Sozinho eu vou

Por Ronaldo Correia de Brito
Terra Magazine

Meu encontro com o carnaval do Recife foi um susto. Dizem que o escritor Eduardo Galeano quando avistou o mar pela primeira vez, segurou a mão do pai e pediu: me ajude a ver! Eu não tinha ninguém por perto para me socorrer. Vi sozinho o caboclo de lança se aproximando de mim, os chocalhos badalando, a gola de vidrilhos brilhando na tarde da rua Manoel Borba, a lança de fitas agitadas. Minhas pernas tremeram, sentei na calçada. Busquei na memória uma lembrança parecida, mas não encontrei nada. Então inventei que a aparição misteriosa era um guerreiro, descendo os Andes. Nunca mais olhei um maracatu rural sem lembrar o Império Inca.

Eu já escutara no rádio Philips de nossa casa no Crato a Evocação Número 1, de Nelson Ferreira, com os nomes estranhos de Felinto, Pedro Salgado, Guilherme e Fenelon. Uma vizinha de rua, nascida e criada no bairro de Água Fria, marcava o passo de um jeito que nenhum cratense conseguia imitar. Está no sangue, falavam os mais velhos. Não estava no meu sangue dançar o frevo, apenas comover-me com a música alegre e triste que as rádios tocavam.

Quando encontrei o carnaval do Recife muitos anos depois, também o amei como se eu fosse de fato um bom pernambucano. Gostei dele em nuanças, instantâneos, retratos em preto e branco. Prefiro o carnaval minimalista, revelado e oculto como os sonhos, semelhante à música dos frevos que meu pai tentava sintonizar no rádio. As orquestras subiam e desciam nas notas sonoras, deixando o sentimento de que tudo era mais longe e inacessível do que se podia imaginar.

Sou um folião que espreita, vê e recorda. No Recife, na velha rua Nova, passa um bloco cantando. A mulher sai da loja com a filha pequena, abre um sorriso de alegria e o corpo responde aos chamados. Ela não se contém e dança, esquecida de qualquer gravidade ou pudor. Não resiste, sai arrastada, puxando a filha pela mão. Mais adiante pára, arruma o cabelo, recompõe a roupa, imagino que se desculpa. Depois apanha um ônibus para algum subúrbio distante.

E os dois trompetistas que fugiram da orquestra de frevo e olham a passagem do maracatu? São tipos viris, de peitos largos, com muito fôlego. O batuque mais parece o de um terreiro de umbanda. Os dois músicos, sem largarem os instrumentos de metal, fingem que incorporaram orixás. Dançam, rebolam, se agitam em tremores de atuados. Por que não recebem Xangô ou Ogum, divindades masculinas? Não sei, preferem imitar os gestos de uma Iansã ou Oxum. O batuque se afasta e eles voltam à formação da orquestra, esquecidos das mulheres que há bem pouco representavam. Só eu permaneço embriagado, querendo compreender o que vi. Chego perto, faço perguntas, tento estabelecer um vínculo. Eles me ignoram, pois não sabem o que vi. A magia se desfez e nunca mais será repetida.

Os caboclinhos relaxam depois de uma apresentação. Aguardam o ônibus que irá levá-los de volta à cidade de Goiana, longe do Recife. Os cocares encostados numa parede, as preacas recolhidas e amarradas, saiotes e pulseiras pelos cantos. O gaiteiro não tendo nada o que fazer, puxa um baião. O tocador de caixa e o de maracá o acompanham. Dois rapazes largam as namoradas e se atracam. Dançam agarrados, acariciando os corpos com sensualidade. As pessoas riem, empurram os trelosos. Ligeira como começou, a brincadeira se desfaz. Dura o tempo de uma fotografia amorosa.

Entrevisto nas ruas e becos, recantos de praças e avenidas, o carnaval revela o Recife e sua gente. Aprecio os enquadramentos fechados, os pequenos planos, as melodias perdidas, os cheiros que entram pelo nariz sem pedir licença, o suor do passista que nos salpica. Gosto do carnaval que nasce espontâneo, por pura vontade de brincar, e do folião que se fantasia, invertendo a ordem do mundo. O carnaval aglomera, vira onda e furacão, mas também é solitário, vontade de um único brincante.

Inventaram números para medir o novo carnaval: dois milhões em Salvador, um milhão e meio no Recife, tantos milhões não sei onde. Interessa que as pessoas se aglutinem numa euforia compulsiva da qual não podem fugir. É uma lei. Poucos sentem coragem de ser apenas um, fora desses milhões. Os rebelados andam pelas ruas. Solitários, não cantam nem dançam o que ordenam. Gosto de surpreendê-los, assim por acaso, pois apenas eles me revelam o carnaval que sempre amei.

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