Spotlight: jornalismo no cinema e a preocupação moral

Diante dos pares no gênero cinematográfico, Spotlight se posiciona como narrativa de maior responsabilidade, em contraponto ao conjunto de filmes que encenam a relação entre mídia e poder com maniqueísmo.

Um exemplo é o clássico de Billy Wilder, que antes de se tornar cineasta foi jornalista, A Montanha dos Sete Abutres (1951).

Filme que encapsula toda a desesperança e artimanhas formadas em torno do sensacionalismo e falta de caráter intensificado pela vaidade profissional.

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Diretor Billy Wilder foi frequente no tema jornalismo; desde Crepúsculo dos Deuses (1950), até A Montanha dos Sete Abutres (1951), ele observou mecanismos insidiosos que pairam sobre a profissão

Há outros exemplares dirigidos por Wilder que retratam a mídia, desde Crepúsculo dos Deuses (1950), até A Primeira Página (1974), sempre observando a malícia e os mecanismos insidiosos que pairam sobre a profissão.

Já o contemporâneo O Abutre, dirigido em 2014 por Dan Gilroy, revela-se dos mais absurdos para pensar os desdobramentos da imprensa em tempo de facilidade técnica, que proporcionam a produção e distribuição de conteúdo feita por qualquer um, com subsequente frouxidão moral.

Do tom obscuro ao horror puro, o segmento jornalístico encenado nessa produção atual é desumano por vocação.

O jornalismo é um vício.

Dirigido por Tom McCarthy em 2015, vencedor do Oscar de melhor filme, Spotlight tem seu grande lance na abordagem da dimensão humana, repleta de pecados e fragilidades.

O devir histórico, social e moral retratado na narrativa, revela traumas e consequências ainda permanentes, pois são estabelecidas no mundo real, amparadas no respeito às vítimas e à profissão que recebeu a alcunha de o quarto poder.

Se observarmos o cuidado com que os profissionais são apresentados na história, em comparação com outros modelos de representação social dessa profissão no cinema, nota-se a preocupação de mostrar o jornalismo com sobriedade.

ZodíacoDavid Fincher
Zodíaco narra a história de um assassino em série conhecido na área de São Francisco durante os 60s e início dos 70s que insultava a polícia com cartas e cifras enviadas para jornais

Os jornalistas neste filme não necessariamente abdicam da vida pessoal para agir com dedicação, como foi retratado no ótimo Zodíaco (2007), de David Fincher.

Nem cínicos, oportunistas ou mercenários, como em muitos outros exemplos do gênero, tendo O quarto poder, de Costa-Gavras, como paradigma.

Na busca pela verdade factual, o processo de investigação jornalística narrado em Spotlight, traz à tona o escândalo moral envolvendo abusos sexuais contra crianças perpetrados no seio da igreja católica.

E o pior: a rede política de interesses que acobertava e omitia essa perversidade ao ponto de tornar essa violência institucionalizada.

O filme com subtítulo ‘Segredos Revelados’ se afirma um bastião de valores éticos, como coragem e justiça, e modelo de consciência política – embora reafirme um dos estereótipos do profissional de imprensa melhor concebido pelo cinema: o jornalista herói que enfrenta poderes instituídos.

O título Spotlight (holofote, em português) remete ao time de profissionais destemidos, tal como um grupo de super-heróis, do periódico The Boston Globe, vencedor do prêmio Pulitzer, em 2003, pelo conjunto de reportagens apresentado no filme.

Para melhor conhecer a história retratada, a sugestão é dar uma lida na série de matérias e perfis dos jornalistas, colocando as palavras-chaves no Google: Boston Globe e Spotlight.

Com a premiação de maior visibilidade do cinema neste ano, Spotlight redimensiona aspectos relevantes dessa profissão: investigação minuciosa, empenho e tempo dedicados na apuração das informações.

SpotlightFatores que parecem cada vez mais obsoletos pela cultura do clicar, curtir e compartilhar.

Para compreensão das agruras profissionais deste período de mudanças culturais e econômicas, de crise institucional sobre quem trabalha com práticas e suportes midiáticos do século passado, é importante observar outros títulos como Intrigas de Estado, com sua homenagem ao modelo tradicional do jornalismo investigativo, das grandes reportagens.

Tão relevante quanto o filme Intrigas de Estado é o material extra disponível nas versões brasileiras em DVD e Bluray, pois mostra a expressão de admiração declarada do diretor Kevin MacDonald à uma das maiores instituições sociais que teve seu auge no século passado.

Vivemos uma encruzilhada cultural imposta pela dinâmica da atenção fugaz, e de arquivos audiovisuais que proliferam e desaparecem nas redes sociais, determinada pela rapidez na adesão das informações e abandono na mesma medida pelo público.

Atualmente, fala-se que qualquer escrita com mais de 140 caracteres é “textão”.

Como se reconfigura, portanto, essa prática jornalística que zela pela responsabilidade na produção de sentidos e preocupação com a sociedade?

As narrativas do cinema, em seu potencial de se tornar maior que a vida, reforça o imaginário sobre o papel do jornalista com a representação social desse ofício de tradição humanista.

Numa atitude deliberadamente disposta sobre as dificuldades da prática, jornalistas retratados em Spotlight: Segredos Revelados recebem um de seus melhores representantes no gênero cinematográfico consagrado como newspaper movies – os filmes de jornalismo.

Professor de comunicação social. Tenho maior interesse em cinema, cinefilia, crítica cultural, literatura e séries de tevê. Meus estudos são relacionados às convergências midiáticas, publicidade, artes e design. [ Ver todos os artigos ]

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