Sobre uma crônica de Ferreira Gullar

Amigos e amigas:

Agradeço pela atenção que dedicaram a meus comentário sobre uma crônica de Ferreira Gullar.

Carlos, eu analiso textos alheios no campo de argumentos, inclusive quando apelo para paródias e outros procedimentos de linguagem que a escrita pratica há milênios. Nesse sentido, não tenho a menor idéia sobre o estado das bolas de Gullar nem das suas – as minhas estão em ordem, obrigado, mas não me interressa discutir o tema no espaço público. Não vejo o que respeitar, hoje, no verbo de Ferreira Gullar mas vc tem todo o direito de admirá-lo.

Não vejo lulismo nenhum no fato de apontar uma incoerência gritante na fala bajulatória de Gullar em relação a Serra, ao PSDB e a seus aliados Opus Dei e TFP. Vc considera impecável o trajeto renunciante de Serra? Se pensa assim, seja feliz! Faltou vc demonstrar que eu critico Gullar a partir de algum suposto metro petista. Nem sei qual é esse metro (o PT está mais desaparecido que a Lindonéia de Caetano e Gil; não assisto a reuniões nem leio documentos desse partido há décadas), sei que Gullar virou um ideólogo banal e ele não esconde isso de ninguém, até transformou essa postura em lucrativo ganha-pão. Meu campo de pensamento é outro – argumentação analítica e demonstrativa, não-remunerada, que aplico, também, ao besteirol político do ex-poeta e ex-crítico de arte. E não preciso insultar pessoalmente nem você nem ele para pensar.

João, Gullar foi bom poeta e bom crítico de arte, como já declarei muitas vezes. Wladimir Dias Pino – excelente poeta – disse-me, um dia, que Gullar abandonou a crítica da arte inconformado com os grandes lucros de alguns artistas visuais (nem todos!), que não eram desfrutados por aqueles que o analisavam. Se isso tiver ocorrido, restaram as boas críticas feitas por Gullar; querer ganhar dinheiro não é crime, pena que isso leve à perda de um incontestável talento. Suponho que a FSP pague bem para ele escrever, hoje, o que escreve – a mais lastimável ideologia disponível, tão ruim quanto as piores capas da Veja. É um direito dele, claro. E é um direito meu e de outros detestarmos essa opção.

Belchior, não usei nenhum argumento de autoridade (Silva dixit) para apontar a nulidade de Gullar. Apontei um vazio bastante concreto no que ele escreveu, indicando trecho preciso, rebatendo-o com acontecimentos de conhecimento público – a ansiedade serrista de conquistar o próximo posto mais alto, que as alianças de extrema direita na última campanha eleitoral apenas confirmaram de forma assustadora. Alinhamento canino seria insultar os outros sem argumentos analíticos nem demonstrativos, Belchior. Aproveito para informar que tenho uma cachorra, Aurora (assim batizada em homenagem à clássica marchinha carnavalesca), que detestaria ser identificada a alinhamento canino: quando ela não gosta de algo, morde quem a irritou – já me mordeu mais de uma vez. Ela é uma canina não-alinhada, portanto. Evitemos generalizações em relação aos cães e aos seres humanos.

Um beijão para cada um de vocês. Gostaria de conversar com vocês mais vezes, sem medo de pensarmos de forma diferente. Pensamento é diferença. Uma riqueza do SP é abrigar pessoas que pensam em diferentes direções.

Dois PS:
1) Para Carlos: esqueci de comentar o trecho em que vc afirma “Ainda bem que o vate nem suspeita da implicância”. Penso que se ele suspeitasse, nada mudaria – certamente, ele conhece muitos outros de seus críticos. Junto com isso, tive a impressão de que vc assinalou a superioridade hierárquica de FG em relação a minha pessoa (prestígio, poder). Sei muito bem disso, Carlos. Todavia, defendo que os inferiores na hierarquia critiquem os superiores sempre que julgarem necessário.
2) Para Belchior: esqueci de comentar o trecho em que vc afirma “Se o poeta estivesse elogiando o Lullupetismo, provavelmente, teria a aprovação de Marcos”. A menos que vc possua bola de cristal, não sei como chegou a essa conclusão. Não fiz referência a nenhum Lullupetismo nem dependo dele para ser o que sou. Fiz por onde não ser convidado para cargos governamentais nem merecer a Legião de Honra. Vivo de meu salário num emprego para o qual prestei concurso público.

Abraços afetuosos:

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