Star Wars já é gay-friendly?

Desde que assisti “Star Wars: A New Hope” pela primeira vez, em 1980, um atraso considerável, mas compreensível para um brasileiro da classe média a viver sob uma ditadura militar, num velho televisor philco que mal exibia as cores, percebi que havia ali algo memorável. Um romance bem contado, acerca de uma família com poderes acima do normal, com heróis naif e um vilão admirável. Ao assistir “The Force Awakens” percebi um pormenor talvez relevante desta transição do universo Star Wars do seu criador George Lucas para a Disney.

Quando o Finn (John Boyega) tenta auxiliar a Rey (Daisy Ridley) a reparar uma fuga de gás tóxico dentro da lendária nave Millenium Falcon, ele questiona por qual motivo ela deseja regressar ao planeta Jakku, “Tens família? Tens namorado? É bonito?”. Reconheço que, devido a uma falha de tradução, e porque assisti ao filme sem legendas (ok, my english sucks!), na medida em que “Cute boyfriend?” soou-me como “Are you a boyfriend?”, para mim, esta sequência foi durante algumas semanas o motivo de questionamentos acerca de uma hipótese interessante: uma personagem admitir que alguém poderia ter preferência pelo mesmo sexo é algo completamente novo em Star Wars.

Embora se trate de um equívoco, a hipótese suscitou-me uma discussão interessante. Terá o Finn questionado se a Rey seria “namorado” de alguém? Ainda que, afinal não tenha sido este o sentido que o Finn tenha se dirigido à Rey, não vejo mal, no entanto, em questionar: já há hipótese de haver homosexuais em Star Wars ? Não há outra orientação sexual na galáxia onde eles vivem?

É compreensível que em fins dos anos 70, um novo projeto cinematográfico em busca de financiamento não iria arriscar o desprezo dos investidores com protagonistas “polémicos”, como negros, hispánicos ou mulheres. A participação das minorias sempre esteve presente, mas de forma apenas secundária e assessória, como na maioria das produções do cinema norte-americano, e em particular nas duas trilogias sob o comando de George Lucas. Nunca se admitiu questões de orientação sexual.

O amor de Han Solo por Leia Organa é comovente. E embora a princesa seja uma atrevida e destemida personagem, Leia continua a ser um exemplo do sonho americano. Mesmo após a maternidade e a separação do companheiro Solo (ainda não totalmente explicada), ela é uma respeitosa representante da visão conservadora do ideal de mulher ocidental.

Já toda a gente deve ter reparado que a sociedade norte-americana tornou-se mais inclusiva, por motivos económicos, é verdade. Séries de televisão como “The L Word” ou “Will and Grace”, onde personagens da comunidade LGBT são as estrelas, apenas revela que os produtores sabem que este segmento do público é adulto, bem formado, bem informado, bem empregado e sobretudo exigente consumidor. Os marketeers da Disney identificaram e exploram esta fatia do bolo já há anos.

Há muito que as “princesas Disney” deixaram de ser apenas frágeis jovens brancas e deixaram de estar à espera do príncipe encantado. Mérida (“Brave”) recusou todos os príncipes que lhe foram propostos até ao fim. E caso não tenha reparado, a rainha Elsa (“Frozen”) tinha um “poder” considerado execrável, que até mesmo os pais preferiram guardar no “armário” (bem, tecnicamente foi em seu próprio quarto), e só foi finalmente libertado quando tornou-se adulta e foi obrigada a abandonar o lar. Não foi um príncipe com uma espada que a salvou, e sim o amor incondicional da sua irmã Anna. Na minha opinião, o enredo trata da aceitação da família de um membro homossexual.

Lucas nunca teve a coragem de ser inclusivo e inserir personagens com outra orientação sexual que não a hetero. Mas já se observa uma ligeira possibilidade de haver homossexuais na galáxia longe, muito longe. O Finn não se importa que a brava e independente Ray seja “namorado” de alguém. Tem as hormonas aos saltos, e a Ray não lhe liga nenhuma. O nome Ray pode até ser considerado ambíguo. Nome de menino, nome de menina: para o Finn não há problema.

Já foi dito largamente que o feminismo, por motivos de marketing, esteve em alta nas produções de Hollywood em 2015. E está presente em Star Wars. Creio que de uma forma algo forçada, mas a Rey insiste sempre em não depender dos homens para qualquer tipo de combate contra o lado negro. Mas questões de orientação sexual ainda parecem ser um tabu naquela parte do universo.

Bem, ao menos na tasca da Maz (Lupita Nyong’o), onde os vapores circulavam livremente, dentre um público bastante heterogéneo que curte se embriagar a ouvir ragga, era possível que ninguém se importasse que dois seres do mesmo sexo estejam de mãos dadas.

Marcelo de Andrade é jornalista, editor do jornal online português Diário 560 e um “star wars nerd”.

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