Stefan Zweig e o xadrez da existência nos setenta anos do livro “Brasil País do Futuro”

“A história como poetisa”

O escritor austríaco Stefan Zweig (Viena, 28 de Novembro de 1881 — Petrópolis, 23 de Fevereiro de 1942) viveu no Brasil onde cometeu suicídio em 1942. Sobre o nosso país ele ficou encantado com a diversidade e convivência de raças e povos das mais diferentes regiões do planeta. De suas boas impressões do Brasil escreveu “Brasil Pais do Futuro”.

Nesse livro Zweig escreve desde o descobrimento (acidental ? ) do Brasil, capitanias hereditárias, ação jesuítica, invasões holandesa e francesa , a restauração e a inconfidência mineira, etc Mesmo vivendo no Brasil no tempo da ditadura Vargas do Estado Novo ( 1937- 1945 ) e do famigerado DIP, quando Olga Benário foi deportada e morta nos campos de concentração , o escritor tinha fé no futuro do Brasil devido ao “seu presente digno e seu passado sem guerras e sem necessidade de racializar a política e as relações humanas “ ( Ronaldo Vainflas FSP 18/10/2009 ).

Em 1941, um ano antes de sua morte, escreve o escritor Afrânio Peixoto: … Stefan Zweig é poeta: é hoje o maior poeta do mundo, poeta com ou sem versos, mas com poesia, sentida, vivida, escrita pelo mais suave prosador do mundo.

Judeu, humanista, pacifista e crítico do nazi-fascismo, foi um dos escritores mais populares em sua época. Em 1933, sua novela “Ardor Secreto” foi adaptada para o cinema, incitando a ira dos nazistas contra o escritor e seu contrato com a editora foi suspenso. Em 1933, Zweig desembarca em Londres começando uma vida nova. Inicialmente radicado na Inglaterra, que lhe concedeu cidadania, Zweig se casou com sua secretária, Charlotte Elizabeth Altmann (Lotte), deixando sua esposa Friderike. Em Londres, ele termina de escrever o perfil do pensador Erasmo de Rotterdan.

O jornalista Alberto Dines escreveu um belo livro sobre a sua obra refúgio e estadia no Brasil em Morte no Paraíso: A Tragédia de Stefan Zweig. Um livro ufanista que mostra um homem atormentado e contraditório. Que não se sentia com direito ao paraíso quando o mundo vivia em chamas. No Brasil ele foi a Minas, viu o belo entardecer de Belo Horizonte, encantou-se com Ouro Preto. Com seu amigo, ex-cicerone da primeira viagem foi conhecer no Rio, o Mangue, zona do baixo meretrício, perto do bairro judeu na Praça Onze. Para espanto do guia, ficou a conversar longamente com as prostitutas, francesas, austríacas e polonesas, em algum idioma comum. Não abdicava de conhecer as nuances da lama feminina, sobretudo nos porões da sociedade. Estendeu-se sobre o Mangue em Pais do Futuro, causando mal–estar. Os generais não gostaram, lembra dona Arminda Villa – Lobos… (Morte no Paraíso pp. 239).
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Em 2010, o cineasta Syvio Back filmou “Lost Zweig”, baseado no livro de Dines; Zweig refugiou- se no Brasil com sua companheira Lotte. No filme do Back aparece o escritor jogando xadrez, uma de suas grandes paixões, e sobre esse jogo que você joga conta você mesmo ele escreveu um livro publicado posteriormente á sua trágica morte.

Em Lost Zweig aparecem imagens do cineasta Orson Wells e o envolvimento do escritor com uma bela morena que trabalhava nos correios. Zweig chega no Brasil durante o carnaval e fica encantado com a alegria real dos brasileiros, apesar das dificuldades econômicas e do governo ditatorial de Vargas, não tão cruel como os regimes políticos europeus do chamado primeiro mundo.

Stefan Zweig foi um grande escritor erudito e o seu primeiro livro, uma coletânea de poemas, foi escrito em 1902 Silberne Saiten (Cordas de Prata). Escreveu as peças “A metamorfose da comédia” e “A mansão à beira mar”. Seus livros eram editados em grandes tiragens e traduzidos nos principais idiomas cultos. No Brasil, a Editora Delta, lançou sua Obra Completa em dez grossos volumes em capa dura. Leio-os com grande prazer e proveito. Stefan foi um grande biógrafo e são muito ricos os perfis que ele traça de Maria Antonieta, Fouché, Rilke, Gorki, Nietzsche, Tolstoi, Stendhal e outros.

Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1915, casou-se com a escritora Friderike von Winsternitz e comprou uma casa em Salzburgo, aonde viveu por 15 anos. Foi uma das fases mais ricas de sua produção literária. Ele escreveu sobre os construtores do mundo (Dostoievski, Dickens e Balzac). Sua tese de doutora foi sobre Taine e seus pais artísticos são escritores Emílio Verhaeren, Freud e o autor de Jean Christophe.

Na década dos fabulosos anos 20, escreve a novela Amok (1922), um delírio sobre o oriente, Angústia” (1925) e “Confusão de Sentimentos” (1927), baseados na psicanálise.

Em 1940, no Brasil da polícia de Felinto Muller e do Estado Novo, Stefan vista o Brasil pela segunda vez com a sua companheira Lotte. Eles ficam hospedados no hotel Paisandu (Flamengo) e depois vão morar em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, onde o clima lhe atormentava menos. Nesse período ele finalizou sua autobiografia, “O mundo que eu vi”; escreveu a novela “O jogador de xadrez”, e deu início à obra “O Mundo de ontem”, um trabalho autobiográfico com uma descrição da Europa antes de 1914. “Xeque-mate é mera combinação do lance de abertura. Por isso o jogo dos reis também se joga jogo da morte.”
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No livro O Mundo que eu Vi, ele escreve sobre o eterno mal-estar do artista que era bem o seu auto-retrato: “ em todo artista existe sempre um dissídio intimo: se a vida na~p o deixa sossegado, deseja sossego; mas se lhe é dado o sossego, pretende voltar ao desassossego.”

Deprimido com o crescimento da intolerância e do autoritarismo na Europa em 1942, e sem esperanças no futuro da humanidade, Zweig escreveu uma carta de despedida e suicidou-se com a mulher “Lotte”, com uma dose fatal de barbitúricos. Um ano após essa data, o Brasil entra na II guerra mundial para combater o Nazismo.

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