Sobre a utilidade de se cortar uma cabeça

― Bah! Vocês são uma nação de escravos! – disse Brian, que era, como quase todo bom inglês do oeste de Londres, torcedor apaixonado do Chelsea.

Já começava a madrugada em Ponta Negra entre um copo e outro de cerveja e depois de um show antológico de Yamandu Costa com a orquestra do SESI, eu já não tinha muito ânimo para controvérsias.

Naquela madrugada, Brian estava particularmente impressionado com as notícias espetaculares mostrando novos capítulos da “Operação Lava Jato”, que ululavam histericamente na mídia hegemônica.

― Não entendo como vocês suportam serem governados por ladrões. No meu país é diferente – ele disse com uma aquela dose básica de arrogância britânica, presença arqueológica no imaginário inglês do tempo em que a Coroa da casa de Windsor mandava em nações de um hemisfério a outro da terra – No meu país nós cortamos a cabeça do rei.

Assim ficava difícil argumentar. Matar um rei não é pouca coisa.

Brian falava de Carlos I, rei inglês, que foi decapitado em 1649, durante a guerra civil da Inglaterra. Dizem que quando sua cabeça rolou diante do palácio de Whitehall, um longo e assombrado gemido ecoou pela multidão atônita. O que seguiu a sua execução deixou marcas profundas no imaginário da modernidade. Os acontecimentos que seguiram a sua morte acabaram por colocar no poder um membro da pequena burguesia puritana (Oliver Cromwell) e lançou as ilhas Britânicas em quarenta anos de conturbação política inaugurando um padrão recorrente nas revoluções modernas baseado no trinômio: “ruptura-terror-restauração”.

Foi Cromwell quem produziu um dos primeiros grandes expurgos revolucionários da modernidade, ao executar diversas lideranças camponesas que o haviam ajudado na guerra civil contra a coroa. Na engenharia das cabeças cortadas, os camponeses deixaram de ser úteis ao novo regime quando começaram a exigir uma ampla reforma agrária, que implicaria o confisco das terras dos nobres, da coroa e da igreja.

Aproximadamente cem anos depois dos acontecimentos que conturbaram a Inglaterra e levaram a uma nova ordem política na ilha, com a assinatura da primeira grande declaração de direitos liberais, Saint Just se perguntava: “O que querem os que não querem a virtude ou o terror?”. A resposta que o terror burguês de Cromwell ofereceu foi uma só: “Querem a corrupção”.

Contra a corrupção cabeças foram cortadas. Contra a promiscuidade moral e os inimigos do país, do povo ou da nação, a violência divina do puritanismo da classe burguesa emergente fez sua festa autoritária.

Thomas Hobbes, profundamente marcado pelas experiências que vivenciou naqueles tempos de violência e conturbação, diante da desordem de um momento em que os referenciais simbólicos do poder foram postos abaixo junto com a cabeça do rei; teceu sua metafísica da maldade humana, apontando para a crença ideológica de que o homem só pode ser “naturalmente mal” e que a violência estrutural do soberano (lida nos dias de hoje como “Estado”) é um remédio amargo, mas necessário para manter a coesão social e proteger o ser humano de si mesmo.

Curiosamente, o terror burguês de Cromwell, não é muito lembrado pelos liberais, que fazem questão de esquecer que uma de suas mais significativas revoluções gerou também sua própria “violência divina” marcada por expurgos e execuções políticas. A revolução inglesa do século XVII mostra um dado constrangedor para o discurso liberal: a evidência de que não há uma conexão necessária entre as revoluções burguesas que instituíram as bases políticas de nossa moderna sociedade de mercado e a utopia democrática que a justifica ideologicamente.

Todo mundo que estudou honestamente história sabe que as revoluções não são piqueniques ou bailes de carnaval. Elas fazem parte de um conjunto de violências disrruptivas que mudam o curso da ordem política e abrem caminho para guinadas brutais nos modos de organização das comunidades humanas.

Brian, que nasceu na terra que cortou a cabeça do rei Carlos I e morreu na terra que colocou Michel Temer no poder, após um surto sazonal de “cidadanismo” midiatizado, não chegou a ouvir meus argumentos de defesa. Para a tristeza de seus amigos e familiares ele faleceu alguns meses depois de nossa conversa, vitima de um ataque cardíaco fulminante em seu apartamento de Ponta Negra. Na verdade ele deve ter partido com uma péssima impressão dessa tendência brasileira a se acomodar diante do insuportável.

Eu poderia ter dito a ele sobre uma grande quantidade de revoltas populares abundantes na historiografia do meu país. Balaiadas, sabinadas, cabanadas, badernaços, lutas sociais e populares, guerrilhas e marchas revolucionárias pelos sertões do país, jornadas estudantis etc. etc. etc. Mesmo assim, ainda faltaria a cabeça de um rei para pormos na cota de nossas ousadias políticas. No fim temos nossas cabeças cortadas. Infelizmente, de Antônio Conselheiro à Lampião, de Tiradentes à Marighela, e nenhuma delas faz parte da casta plutocrática que manda neste país há quinhentos anos.

Escritor, dramaturgo, professor de filosofia e direito do IFRN. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. José de Castro 5 de Julho de 2016 9:38

    Simbolicamente já temos uma cabeça cortada e outra em expectativa, que são as de Dilma e de Lula (os dois reis dos projetos sociais, das promessas do “não ter medo de ser feliz”)… E já temos a “nova ordem” fazendo as rupturas econômicas e institucionais, revogando diretrizes e acenando com arrecadações de muito mais grana – pelas privatizações e venda das riquezas do subsolo, e até mesmo o próprio solo – para cobrir os supostos rombo e quebra do país pelos reis que tiveram suas cabeças cortadas…. Alguns deles continuam de cabeça erguida, mas isso não vem ao caso… Aliás, o país é uma verdadeira Hydra e teria muito mais que apenas duas cabeças a serem cortadas – se é que as cortadas foram as certas -… A verdade e que é uma nova/velha ordem plutocrática vem a ser ungida com as benesses das “imunidades” (quase direitos divinos) e os chamados “foro privilegiados”, e a produzir mais corrupção para encobrir as antigas, com um grande diferencial que é o da “legitimidade” amparada numa impunidade seletiva que pune ao bel prazer dos “novos reis de plantão”. Essas, sim, as cabeças mais difíceis de serem cortadas, pois elas pensam para além das fronteiras, com sonhos de novas teias de entrelaçamento com o país dos sonhos, o El Dorado de Tio Sam, modelo perfeito dos sonhos da nova ordem. E há um supremo tribunal (ou seria ínfimo?) a compactuar, pois os togados de plantão se assemelham a uma espécie de eminência parda, que contam ainda, com o chamado quarto poder que se alça ao direito de ser o principal mandatário, a ditar o ritmo das execuções. Na verdade, são eles que ordenam o corte das cabeças e ainda produzem o grande espetáculo midiático louvado diariamente com altos índices de lavagem cerebral. Cabeças foram feitas para pensar ou para serem cortadas? Cabeças que pensam precisam ser cortadas. Principalmente as cabeças que pensam um mundo com distribuição de riqueza aos plebeus. Mas a nova corte só pensa no próprio butim.

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