Sobre vaqueiros e fazendeiros do Trairi nos séculos XIX e XX

Mais um livro importante da editora Azymuth, especializada em autores potiguares de um passado distante, verdadeiro resgate intelectual nesta terra onde pouco se lê e muito se carta.

Retalhos do Meu Sertão, de José Fernandes Bezerra, foi publicado originalmente em 1979, como trabalho ‘extra’ de um agente de estatística do IBGE apaixonado pela cultura do gado no Agreste do século que perpassa a segunda metade do XIX e a primeira do XX.

Na introdução, Zé Fernandes (1910-1980) avisa ao leitor:

“A bem da verdade, esclareço que me falta cultura e talento para escrever um trabalho de maior valor. Nunca alisei os bancos de nenhum estabelecimento de ensino médio ou superior […] Reconheço e confesso honestamente que o meu modesto trabalho tem inúmeras falhas”.

Você fica ressabiado entre uma possível falsa modéstia ou a mais pura verdade, após o alerta.

Na primeira parte, então, intitulada No Mundo do Vaqueiro, as sombras de outros pesquisadores do tema surgem em todo lugar – de Juvenal Lamartine e seu “Velhos costumes do meu sertão”, até Luís da Câmara Cascudo, com o seminal “Tradições populares da pecuária nordestina”.

Creio que ambas as referências citadas são fundamentais para quem busca entender o Rio Grande do Norte e as peculiaridades da Civilização do Couro, como disse Capistrano de Abreu – ainda que pesquisadores, como Muirakytan Kennedy de Macêdo e seu discípulo Helder Alexandre Medeiros de Macedo, doutos no Seridó e nas tradições indígenas, tenham aberto novos caminhos para a historiografia potiguar.

Nada de novo surge dos capítulos que falam de apartação, aboio e das vaquejadas em si. Nem das características dos animais e seus habitats – como saber que o casco de um cavalo estropia mais fácil no chão menos seco do Agreste do que no Alto Sertão.

Ainda na primeira parte, também em desvantagem quanto a obras mais completas, como “Vaqueiros e cantadores”, do próprio Câmara Cascudo, a historia de Fabião das Queimadas, o escravo que comprou sua alforria, a da mãe e a de uma sobrinha (futura esposa) tocando rabeca e declamando poesia, inclusive para a elite natalense, sustenta o interesse pelo extraordinário personagem retratado.

Só que “Retalhos do meu sertão” é focado no Trairi, e ao começar a segunda parte, Biografias e Linhagens, Zé Fernandes mostra que sua larga vivência em São Tomé (onde o autor foi consagrado como Patrimônio Cultural), Santa Cruz (sua terra natal, ele mesmo um descendente dos fundadores da cidade), Barcelona, Lagoa de Velhos, Rui Barbosa, Sítio Novo e São Paulo do Potengi proporcionou conhecimento sobre a genealogia das principais famílias – e a audição de uma penca de episódios pitorescos.

Dessa parte em diante, o livro me empolgou.

Fatia significativa dos biografados gira em torno da fazenda Várzea Alegre, em Santa Cruz, pertencente ao tataravô do autor, local de nascimento e criação do pai e tios.

Era um tempo em que se ‘contraia’ núpcias, sempre sob ‘virtudes cristãs’. Tempo em que fazendeiro e vaqueiro, muitas vezes, se misturavam em meio à gadaria, como Calixto José de Araújo Medeiros (1823-1916), o Seu Calixto, natural de Santa Luzia do Sabugi, na Paraíba, descendente de portugueses do século XVII que aportou em Santa Cruz ainda jovem para virar um dos maiores criadores de gado do Trairi.

Homem baixo, da orelha de abano, porém rico, grande rastejador de sua época (vaqueiro bom em detectar o rastro dos animais fugidios). Sabia com facilidade o tipo de cobra que estava na área – ofídios eram dos maiores temores de outrora.

Gente ‘temente’ a Deus, como Ezequiel Mergelino de Sousa, o Major Ezequiel, o maior comerciante de Santa Cruz (foi prefeito do município) nas últimas décadas dos Oitocentos, dono de várias fazendas nas ribeiras dos rios Trairi e Potengi. Seu prestígio político o levou a duas deputações estaduais.

Já o cabo do 40º Batalhão de Caçadores de Natal, João Lourenço, abandonou o posto para virar agricultor em São Tomé. Amigo e compadre do pai do autor, o ‘Presidente’, como era chamado, tinha o costume de comer carne de cascavel refogada com alho e manteiga do sertão para evitar doenças reumáticas. Mandava descer a faca um palmo antes da cabeça da serpente.

E por aí vai.

Adjetivação excessiva para enaltecer amigos, tão comum nos autores potiguares de antanho, está presente em “Retalhos do meu sertão”. Mas isso não sufoca quem lê a brochura de bela capa, prefácio original de Waldson Pinheiro e relevância incontestável. Pode soar até romântico para curiosos por esse fragmento da história norte-rio-grandense.

Retalhos do meu sertão
Autor: José Fernandes Bezerra
Editora: Azymuth
Preço: R$45,00 (Cooperativa da UFRN)

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