Solidão Mineral

A solidão também tem suas serventias e matizes. Tem aquela que a gente sente no meio da multidão. A solidão de uma vida de casado. A solidão povoada. Somos pássaros presos a querer cantar sempre atordoado.

A solidão mineral, penso, é a que vivi durante boa parte da vida. Sempre me vejo só. Sempre estive só. Uma solidão como de uma sexta-feira quando esperava um amigo no bar. Tinha combinado com ele e ele não apareceu. A solidão mineral ficou tendo a cor daquela sexta- feira. Toda solidão é solidão. Mas a solidão da sexta feira é maior. Nesse dia da poesia ja estou sentindo ela. Aquela que você sabe que ( não ) vai encontrar no final de semana. Sem trabalho e sem a rotina dos dias úteis.

Algumas pessoas procuram a solidão. Dizem que ela é necessária para se encontrar com ela mesma. Para criar. Para compreender a vida. Talvez seja essa solidão que o poeta procura.

Tento esquecer o mal que me aferroa. Mas, para quê? Para onde vou se logo ela chega urtigando. Às vezes dou-me olhando para nada. Dando gargalhada do passado como cantou Cartola. Para minha introspecção. Não pense que é fácil escrever sobre essa desacomodação que sinto. A vida é pra amar-se, sabemos. Ate quando negamos. A sensibilidade e o conhecimento nos torna mais infeliz. Tudo parece Dejà Vu. De vivo mesmo só a barata que matei a pouco e a lagartixa que entra na minha cozinha.

Ninguém sabe de ninguém. Da minha vida indisciplinada e louca sem peso. E tudo aos meus olhos se torna corriqueiro e superficial …

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Comments

There are 10 comments for this article
  1. Oreny Junior 20 de Março de 2014 18:53

    João,
    Enfrentá-la ou não é preciso, como diz Alceu, ela é fera, devora, mas é preciso tê-la, muitas vezes o emaranhado é enorme, sair dela é um labirinto, ao mesmo tempo é como porta aberta de gaiola.
    A título de exemplo, vivo mastigando, ruminando todo com a maga véia, os dias de ausências neste mato grosso do sul e vivo, não vivo, ando.
    Andaremos, a cabo de são roque e a genipabú são seus login e logoff.
    Abraços

  2. Anchieta Rolim 20 de Março de 2014 19:57

    Belo texto Damata! É por aí. A solidão vem de várias maneiras. Para mim particularmente, ela só é bem vinda quando a busco espontaneamente. Já a solidão pelo esquecimento ou desprezo, é triste demais. Outro tipo de solidão que deve ser muito angustiante é a solidão do poder, essa, só os políticos e seus comparsas conhecem muito bem. Um abração, meu amigo!

  3. damata 21 de Março de 2014 11:34

    Obrigado amigos Oreny e Rolim pela leitira do texto.

  4. damata 21 de Março de 2014 11:55

    Instantâneos!

    “A solidão faz homens de talento ou idiotas.” – Victor Hugo

    A instabilidade e a contradição são marcas do humano.

    Se desejas a paz não ames.

    Se não queres o contraditória deixa a tua condição humana.

    A vida é isso mesmo: Uma travessia ruidosa entre o amanhecer e morrer.

    damata

    “A solidão faz homens de talento ou idiotas.” – Victor Hugo

  5. Ednar Andrade
    Ednar Andrade 21 de Março de 2014 16:15

    Querido amigo,por ter sido muito só eu descobri maravilhas na soldão.E entre tantas,aprendi a ficar só comigo . Na solidão aprendemos a solidez,um bem que não tem preço.

    Em cada solidão, você se tem ao seu lado.

    (Ednar Andrade)

    Beijos,é um belo texto.li e reli e por ter gostado tanto…….. Escrevi outro.Rs…

    Beijos,paz….. E as vezes,também solidão. O que nos deixa fortes.

  6. DAMATA 21 de Março de 2014 19:12

    Obrigado querida Ednard. Realmente ela nos torna mais forte. Beijos

  7. Danclads Lins de Andrade 22 de Março de 2014 8:10

    Da Mata, amigo, que texto forte e verdadeiro. A solidão não é fácil de ser encarada, mas algumas vezes ela é necessária, para podermos ter aquele tempo conosco mesmo. Na solidão temos o aprendizado que João Cabral de Mello Neto falava: a educação pela pedra. É na solidão que, como disse Ednar, ganhamos solidez. Claro que é bom estar ao lado de alguém para partilhar momentos, mas a solidão tem seu valor.

    Agora me recordei de minha sobrinha Luanne que, quando criança, minha mãe a chamou para saber onde ela estava e ela respondeu: – estou aqui. Minha mãe então perguntou: – está aí com quem? e ela disse: – estou aqui comigo. Estava brincando sozinha em seu mundo infantil.

    Parabéns Da Mata.

  8. Marcos Silva
    Marcos Silva 22 de Março de 2014 20:48

    Tenho a impressão de que toda cidade merece esses devaneios. Isso apenas amplia o alcance do texto.

  9. João da Mata
    DAMATA 23 de Março de 2014 16:26

    “A solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler, nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: A companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos.” Carlos Drummond de Andrade.

  10. Marcos Silva
    Marcos Silva 24 de Março de 2014 8:25

    O comentário que enviei acima se refere ao poema “Natal”, de João da Mata. Não sei o motivo de ter saído aqui, mandei de um computador de hotel (Rio Branco, AC), talvez tenha feito confusão.

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