Spinoza, a coleção Presença e a literatura potiguar

Por Thiago Gonzaga *

Certa vez, o filósofo Baruch Spinoza, que foi um dos grandes racionalistas do século XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna, proferiu uma frase bastante reflexiva: “Tenho me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las”.  Relembrei essa ilustre citação após presenciar o lançamento da “Coleção Presença”, parceria da 8 Editora com a Caravela  Selo Cultural,  um trabalho editorial muito  relevante e significativo para a nossa cultura literária.

A literatura potiguar, que já está com quase duzentos anos, teve ao longo de sua história algumas compilações de livros extremamente importantes, e a “Coleção Presença” nos faz crer que, no futuro teremos bons registros, em livros, de trabalhos literários riquíssimos. Foram publicadas pela Coleção, biografias resumidas, de Câmara Cascudo, por Diógenes da Cunha Lima; Augusto Severo, por Alexis Peixoto, dentre outras, e ainda outras estão por vir. Trabalhos importantes como estes (não estou fazendo comparações de valor) nos remetem, por exemplo, à memorável Coleção Jorge Fernandes, publicada no inicio dos anos 60, estreando jovens talentos das nossas letras – Luís Carlos Guimarães, Myriam Coeli, Deífilo Gurgel, Dorian Gray Caldas – e outros, que, no embalo da coleção, também se lançaram e se destacaram em nossa literatura (Nei Leandro de Castro, Augusto Severo Neto). Outras coleções, editadas pela Casa Euclides da Cunha – “Ferreira Itajubá” e “Antônio de Souza” -, com publicações de obras importantes, surgiram no final dos anos 50. Ainda um momento marcante foi quando no início dos anos 2000, a A.S. Editora publicou uma coleção com relançamentos de vários clássicos potiguares, como “O Rio da Noite Verde” de Eulício Farias de Lacerda, “Os de Macatuba” de Tarcísio Gurgel, etc.

Eis que graças à iniciativa de pessoas sensíveis à literatura, pessoas essas que parecem atender a um “chamado”, uma convocação dos deuses da literatura, aqui parafraseando o título do livro do Manoel Onofre Jr. – pessoas que têm “o chamado das letras” – José Correia Torres, Ivan Júnior e Yasmine Lemos – fez-se um trabalho excelente. Parece clichê, porém temos que elogiar, valorizar um trabalho desses, que, parte de um grupo que acredita sobretudo no livro, na importância da cultura literária e torna a literatura ativa, algo real, um objeto vivo, provando  mais uma vez , o que já sabemos: que, para a cultura acontecer no Rio Grande do Norte, não devemos esperar pelos órgãos públicos. Veja-se a situação, lamentável, da Fundação José Augusto, e sem prazo para se resolver.

Mas, onde entra a frase de Spinoza nessa história?  É que, na verdade, eu gostaria de entender as ações humanas, por exemplo, ao ver, no lançamento da  “Coleção Presença” a falta de um público, de leitores, que não seja o mesmo público que está sempre nos mesmos eventos literários. O que eu fico indagando é: onde é que estão as centenas de professores desta cidade? Os professores de português, de literatura, das redes pública e privada? E os alunos? Sobretudo os que estão cursando Faculdade, os estudantes dos cursos de História, Pedagogia, os alunos dos IFRNs, dos vários cursos de Letras? Das inúmeras faculdades particulares de Natal, tantas, aliás, que até parodiamos aquela famosa quadrinha: Rio Grande do Norte/capital Natal/ em cada canto um poeta/em cada esquina uma faculdade particular.

Eu sempre tenho observado os mesmos rostos em praticamente todos os lançamentos literários a que vou, as mesmas pessoas, ou seja, a  própria comunidade literária, consumindo seus próprios livros, num círculo que parece não ter fim, em uma capital que já chega à marca de  quase um milhão de habitantes (se somarmos com a grande Natal, já passa de um milhão) com milhares de estudantes. Não consigo compreender porque esses mesmos alunos e também, os professores, salvo raras exceções, não leem, não prestigiam o escritor potiguar, não frequentam nem participam de eventos literários. Aí, você, caro leitor, deve estar querendo me dizer, o livro é caro. Eu discordo. Dia desses, numa nova livraria, num shopping de Natal, centenas de adolescentes brigavam para tirar uma fotografia e receber um autógrafo de uma autora de São Paulo; outro dia, cerca de trezentos jovens altercavam na fila diante de um padre que autografou mais de mil e quinhentos livros, em outro shopping. Uma “ex-modelo”, que aos 27 anos, escreveu a própria “biografia” (biografia, com apenas 27 anos?) causou o maior furor, mês passado na mesma livraria; as pessoas compravam três ou quatro exemplares do livro de uma vez. Então, está provado que o problema não é dinheiro, até por que o preço do livro vendido aqui, em média, fica entre 20 e 30 reais, mais barato do que quatro latas de cerveja, que se toma numa conversa de meia hora com os amigos.

Outra coisa curiosa que me faz refletir sobre a frase de Spinoza: autores medíocres lançam livros, e têm um espaço incrível no jornal, na mídia em geral. Certa vez, determinado jornalista chamou um escritor estreante de poeta genial, mesmo sabendo ser ele autor de um livro todo irregular, simplesmente medíocre.  Quando eu leio algo desse tipo, me parte o coração. Se uma pessoa dessa, que acabou de estrear, e estrear mal, é chamada de poeta genial, que adjetivo eu vou usar para qualificar a poesia de um Fernando Pessoa ou  de um Drummond ? Lamento, profundamente, quando vejo autores medíocres ganharem mais espaço do que verdadeiros talentos nossos, ou quando vejo jovens que estão começando a carreira literária agora, e se acham deuses, já sendo homenageados, recebendo títulos disso e daquilo. Como ficam aqueles que batalham pelas nossas letras, há trinta, quarenta, anos, que ainda estão ai, na luta? O que fazer quando se usa o jornal para ao invés de fazer critica literária ou resenha, atacar um autor pelo motivo mais banal? Como pode o ego de um autor ser tão grande a ponto de não aceitar nenhum tipo de crítica sobre a sua obra? E aquele que quer se autopromover, só falta implorar para que seja resenhado o livro dele? Por que as pessoas se preocupam tanto com a promoção da obra própria e esquecem que o reconhecimento só tem valor quando acontece naturalmente?

É triste, mas vejo “escritores” que apenas querem aparecer, pessoas sem compromisso algum com a literatura. Poetas (poetas?) rimando amor com dor, Jesus com luz, juntando palavras sem nenhum critério estético, em versos cheios de lugares comuns, de clichês, com livros. Não fazem sequer uma autoavaliação, antes de publicar, perderam o pudor. Ao que percebo, antigamente, os escritores tinham mais cautela ao publicar, eram mais criteriosos; hoje em dia, o mercado local está abarrotado de publicações. Eu, que vivo de pesquisar e ler a literatura potiguar, não mais consigo acompanhar a produção editorial, que passa de 200 títulos por ano. Eu sei muito bem que Antonio Candido disse que o sistema literário é composto de textos bons e textos razoáveis, mas aqui no Rio Grande do Norte, as coisas estão saindo do limite. Todo estreante que já se acha escritor, quer estar na mídia,  muitas vezes, nem  conhece a nossa história literária, não sabe sequer quem foi Jorge Fernandes, que, com sua simplicidade e humildade, publicou apena um livro, em vida, mas este foi suficiente para ele entrar para a nossa história literária como um dos nossos maiores poetas.

Ao final da minha reflexão, percebo que, de fato, não temos tido novos leitores, e, sim, novos escritores, que publicam seus livros, bons ou ruins, passam a fazer parte da vida literária local, e começam a ir aos lançamentos da turma.

Continuarei seguindo à risca a sugestão de Spinoza, vou me esforçar, para não rir, nem odiar coisas desse tipo, mas tentar, ao menos entendê-las. E vou torcer para que apareçam mais  8 Editora e  Caravela Selo Cultural.

*É mestrando em literatura potiguar pela UFRN.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo