Sossega, Leão

A lucidez póstuma do poeta

PERFIL

RESUMO

Diagnosticado com esquizofrenia paranoide e morto precocemente, Rodrigo de Souza Leão (1965-2009) tem romances inéditos publicados e pinturas reunidas em exposição no MAM-RJ. O conjunto constitui um testemunho original da cultura do Rio dos anos 80 e 90, marcado pelos distúrbios mentais de que sofria.

Por Ronaldo Bressane
FSP

“TUDO É PEQUENO/ A fama/ A lama/ O lince hipnotizando a iguana// O que é grande/ É a arte/ Há vida em Marte.” Estranho poema este, o último postado por Rodrigo de Souza Leão em seu blog, Low-cura (lowcura.blogspot.com), em 24 de junho de 2009.

Dias depois, o jornalista, músico, poeta, prosador e pintor morreu em circunstâncias nebulosas, numa clínica psiquiátrica do Rio.

Além do poema que parece uma despedida, Rodrigo deixou uma “carta final” à família. Suicídio? A morte é um dos mistérios que cercam a vida deste carioca nascido em 1965: um ponto final que, paradoxalmente, pôs em circulação sua obra, hoje objeto de culto.

A peça “Todos os Cachorros São Azuis”, adaptação por Ramon Mello do romance homônimo (7Letras, 2008, finalista do Prêmio Portugal Telecom), estreou em julho e arrancou elogios de Barbara Heliodora, a severa crítica de “O Globo”. Os romances póstumos “O Esquizoide – Coração na Boca” [Record, 80 págs., R$ 29,90], de 2011, e “Me Roubaram Uns Dias Contados” [Record, 336 págs., R$ 47,90], de 2010, serão adaptados para o cinema por Felipe Bragança, a partir de 2013, com Cauã Reymond no papel de Leão.

A partir de quarta-feira, suas pinturas serão expostas em “Tudo Vai Ficar da Cor que Você Quiser”, no MAM carioca (veja galeria de imagens em folha.com/ilustrissima). A mostra foi viabilizada com doações feitas a um site de “crowdfunding” (financiamento coletivo) -o derradeiro centavo dos R$ 30 mil caiu no último dia do prazo.

DARDO

Tudo começa com um grilo na cuca, ou talvez tenha sido com um chip no cérebro. “Um dia, ele surtou e saiu correndo pelas ruas de Botafogo”, lembra o pai, o médico Antonio de Souza Leão. “Dizia que fora atingido por um dardo de um japonês, que introduzira um chip no seu cérebro”. Rodrigo foi internado e assim permaneceu por três semanas.

Aos 17, fora diagnosticado com esquizofrenia paranoide, agravada por transtorno obsessivo-compulsivo. Tratando-se com neurolépticos, estudou jornalismo e foi auxiliar de escritório na Sasse, seguradora da Caixa Econômica Federal; a chatíssima ocupação foi decalcada no primeiro livro, “Carbono Pautado”, escrito em 1995.

Ex-vocalista da banda Pátria Armada -confessadamente inspirada na Legião Urbana- e torcedor do Flamengo, clube onde praticava triatlo, era vaidoso. Fazia caminhadas em torno da lagoa Rodrigo de Freitas, vestia-se quase sempre de preto, tinha o apelido Elvis e muitos amigos e namoradas na Faculdade da Cidade. Essa vida “normal” foi perdida naquela tarde em Botafogo: dos 23 anos em diante, nunca mais saiu sozinho.

“Atrás de mim, um japonês tirou uma zarabatana pequenina para fora, soprou e inoculou em mim a bomba”, escreveu em “O Esquizoide”. Antes da bomba, porém, houve o chip, e antes do chip, um grilo. “Tudo começou quando engoli um grilo em São João da Barra. Tinha 15 anos”, anota em “Todos os Cachorros São Azuis”, misto de registro da experiência na clínica com romance policial nonsense.

Vertia as próprias alucinações em corpo narrativo numa operação triangulada: o narrador Rodrigo registra o autor Rodrigo surtado, que arma situações criticadas pelo personagem Rodrigo. Se toda ficção é reinvenção da biografia, como pode a prosa ser verossímil quando a biografia é controversa?

LABIRINTO

A saída desse narrador nada confiável é a galhofa tingida com melancolia. Seu romance mais ambicioso, “Me Roubaram Uns Dias Contados”, é um labirinto de espelhos frequentado só por ele e pelo leitor. Começa com uma engraçadíssima seção focada em um tal Weimar, que jamais sai da casa onde tem dez telefones para sexo à distância, os “gozofones”.

Weimar atrai ao covil onanista as garotas Vegetal, Mental e Vertigem. Interrompe a orgia para ler uma ficção de 600 páginas envolvendo Nietzsche e Kardec. E tem início outra seção, que detalha a rotina repetitiva de um certo Rodrigo. O hipnótico texto tem toques de paradoxal poesia (“Ninguém se conhece tanto a ponto de abrir a porta para um estranho sem saber que este estranho é ele mesmo”) e presságios tragicômicos: “Alguma coisa acontece no meu coração. Será um infarto do miocárdio?”.

Divertindo-se com o fato de o tal Rodrigo nunca ser publicado -os editores o acham “um louco lúcido demais”-, o texto vai da autopiedade ao auto-ódio em frases curtas, secas, sem verbo, num discurso em que a livre associação de ideias deixa entrever um rico panorama do Brasil dos anos 80 e 90, habitado por versos de Legião Urbana, Titãs e Cazuza, bem como Drummond, Proust e Rimbaud.

Por fim, um homem é seguido por um sósia que vira um pintor celebrado -ao contrário do autor, artista aprendiz. À parte o tortuoso argumento, transtornos, remédios e reclusão ocupam o centro da escrita: todos os personagens são Rodrigo -e todos não são.

LINHAGEM

Vivendo a doença como plano de fuga e realidade multidimensional, Rodrigo se inscreveu em uma esquiva linhagem da nossa literatura. O cânone da investigação autobiográfica psicopatológica alinha do Lima Barreto de “O Cemitério dos Vivos” ao Lourenço Mutarelli de “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, passando pelo José Agrippino de Paula de “Lugar Público” e a Maura Lopes Cançado de “Hospício é Deus”.

“Não há como fugir da tradição de tratar transtornos na escrita”, diz a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda. “O deslocamento para o ponto de onde vê a doença é forte em Rodrigo. Por outro lado, ele une intensidade à leveza da geração 00, que vive a imersão virtual.”

A rede foi um raro canal de comunicação com o mundo. Rodrigo publicou em vida os poemas de “Há Flores na Pele” (Trema) e “Caga-Regras” (Virtualbooks), dez e-books e vários textos na internet. Para os sites Balacobaco, Germina e Zunái, entrevistou mais de cem autores brasileiros.

Claudio Daniel, editor da “Zunái”, refuta o rótulo de “poeta maldito”. “Rodrigo era gentil, tinha humor. Abordava temas incômodos como esquizofrenia e internação, escrevia gírias e palavrões, mas ‘maldito’ é ficção publicitária.” Para o escritor Nelson de Oliveira, “a esquizofrenia não é recurso retórico. Escritor, narrador e eu poético, terminado o trabalho literário, não tiram a máscara da loucura, tomam banho e ligam a TV: a loucura é seu rosto”.

A ausência de linearidade foi o que atraiu o ator Cauã Reymond, que comprou os direitos cinematográficos de todos os livros. “Os vários personagens que Rodrigo criou permitem uma narrativa muito criativa para o cinema. É genial a forma como os dois planos interagem, o real e aquele que olha pelo filtro da esquizofrenia.”

PINTURA

Nos últimos anos de vida, a arte de Rodrigo Souza Leão ganhou expressão pictórica. “Meu objetivo era interromper a síndrome de pânico que o mantinha em casa havia 20 anos”, lembra o crítico de arte Paulo Sérgio Duarte, tio do escritor, que se surpreendeu com suas obras iniciais. “Se a obra literária tem referências dos anos 1980, as pinturas pertencem claramente à chamada Geração 80.”

O incipiente trabalho visual foi descontinuado por novo surto, motivado, curiosamente, por uma novela da Globo. Rodrigo revoltou-se contra o personagem de Bruno Gagliasso em “Caminho das Índias” (2009): um esquizofrênico que atira no irmão da namorada. “Ele achava que era estímulo perigoso aos doentes”, diz o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, que travava com ele longas conversas telefônicas.

Rodrigo enviou ao “Jornal do Brasil” dura carta contra a abordagem de Glória Perez, que ele considerava estereotipada.

Rodrigo acalentou o medo de matar o próprio irmão, Bruno, e decidiu se internar, como lembra o pai, em 28 de junho, um domingo. “Visitei-o levando o jornal com sua carta, mas mal falou comigo. Soube depois que agredira um enfermeiro. Estranhei: Rodrigo não era agressivo.” A outra carta, de despedida (“Tomara que exista outra vida. Esta foi pequena pra mim”), era anterior à internação. A morte, em 2 de julho, permanece insolúvel.

Como não havia sinais de violência, a família preferiu não pedir autópsia. “Ele fumava três maços por dia, era hipertenso, isso pode ter contribuído para o infarto. Bem como, talvez, uma dosagem maior dos remédios. A carta explicita o sofrimento. Mas o que ocorreu de fato jamais saberemos. Teria inconscientemente buscado o suicídio? Não sei responder”, diz o pai.

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Do editor

Mais sobre Rodrigo de Souza Leão: aqui

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