Sontag diante do papel

Por José Castello
O GLOBO

Releio um antigo artigo de Susan Sontag, publicado no The New York Times na virada do século 21. Tenho o hábito de recortar ou imprimir textos que me interessam e de guardá-los, aleatoriamente, dentro de um _ de qualquer _ livro. Encontro-o agora entre as páginas da edição espanhola de “A era da suspeita”, de Nathalie Sarraute, ensaio que separei na esperança de reler. Buscava Sarraute e, no entanto, encontrei Sontag. A leitura (pelo menos no meu caso) guarda esse caráter deslizante e fortuito. Não me adapto a projetos de leitura organizados. Tenho dificuldades de seguir sempre a mesma ordem. Desvio-me, perco-me, mudo de rumo. Não sei se isso é bom, ou se é ruim _ é assim.

Pois foi numa dessas guinadas, orientado mais pelo acaso do que por qualquer projeto intelectual, que reencontrei-me com Sontag. O pequeno artigo começa com uma frase provocadora: “Ler romances parece-me uma atividade muito normal, enquanto escrever romances é uma coisa muito estranha”. Apesar disso, ressalta, as duas coisas, ler e escrever, estão “firmemente relacionadas”. Talvez Sontag refira-se à possibilidade de ler um romance em linha reta _ enquanto escritor algum, mesmo o mais metódico, escreve em linha reta. Além disso, por mais que o leitor se identifique com um personagem ou uma história, conseguirá sempre abrir uma distância entre eles e si mesmo. Já quando escreve, e por mais distante ou banal que seja o relato, um escritor se sente desnudado.

“Escrever é sentar-se ao tribunal para julgar a si próprio”, diz Sontag, repetindo uma frase de Ibsen. Parte de uma hipótese que deveria interessar muito aos “escritores em série” de nosso mundo contemporâneo. Afirma: “O que se escreve sem esforço, de modo geral se lê sem prazer”. Não é que o escritor tenha de sofrer para escrever. Mas a ficção dele exige um engajamento pessoal, um empenho, um compromisso que necessariamente o levam a uma zona de desconforto. “A questão não é o julgamento dos leitores”, acrescenta Sontag, questionando a atitude dos que escrevem de olho nas listas de mais vendidos, na recepção crítica, ou na conquista de prêmios literários.
A questão é o julgamento que, ao escrever, um escritor promove de si mesmo.
E os escritores, define Sontag, são “os profissionais da insatisfação”.

É assim mesmo. Só desse descontentamento pode sair alguma coisa que preste. Não falo de algo “maravilhoso” ou “impecável” _ fala de algo “verdadeiro”, embora muitas vezes a verdada gere profundos desprezos. Insisto na relação entre literatura e verdade: o artigo de Susan Sontag só me convence, mais uma vez, de que há algo aí crucial. Fala Sontag na liberdade que um autor deve se dar para “cair”. Detalha: “Para cair. Para descobrir sua própria maneira característica de narrar e insistir, para encontrar sua própria liberdade interior. Para ser rigoroso, sem se esfolar demais”. Não precisa falar de si, ou confessar-se para fazer isso. Pode mirar um objeto distante, inacessível _ mas será a si que expõe.

É uma liberdade que dói – bem mais fácil é seguir fórmulas consagradas, perfilar-se na grande linha da história literária _ paródias, citações, atualizações _, ou desejar apenas “escrever bem”. Voltar-se para si mesmo não é simples. Experiência distinta da que se experimenta na leitura. A leitura (e aqui Sontag relembra uma frase de Virginia Woolf) promove um “estado de completa eliminação do ego”. Assinala ainda que escrever, ainda assim, não é apenas escrever sobre si mesmo ou a partir de si mesmo. “É muito mais interessante escrever a respeito dos outros”. Mesmo assim, ainda que nessa escrita voltada para o outro, a expressão de si é inevitável. Falar do
outro é falar do olhar que consigo ter sobre o outro. Falar do outro é falar
de meu olhar. É, no fundo e mesmo que de modo torto, falar de si. De alguma
forma _ sempre insatisfatória, sempre parcial – revelar-se.

Reflete Sontag que, talvez por conta desse contraste, muitos escritores mais velhos leiam cada vez menos. A concetração em si assume dimensões tão atordoantes que já não sobra espaço para mais nada. A leitura requer uma capacidade de esvaziamento. A escrita, ao contrário, promove um tumulto interior (um engarrafamento) que se apossa do escritor por completo.Lembra, ainda, que o leitor se torna, com o passar do tempo, cada vez mais rico internamente. Já o escritor não pode dizer a mesma coisa de si. “O que a gente acumula como escritor, em sua maior parte, são incertezas e ansiedades”, constata Sontag. Um escritor não avança _ um escritor cai em si mesmo.

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