Sobre “Um Diário Russo”, de John Steinbeck e Robert Capa

“O que se vai ler a seguir é o que nos aconteceu. Não é o relato sobre a Rússia, mas apenas um dos possíveis relatos sobre a Rússia”. Era o que prometia John Steinbeck, na abertura de Um Diário Russo, inicialmente uma reportagem publicada em partes pelo New York Herald Tribune (o jornal financiou o projeto).

Steinbeck falava não só em causa própria, mas em nome do companheiro de empreitada, o fotógrafo húngaro-francês Robert Capa. Em 1947, os dois passaram 40 dias na então União Soviética com a intenção de conhecer as principais cidades.

Enquanto a ‘moscovite aguda’ se alastrava entre americanos, o escritor e o fotógrafo transpuseram a Cortina de Ferro em busca de explicações. Como vivia aquela gente, sob domínio do socialismo? O que pensavam, ouviam, comiam cidadãos do outrora aliado, recém intitulado inimigo da vida ocidental?

Veja “A Russian Travel”, da Magnum Photos, com várias imagens da URSS captadas por Robert Capa

Enquanto Steinbeck arriscava um novo formato de escrita, após o estrondoso sucesso do romance As Vinhas da Ira (1939), obra que levantou suspeita quanto à simpatia do americano pelo comunismo, Capa, um dos maiores fotojornalistas do século XX, estava habituado com o confronto, calejado pelas coberturas da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Grande Guerra.

Detalhes supostamente banais interessavam mais do que a política. Só olhariam a vida pessoal dos soviéticos. Queriam distância tanto da crítica quanto do elogio direto. Texto e imagens seriam assépticos e descompromissados.

Mas, desde a chegada, perceberam que parte do plano não vingaria. Ao desembarcar com 13 malas, milhares de lâmpadas de flash, centenas de rolos de filme, câmeras, fios, etc, e sem ninguém para recebê-los, nem hotel reservado, a aventura deu sinais de que seria tortuosa.

Uma queixa justificada

Constantemente ressacados, Capa e Steinbeck passaram 40 dias na URSS

O fotógrafo ganhou atenção redobrada da KGB, e uma série de restrições à captação de instantâneos foi imposta. Tal fato mereceu texto anexo.

Intitulado Uma Queixa Justificada, o protesto de Capa contra as condições de trabalho pode ser resumido nesta frase: “… esse povo é muito consciencioso, recatado e trabalhador, e, para um fotógrafo, tão enfadonho quanto uma torta de maça”.

Era vedada a captação de imagens panorâmicas das cidades, de prédios públicos ou aglomerações. Ainda nos preparativos para a viagem, a diplomacia russa questionou Steinbeck sobre o acompanhante: “Há muitos fotógrafos na Rússia”.

Os dois mantiveram uma convivência cordial, mas com momentos de tensão. Todos os dias, ao acordar, o romancista elaborava três perguntas, sobre assuntos diversos, para testar os conhecimentos de Capa e, sobretudo, evitar suas frequentes reclusões no banheiro.

Não imaginava que era o oposto. “Um lugar que simplesmente detesto”, dizia Capa. O aprisionamento voluntário era decorrente do pavor que perguntas eruditas causavam durante a ressaca na sonolência matinal.

Durante a leitura de Um Diário Russo, Steinbeck nos lança impressões sobre o comportamento dos moscovitas, como se mais sisudos, desconfiados, ‘puritanos’, comparado aos ocidentais. “Não se nota quase nenhuma alegria nas ruas e até mesmo os sorrisos são raros”. A efusividade estava fora da capital. Especificamente na Ucrânia e na Geórgia, terra-natal de Stálin.

Vodka e glutonaria davam o ritmo. Orgias gastronômicas eram ofertadas em cada aldeia ou vilarejo que chegam. A sensação de cansaço era uma constante. O registro de reminiscências humorísticas, paradoxais e trágicas é sempre permeado de encantamento e suspensão da realidade. 

Moscou, setembro de 1947. Povo nas ruas vendo queima de fogos durante as comemorações dos 800 anos de fundação da cidade.

Bandidos e hienas

Uma realidade que apresentava cidades destruídas, como se o cheiro de sangue e pólvora ainda estivesse no ar. “Melhor morrer de vodka que de tédio”, disse o georgiano Vladimir Maiakovski, na ocasião do suicídio do também poeta Iêssienin.

Em um período nefasto para a história mundial, cujos desdobramentos dos dois lados do Atlântico geraram milhões de mortos e quase a hecatombe planetária, o tratado de John Steinbeck e Robert Capa desagradou governantes e a mídia engajada dos dois lados.

Para os soviéticos, eram dois “bandidos”, duas “hienas”. E os macartistas enxergaram conteúdo pró-comunismo. A riqueza dos pormenores de Um Diário Russo possibilita várias interpretações desse período sombrio e marcante da história contemporânea.

O livro ficou inédito no Brasil por 50 anos, até ser lançado pela extinta Cosacnaify em 2010. Da decadência da burguesia de Moscou e Stalingrado (hoje Volgogrado), ao esplendor das igrejas da Geórgia e das fazendas ucranianas, Um Diário Russo traz certo humor no texto de Steinbeck e frieza nas fotos de Robert Capa.

O fotografo húngaro dizia que “Não estou nem um pouco satisfeito. Os 190 milhões de russos estão contra mim. Eles não se rebelam nas esquinas, não praticam cenas espetaculares de amor livre, não criam nenhum tipo de estilo novo; são um povo muito correto, moralista, trabalhador e, para um fotógrafo, isso é muito insípido, é feijão-com-arroz. Além disso, parecem gostar do modo russo de viver e não gostam de ser fotografados. Minhas quatro câmeras, acostumadas a guerras e rebeliões, estão revoltadas […]”.

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