Sobre um romance premiado de Estevão Azevedo

À primeira vista, o premiado romance “Tempo de espalhar pedras” (Cosac Naify, 2014), do potiguar Estevão Azevedo, é um livro que beira o convencional: o narrador onisciente descreve uma sucessão de quadros narrativos apresentando toda uma legião de homens e mulheres entregues à própria sorte, cuja única via de redenção se resume a um eventual sucesso produzido por um lance de sorte no garimpo. A rigor, tudo é impessoal na vila que serve ao garimpo que, conforme o onisciente narrador, se encontra em franca decadência, fato que parece ser compartilhado por todos os garimpeiros, com reflexos em todos os aspectos de suas vidas. É essa certeza que parece curvar a cerviz, mas, principalmente, o moral da população flutuante unida pela atividade mineradora.

Como um deus voluntarioso, o garimpo premia e pune – mas em geral, pune – aqueles que ousem se rebelar contra a ordem estabelecida pelo coronel Aureliano e seus capangas. No entreato, o coronel sabe às vezes ouvir os clamores da aldeia e é capaz de protagonizar um curioso julgamento que culmina com a absolvição do criminoso e a condenação do móvel do crime…

Mas o coronel não é o único personagem marcante de uma tragédia de tons muito peculiares passada num sertão perdido nas capoeiras. O velho garimpeiro Gomes e sua filha Ximena, o jovem Rodrigo e seu pai Diogo, o místico Silvério e o intempestivo Sancho são tipos que, por assim dizer, complementam e realçam a narrativa de Azevedo. E Tirante Silvério, com sua fome metafísica de Deus – “Deus pode não dar a mão, mas não passa a perna” – capaz de precipitar a aldeia do garimpo numa morte antecipada, todos os demais são títeres no pequeno teatro de fantoches do garimpo. Por isso, não admira que se deixem arrastar ao desvario de Silvério.

Do ponto de vista da criação novelesca, chama a atenção, em “Tempo de espalhar pedras”, certos capítulos cujas aberturas se alongam em considerações que beiram o ensaio filosófico do romance psicológico do século XIX. Esse recurso, posto que antiquado, parece não afetar, porém, a estrutura compacta, cerrada, mesmo, do livro. Os exemplos abundam aqui e ali no decurso da narrativa. Sobre a valentia, escreve: “Não era valente, era prudente, e o prudente guarda a vida para perdê-la em briga, que dá escoriação, ferimento grave e até morte, mas também fama e honra. Esperteza é saber a hora de ser valente”. A um desconfiado casanova, Rodrigo, ocorre admitir que “não entendia porque algumas mulheres preferiam tornar o amor tão bruto”. Sobre o tempo, o autor se alonga com modos filosóficos: “O tempo, porém, não é afeito a mesmices. Necessita de espreguiçar-se, de quando em quando, de alongar-se e contrair-se, e é para isso que servem os acontecimentos […] Assim, o tempo se alimenta do que o homem lhe oferece para, feito uma cobra, ora esticar-se, ora enrolar-se”.

Mas a força de “Tempo de espalhar pedras” reside no seu núcleo narrativo, constituído por um dilema moral: Rodrigo é incumbido por seu pai de vingá-lo de uma injúria causada por Gomes. Trata-se, como se sabe, de garimpeiros, e a lei prevalecente aí não difere muito daquela lei de sangue, atemporal, que exige vingança. Há, todavia, um problema, aliás dois: Rodrigo está enamorado da filha de Gomes, Ximena, e sua índole não o perfila para missões daquela espécie. E, mais grave ainda, Ximena não é menos dependente emocional de Rodrigo.

É preciso que fique claro que se trata de uma paixão que nasce do corpo; nem de longe se pretende uma reedição de Romeu e Julieta no sertão. Rodrigo, ou melhor, seu corpo, tem fome do corpo de Ximena, e vice-versa. Nas palavras de Azevedo: “Ambos abriram mão do controle e legaram aos corpos o comando, como se estivessem embriagados ou sonâmbulos […]”.

Haveria uma alternativa a essa entrega? Haverá um desfecho razoavelmente humano para as carências reclamadas pelo desejo, em meio ao deserto de alternativas amorosas da aldeia do garimpo? Esse é um segredo que o leitor é desafiado a buscar nas páginas de “Tempo de espalhar pedras”. Muito provavelmente, o desfecho engendrado por Azevedo causará surpresa e, quem sabe, até indignação, num primeiro momento, mas que outro poderia conciliar as forças maiores que impulsionaram a história até seu ponto crucial?

Do ponto de vista formal, o que torna pouco convencional a construção novelesca de “Tempo de espalhar pedras” é a linguagem elíptica, sinuosa, falsamente coloquial, que o autor desenvolve e que se presta tanto à narrativa do enredo como ao dialogismo dos personagens.

Não se pode reconhecê-la de uma só vez, pois ela vai emergindo à superfície do texto, a pouco e pouco, como um liame sinuoso e sutil que amarra o urdume textual. Independentemente, porém, de que atente ou não para essas filigranas escritórias, o leitor desfrutará de bons momentos na companhia desse livro que conquistou o “Prêmio São Paulo de Literatura 2015”.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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