Sonhar Sob a Pele Preta

“Não digam que fui rebotalho, que vivi à margem da vida.

Digam que eu procurava trabalho, mas fui sempre preterida.

Digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora,

mas eu não tinha dinheiro para pagar uma editora.”

Carolina Maria de Jesus

Certa vez, vi no Instagram a seguinte frase: nada é tão nosso quanto um sonho. E isso reverberou em mim de tal maneira, que me transportou à menina preta, de periferia, que vivia a sonhar. Que viu tantos sonhos se perderem no caminho. Que chorou todas as vezes diante do sentimento impotente da não realização. Como pudera sonhar? Pensei.

Se, por vezes, lhe faltava o pão, se não tinha um ensino de qualidade, se todas as princesas dos contos de fadas eram brancas, se tudo que via na TV eram pretas escravizadas, empregadas, sempre em posição de subserviência; exceto a Globeleza, claro, que aparecia de ano e ano, no período carnavalesco, seminua, a sambar.

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Quando toda uma sociedade, branca, capitalista, lhe conduzia ao caminho oposto de seus sonhos, na tentativa de lhe convencer que não era capaz. De que tudo que vinha do seu povo era inferior, feio, errado, desde as características físicas, aos seus saberes, à sua fé.

Estou a falar de algo, que para muitos, possa parecer irrelevante, que é o simples direito de sonhar. De acreditar que é possível. Mas, o que há de tão perigoso nos sonhos, que querem nos privar? Seria os sonhos um impulsor, capaz de mudar a epistemologia desse sistema racista, colonizador, capitalista, patriarcal?

Devemos sonhar mais

“se sonhar sob uma pele preta é algo que assusta tanto esta sociedade, ao ponto de querem nos dizimar, então o Proust está certo, devemos sonhar mais.”. Foto: Gordon Parks

Segundo, Marcel Proust – Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais. Porém, indago novamente. Como pudera sonhar?

Se Martin Luther King Jr ao lutar e falar de seus sonhos de igualdade, foi assassinado. Se Mirtes, mãe de Miguel, sonhou em dar uma vida melhor para ele, findou perdendo-o. Se Agátha Vitória, aos 8 anos de idade, sonhou em ser a Mulher Maravilha, foi morta pelo abuso militar. Entre tantos e tantas que tem, diariamente, seus sonhos ceifados.

Bem, a menina preta, de periferia, que sou eu, chegou a seguinte conclusão: se sonhar sob uma pele preta é algo que assusta tanto esta sociedade, ao ponto de querem nos dizimar, então o Proust está certo, devemos sonhar mais. Devemos fazer o caminho de volta para casa, para os nossos. Nos reconhecermos, nos acolhermos, nos aquilombarmos, nos fortalecermos.

E, em resistência, seguir sonhando. Se contrapondo ao que está posto. Lutando por nossas vidas, por nossos espaços e por nossos ideais. Pelo direito ao sonho. Pois, pra esta menina, assim como para Carolina Maria de Jesus, sonhar é realizar.

Artista, poeta, jornalista, militante do movimento negro [ Ver todos os artigos ]

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