Solto no tempo

A calçada suja
o sangue na blusa
a casa sem rosto
o portão aberto
os restos nos cantos
entoados os fardos
os santos guardados
redomas em  estilhaços
urgiam projetos fartos
imodestos tardios
as asas do inseto
reagindo à brisa
o mosto a garrafa
o espelho o rosto
a vulva espetada
o gole  a garganta
a uva amassada
os pés descalços
as auréolas ilhadas
em cada bico de peito
em cada bico de bule
o café dormido o dia
aceso o vento tenso
repetindo a própria frase
e assovios-sobressaltos
o sexto sentido a porta
o lamentável aposento:
o quarto o violoncelo
que toca o nada:
a segunda noite
seguida incerta
acelerada em sono
desperto.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 10 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 10 de janeiro de 2014 8:20

    Lívio, esse poema tá do jeito que eu gosto: Forte e direto. Parabéns!

  2. Jarbas Martins 9 de janeiro de 2014 22:27

    Falou, Marcos.

  3. Marcos Silva 9 de janeiro de 2014 16:01

    Jarbas, sempre será um prazer encontrar com vc. Provavelmente, estarei aí em março ou abril (banca de tese prevista), combinaremos na época.

  4. Jarbas Martins 9 de janeiro de 2014 11:51

    Correto, Marcos.Devo reconhecer que o radicalismo da primeira fase da Poesia Concreta,condenando o uso da metáfora (os concretos não gostavam de Lorca, vejam só), teve uma forte influência em minha formação literária.Acho que superei essa questão, levantada pelo trio da legendária revista NOIGANDRES.No caso da poesia de Lívio, no entanto,a metáfora comparece sem qualquer resquício de preciosismo, vício e abusos literários.E você terminou colocando as coisas no devido lugar,reconhecendo o valor da poesia de Lívio, e minhas intenções ao fazer meu comentário.Agradeço, mestre e amigo.Abraços.
    Gostaria de me encontrar com você, num café (ou, quem sabe, na casa de Luís Damasceno) quando passar pela terrinha.

  5. Marcos Silva 9 de janeiro de 2014 2:28

    Jarbas argumenta sempre num excelente nível teórico, com referências a autores complexos (Pound e outros). Tenho dúvidas sobre o bem em si da metonímia contra o mal em si da metáfora. Prefiro pensar que são recursos que podem ser bem ou mal usados, dependendo do engenho e arte de cada um.
    Minha observação em nada diminui o elogio feito à poesia de Lívio, é claro.

  6. Jarbas Martins 8 de janeiro de 2014 11:17

    honrado

  7. Tácito Costa 8 de janeiro de 2014 10:50

    DE JARBAS MARTINS:
    “poema contido, lírico, a metonímia prevalecendo sobre o metaforismo. como eu gosto.Lívio é um dos poetas que, sem dúvida, iria para minha Antologia do Substantivo Plural. difícil seria estabelecer quantos poemas de Lívio eu selecionaria.”

  8. Lívio Oliveira 8 de janeiro de 2014 7:08

    Esse comentário de Jarbas (versos metonímias versus versos metáforas) me honra e me ensina o caminho das pedras, mais uma vez me permitindo o crescimento poético. Certa vez disse aqui que em meio às diversas falas críticas e/ou brincalhonas do mestre e amigo Jarbas sempre há algo a se captar de valioso. As pepitas estão espalhadas por aí. É preciso saber colhê-las. Caro Tácito, você poderia trazê-lo (o comentário) para este post – lugar de direito? Abraços.

  9. Lívio Oliveira 7 de janeiro de 2014 12:04

    Obrigado, caro Marcos. Gosto de ler suas impressões sobre a poesia aqui produzida. Abraço.

  10. Marcos Silva 7 de janeiro de 2014 11:30

    Gosto muito das passagens, nesse poema, de um universo para outro, demonstrando ligações inesperadas- o estado de coisa, o estado de ser. Destaco especialmente o violoncelo que toca o nada, muito bonito, tanto quanto a vulva espetada.

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