Sonhos, sonetos, rios

Por Jarbas Martins

Sempre tive uma certa predisposição para as coletas, colheitas e achados. Em minha primeira infância, em Angicos, era comum achar no céu limpo, e de um azul que cegava, nuvens com cara de bichos, gente, árvores, avião. Colecionei, durante muitos anos, sonhos na memória sem nenhuma intenção de anotá-los e filmá-los como Kurosawa. Mas não resisti à tentação de escolher sonetos, em número de 14, e de 14 autores potiguares diferentes, e guardá-los numa antologia. Outra idiossincrasia minha, a numerologia, é outra história.Talvez a melhor definição para minha pessoa seja esta: antologista. A grande admiração que tenho por Luís da Câmara Cascudo (de quem fui aluno na Faculdade de Direito da Ribeira) era porque o Mestre se dizia um colecionador de crepusculos. Coletor, colecionador, antologistas, ofícios afins. Ultimamente tenho colecionados rios, que canto em versos e dedico às musas. Espinharas, nome do rio de Serra Negra do Norte, é também o nome de um poema que dedico a Gildete. Rio Pataxó, o rio da minha aldeia, é dedicada à musa conterrânea, Carmen Vasconcelos. O poema ad perpetuam rei memoriam-I não é só dedicado a Nina Rizzi, já pertencente a ela como parceira. Nina meteu-se no meu poema sem pedir licença, e lhe deu uma nova forma. Bela intervenção. Só me resta cantar o Tietê, rio estranho que corre inversamente- das bandas do litoral para o interior. Já que o Tietê, por direito e justiça pertence ao paulistano e poeta maior Mário de Andrade, inventarei um rio Tietê só para mim. Ele nascerá em Campo Belo, bairro de minha estimação, e se lançando para o interior, se bifurcará em Campinas. Uma parte irá para os confins de Araçatuba, onde Irani, minha Penélope real, paciente e distraída, escapou ao assédio de três pretendentes. A outra parte das águas do Tietê rolará em caminho de Ribeirão Preto e Franca, as nascentes de Nina Rizzi.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 12 de maio de 2010 22:53

    tive muitas musas,tãnia, algumas até distantes e indiferentes. mulheres, uma ou outra que passaram como os rios. tenho uma penélope real: e isto é o que conta. quanto aos açudes sou fiel a um: o açude velho perto da estação ferroviária de angicos. beijos.

  2. Tânia 12 de maio de 2010 11:23

    Bela foto, belo texto!
    São vários os rios da sua vida, móveis como suas musas.
    Não foi um rio que passou em minha vida, mas, um açude. Os açudes da minha infância é que alimentam meu imaginário. Até hoje reconheço o cheiro doce dos açudes e peixes da minha vida.

    “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. Alberto Caeiro.

  3. Nina Rizzi 12 de maio de 2010 8:58

    Jarbas, querido, que honra, ter sido aluno de Cascudo. coisa mais boa, né, colecionar crepúsculos. tenho uma coleção de nuvens, auroreais e crepusculares. te mando depois.

    gostei do seu/ nosso tietê. que honra. ele pode passar também por brodowski? terra de portinari e um tanto minha também. e que clima e tantas saudades…

    beijos.

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