). Mais próximos do campo da crítica literária, os textos do paraibano Hildeberto Barbosa Filho, sobre Marize Castro, e de Diva Cunha, sobre Palmyra Wanderley, apresentam cada qual uma visada interessante sobre obras tão díspares. Diva tira leite de pedra para encontrar momentos de razoável inspiração na obra de Palmyra, escritora hoje um tanto esquecida. Hildeberto aponta a maturidade poética de Marize – esta sim, um dos nossos melhores nomes.

Outros textos se equilibram entre o informativo e o crítico, como o de Clotilde Tavares sobre o memorialista macaibense Otacílio Alecrim e o de Gustavo Sobral sobre Newton Navarro. Este último seria mais interessante se tivesse conseguido separar melhor a retrospectiva biográfica da avaliação crítica da literatura de Navarro.

Há ainda contribuições históricas de valor, como o minucioso dossiê de Leide Câmara sobre Ademilde Fonseca, as ‘anotações’ de Carlos Roberto de Miranda Gomes sobre a Casa do Estudante e a curioso levantamento da pesquisadora Maiara Juliana Gonçalves da Silva sobre as querelas entre intelectuais documentado a partir de registros na imprensa a partir de dois casos hoje totalmente esquecidos o de Cascudo vs. Nascimento Fernandes (um pouco usual duelo de gentlemans para os padrões potiguares) e o de Armando Seabra vs. Adaucto da Câmara (esse mais pitorescamente natalense, com direito inclusive a troca de bofetes).

De resto, vários artigos informativos que podem ser de bom uso para os interessados em conhecer um pouco mais sobre a literatura norte-rio-grandense, mas de pouca valia para um leitor mais viajado – a exceção fica por conta de um achado do pesquisador Francisco Martins, dois poemas bastante semelhantes dos contemporâneos Renato Caldas e Zé da Luz, que levantam a velha lebre do plágio.

Apesar de se encontrarem na seção ‘Artigos e ensaios’, os textos de Diógenes da Cunha Lima (sobre Cascudo, pra variar), de Valério Mesquita (sobre Gilberto Avelino e Alvamar Furtado) e de Manoel Onofre Junior (sobre os antigos professores da Faculdade de Direito) poderiam muito bem ter sido deslocados para a parte da revista dedicada às crônicas, sem prejuízo. Dos três, todos muito bons, sou mais o de Onofre, numa pegada memorialística em busca do pitoresco de cada personagem que nos remete ao Manoel Dantas de ‘Homens de Outrora’.

Seguramente a principal contribuição desta nova Revista da ANL está na seção ‘contos e crônicas’, ao trazer um texto inédito de Newton Navarro, um dos principais prosadores de nossa literatura. Um conto curtinho, porém com o carimbo da boa prosa de Navarro, que nos faz atravessar constrangidos as duas baboseiras que o sucedem na revista. Eu, sendo você, saltaria direto para a crônica de David de Medeiros Leite sobre o bilheteiro do Cinema Pax de Mossoró.

Da mesma forma, na seção ‘poemas’, basta ler os ‘Outros romances de Alcaçus’, de Paulo de Tarso Correia de Melo. Não alcançam a a beleza dos outros escritos dele sobre a pequena comunidade de Nísia Floresta, mas são bastante superiores aos outros poemas presentes na revista.

O saldo, ao final, é positivo. Como uma revista da Academia, é justo que o espaço esteja aberto para os acadêmicos. Daí, compreende-se a presença de textos um tanto quanto deslocados, como o de padre João Medeiros Filho, Juradyr Navarro ou Benedito Vasconcelos Mendes. E até incompreensíveis, como o artigo nonsense Sônia Maria Fernandes Faustino, que podia ter ficado só no honesto necrológio de Anna Maria Cascudo Barreto. Além disso, o caráter predominantemente informativo de muitas contribuições vai ao encontro do papel institucional da ANL.

Por fim, gostaria de comentar alguns aspectos gráficos e editoriais. Adorei a capa com seu visual retrô, meio anos 50, e os grafismos em zigue-zague que se estendem para o interior da revista. Um charme. Achei o sumário pesado e mal-feito. O cabeçalho das páginas internas na verdade é um rodapé. Nada contra inovações, mas a distância para o texto não era uniforme e, às vezes, era tão mínima que incomodava a vista. Quando entravam as notas de rodapé, então, virava uma cu-de-burro. Algumas imagens e ilustrações, também, poderiam estar numa qualidade melhor.

Também senti falta de um editorial fazendo o abre-alas da edição e, numa instituição entulhada de intelectuais, de uma comissão editorial. Além disso, numa publicação chancelada por uma Academia de Letras, não pega bem tantos erros de português.

O desconto, necessário, a gente dá porque imagina a trabalheira que Onofre e Gonzaga tiveram para preparar uma revista da qual não se via a cara há um bom tempo. E, se apontamos falhas, é na certeza de que o traquejo adquirido nos próximos números certamente vai corrigi-las.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. thiago gonzaga 3 de Agosto de 2015 17:55

    Olá,caro amigo escritor e jornalista, Alex de Souza.
    Obrigado pelas suas excelentes observações. Reconheço e concordo com tudo que você expôs. Iremos trabalhar para sanar esses “defeitos”. Acredito que, na ânsia de tentar deixar o periódico em dia, circulando pontualmente a cada três meses, faz com que aconteçam alguns imprevistos, na pressa de acertar. Porém, com certeza, alguns desses problemas serão sanados nas próximas edições. Graças, inclusive, a pessoas como você, que fizeram boas observações e deram dicas para melhorar a revista.
    Receba meu sincero agradecimento.

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