O sofisma do dia da Consciência Humana

“Não lutamos por integração ou por separação.

Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos”

Malcolm X

Sempre que se aproxima o dia da Consciência Negra ouço muitos dizerem que o mesmo não deveria existir. Que a ideia de haver esse dia apenas reforça, ainda mais, a separação das pessoas.

Uma vez que somos todos humanos, então ao invés do dia da Consciência Negra, deveria ser o dia da Consciência Humana. E ao me deparar com tais afirmações, abro a seguinte questão: que consciência humana é essa? Pergunto, pois sinceramente desconheço.

Leia “Diversidade não é o mesmo que representatividade”, de Idyane França

Acredito que nas próximas linhas deste artigo outros questionamentos surgirão, dentro da inquietude da alma desta que vos escreve. Vejamos, a história nos mostra que a partir do século XIII o processo de colonização passou a ter o carácter de dominação (e, por vezes, extermínio) de povos que ocupavam territórios longínquos e dos seus recursos naturais, criando grandes impérios coloniais.

E um dos aspectos mais brutais desta colonização foi a escravatura, com a “exportação” de uma grande parte da população africana para às Américas, a parti do século XV. Então, pessoas eram tiradas à força de sua terra natal, de seus familiares; eram expostas a condições consideradas desumanas, eram torturadas, eram vendidas e muitas morreram dentro desse sistema escravocrata. Mas, ainda sim, vamos acreditar que para a nossa sociedade todos somos igualmente humanos?

Desumanização da população negra

Para contrapor, muitos dirão que esses acontecimentos ficaram no passado, e que os tempos são outros. Porém, quando vamos aos dados da violência, da população carcerária, da população em situação de rua, da baixa escolaridade, da baixa renda salarial, entre tantos outros dados desoladores; é a cor negra que aparece no topo dos gráficos.

Quando a morte de um cachorro mobiliza e comove mais de que uma criança negra. Quando um homem negro é preso por portar um detergente, mas um homem branco é absolvido por “estupro culposo”. Me vem mais um questionamento: quais são as raças que estão inseridas nessa dita humanidade?

“Como a imprensa brasileira repercutiu o assassinato do líder antirracista?”

Diante de tudo isso, lastimo a realidade na qual estamos inseridos, em que o processo de desumanização da população negra segue imperceptível para vários olhos, e como o próprio Malcolm X disse – Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo. E o próprio Malcolm foi vítima desse ódio, que é tão recorrente e naturalizado pela sociedade racista que vivemos.

Por tanto, enquanto muitos discursam em prol da “Consciência Humana”, outros lutam para serem reconhecidos como um. E mesmo sendo essa luta tão tirana, tão injusta, tão pesada; por ela vale a pena brigar. Sigamos!

Imagem de capa: Senhora com dois escravos, Bahia, 1860, Acervo Instituto Moreira Sales

Artista, poeta, jornalista, militante do movimento negro [ Ver todos os artigos ]

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