Somos todos mentirosos

Por Sergio Augusto
ESTADÃO

Se ainda vivo, o escritor argentino Alejandro Bevilacqua teria hoje 72 anos. Beirava os quarenta quando morreu misteriosamente em Madri, esfacelado na calçada do prédio onde morava o então inédito ensaísta Alberto Manguel, conterrâneo da vítima. Falou-se em acidente, suicídio e assassinato, hipóteses simultaneamente levantadas pela polícia e pelos que conviveram com o escritor, um dos muitos exilados pela ditadura militar argentina em meados da década de 1970.

Pobre Alejandro. Acabara de se consagrar com um marco literário, El Elogio de la Mentira, misto de comédia, tragédia lírica e feroz sátira política, alçado ao mesmo patamar de Unamuno e Thomas Mann, “o mais sagaz retrato de nossa época e suas paixões”, segundo Manguel, seu amigo e confidente. Apesar do frisson que causou, a única obra deixada por Bevilacqua jamais foi traduzida para qualquer língua. Por quê?

Porque El Elogio de la Mentira jamais existiu; assim como Bevilacqua, é uma invenção de Manguel, um livro-fantasma. Maiores detalhes no romance Todos os Homens São Mentirosos (Companhia das Letras, tradução de Josely Vianna Baptista, 177 págs., R$ 42).

Há quase 80 anos Borges resenhou um livro indiano, A Aproximação a Almotásim, supostamente editado em Bombaim e cuja inexistência frustrou, mas também divertiu, um bom número de leitores. A brincadeira fez escola, de onde saíram Pierre Menard, Bustos Domecq, borgianos da gema, e todas aquelas metaficções de Paul Auster, Rubem Fonseca e Enrique Vila-Matas. Ex-bagrinho de Borges na adolescência, Manguel bebeu direto na fonte, pode-se assim dizer.

Ao chegar em Madri, em pleno crepúsculo do franquismo, mas não fugido da ditadura argentina, somente em busca de calma para escrever, Manguel já remoía um romance protagonizado por um artista cuja vida tivesse sido frustrada, quiçá destruída, por uma única mentira. Seu enredo, que em princípio teria como pano de fundo Buenos Aires, levou anos para germinar. Ao ouvir do marido da escritora Margaret Atwood a história de um dissidente cubano que fugira com os originais do romance de um colega de cela em Havana e o editara como sendo de sua autoria, em Miami, Manguel montou seu quebra-cabeças. Ao ver, na casa de outro amigo canadense, a foto de um jovem anônimo, de olhar nostálgico, materializou-se em sua mente a figura de Alejandro Bevilacqua.

Um Cyrano portenho com traços do stendhaliano Fabrice del Dongo, do Molina de O Beijo da Mulher-Aranha e da versão que Vila-Matas deu ao Bartleby de Herman Melville: eis, em essência, Alejando Bevilacqua. Mais não posso adiantar sobre Bevilacqua (salvo que vivia de escrever roteiros para fotonovelas e era muito magro, alto e triste, movia-se com a lentidão de uma girafa, tinha ar sonolento, uma elegância simples, a voz rouca e dedos finos amarelos de nicotina, algo de Camus e Boris Vian), para não estragar o prazer proporcionado pela leitura de Todos os Homens São Mentirosos, um engenhoso romance policial literário cuja estrutura narrativa muito deve aos filmes Rashomon e Cidadão Kane.

Seu título, extraído dos Salmos, já teve outros corolários: “a verdade de cada um”, “assim é se lhe parece”, etc. Todos os homens são mentirosos porque a verdade absoluta é uma ilusão, uma impossibilidade – como seu oposto, a mentira absoluta. Não a mentira deliberada, mas a mentira da qual não somos culpados, a mentira que simplesmente se deve aos nossos próprios limites de ver o mundo. Não conhecemos a realidade, somente fragmentos dela. De outra perspectiva, o que acreditávamos verdadeiro pode revelar-se falso ou, no mínimo, discutível, e vice-versa.

É dessa limitação que trata o romance de Manguel. E também das questões do exílio, das ditaduras, da vaidade intelectual, da impostura, da inveja e da traição.

Um jornalista francês de origem espanhola, Jean-Louis Terradillos, por sinal baseado no vilarejo da região de Poitiers onde há anos Manguel fixou residência, tenta desvendar o rosebud de Bevilacqua a partir de quatro depoimentos. O primeiro a falar é o próprio Manguel; em seguida, Andrea, a amante madrilenha de Alejandro, para quem, aliás, Manguel “não passa de um imbecil” antolhado por uma visão livresca do mundo e das pessoas; depois, por carta, “El Chancho” Olivares, um cerebral cubano que dividira uma cela com o escritor em Buenos Aires, e, por fim, outro exilado argentino, chamado Tito Gorostiza.

No quinto capítulo, Terradillos entrega os pontos. Dispunha apenas de retalhos e episódios inconclusos da vida breve porém agitada de Alejandro Bevilacqua; tinha sua silhueta perfeitamente sombreada na imaginação, mas os dados para cobri-la ou eram de mais ou de menos. E o jornalista se recolhe à sua insignificância, à condição de “esperançoso cronista” de uma existência lacunar.

Aqui e ali um personagem real se intromete, passivamente, na narrativa: o crítico e poeta espanhol Pere Giamferrer, a poeta espanhola Ana María Moix, a romancista Carmen Laforet, o crítico argentino Noé Jitrik-que, sem exceção, adoraram El Elogio de la Mentira – e, com especial e merecido destaque, Vila-Matas, pois, afinal de contas, segundo Manguel, Bevilacqua o havia inspirado a escrever Bartleby e Companhia. Abusando da licença poética, Manguel inventa um encontro fortuito de Vila-Matas com o “pseudo-Bartleby” argentino e também uma carta de condolências e especulação policial do escritor catalão ao autor de Todos os Homens São Mentirosos. Borges teria adorado.

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