Som e fúria

Por João Pereira Coutinho
FSP

Ler “Mein Kampf”, a autobiografia intelectual de Hitler, é um dos exercícios mais penosos de qualquer existência letrada. Mas existem vantagens no ordálio: chegamos ao fim e entendemos melhor a cabeça de um oportunista e de um lunático.

Esses dois traços estão presentes nas páginas que Hitler dedica aos seus anos de agitação populista depois da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918). Sim, ele tentara a Academia de Belas Artes de Viena. Mas o fracasso em ser um artista das telas não apagou a possibilidade de ser um artista da retórica e da exploração emocional, sobretudo em Munique.

E quando sabemos que a Alemanha do pós-guerra não era propriamente um paraíso econômico e social, entendemos que Hitler era o homem certo no momento certo. Ele próprio o confessa: as massas confusas que o escutavam em reuniões clandestinas só precisavam de uma causa e de um líder. A grandeza perdida da Alemanha era a causa. Ele era o líder. Os judeus, claro, os bodes expiatórios da humilhação germânica no Tratado de Versalhes. Deu no que deu.

Passou quase um século. E a Europa está novamente nas ruas. São protestos de indignação popular que correm as capitais europeias. E os comentadores de serviço repetem todos o mesmo ponto: os protestos são difusos, sem objetivo claro, com motivações contraditórias.

Difícil negar: de Londres a Roma, de Lisboa a Atenas, o que existe é um vago sentimento anti-elitista e anti-capitalista, também onipresente na ocupação de Wall Street, a mãe de todas as batalhas.

Mas o que me preocupa na indignação corrente é precisamente a natureza difusa dos protestos. E isso é tangível na Europa, que vive hoje a mais séria crise econômica e financeira desde a Segunda Guerra Mundial. Essa crise não é mais do que princípio do fim do seu “modelo social”: a ideia generosa de que o Estado pode suprir todas as necessidades básicas do cidadão, do berço até à cova.

Os portugueses já estão a sentir o fim desse modelo: o anúncio do governo de Pedro Passos Coelho de que o subsídio de férias e o subsídio de Natal irão desaparecer até 2013 (e poucos acreditam que eles voltarão depois dessa data) lançou ondas de choque e pavor entre os lusos. Que se passa, perguntaram eles, para que o mundo dos nossos avós e bisavós esteja a desaparecer?

A pergunta é imprecisa: no mundo dos avós e dos bisavós, em plena ditadura do Estado Novo (1932 – 1974), não existia o “modelo social” que os portugueses de hoje tomam por eterno. Mas a memória dos presentes é curta e impaciente. Como convencer o europeu moderno que, no século 21, há todo um estilo de vida, feito de conforto e crédito, que acabou?

Essas notícias não se recebem de cabeça fria. E o caldo de indignação e ressentimento vai aumentar de uma forma nunca vista.

A minha secreta esperança é que a história não se repita; e que o clamor descontente das massas seja apenas isso: som e fúria, sem nenhum “artista” pronto para os manipular.

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