Steve Jobs, o gênio do fetichismo da mercadoria

PorAlyson Freire
NA CARTA POTIGUAR

Vigora, no interior do capitalismo, algo de profundamente mágico. Karl Marx no século XIX, por exemplo, já o percebera no poder sobrenatural que a “coleção de mercadorias” exercia sobre os compradores e os produtores. A estes últimos, as mercadorias refletiam as características sociais do seu próprio trabalho como se fossem características objetivas das próprias coisas. O feitiço da mercadoria, dizia Marx, consistia precisamente nessa sua capacidade de apagar todo o trabalho social, as relações sociais entre as pessoas envolvidas no processo de produção fazendo como que, num abracadabra, as mercadorias tivessem chegado ao mercado por si mesmas.

Pense-se ainda no animismo do mercado contemporâneo destacado pelos analistas, que, personificado como dotado de humores próprios, assemelha-se aos antigos deuses gregos e seus jogos fatais com os destinos humanos por meio de suas conjurações sob a forma de juros e taxas, suas movimentações fantasmagóricas de dinheiro fictício e sem lastro real. Seus especialistas, consultores financeiros e economistas, como que diante de uma bola de cristal, visualizam equações místicas como uma espécie secular de oráculos e mágicos de nosso tempo cujo ofício consiste nessa arte obscura de desvendar as astúcias do Deus-Mercado equipados de seus rituais técnicos de conhecimento, para, assim, quem sabe, apaziguar, com sacrifícios humanos mediante a prescrição de políticas de austeridade, os humores inconstantes e os poderes mágicos do Deus-Mercado e seus investidores semideuses, vingativos e traiçoeiros.

Não é de se espantar, portanto, que o tratamento midiático dado à morte de Steve Jobs, acompanhado de tanta comoção e veneração, lembre uma espécie de culto e luto de fiéis e seguidores que se viram órfãos de seu líder espiritual. Ora, na medida em que destruiu deuses e cosmologias, o capitalismo precisou inventar heróis, ícones, divindades e gênios próprios que se tornem eles mesmos, ainda que por tempo determinado, objeto de adoração. Mas que, por tabela, ao inspirar veneração sob a forma de consumo e convencer do valor do engajamento na atividade capitalista – quantos jovens promissores não ambicionam ser o próximo Steve Jobs? – torne-se, no final das contas, o próprio sistema capitalista aquilo que é fervorosamente exaltado e venerado. Esse elemento irracional de culto é essencial para sua reprodução e expansão.

Não à toa, Walter Benjamin, importante filósofo social e crítico alemão, afirmava que era “preciso ver no capitalismo uma religião”, e uma “religião profundamente cultual”. Suas práticas cultuais são os investimentos do capital, as especulações, as operações financeiras, as manobras dos investidores nas bolsas, a compra e venda de mercadorias, o consumo, a loucura pelo dinheiro, tudo isso que evoca um caráter de adoração permanente e que atrai para si as vidas dos homens. Seus santos são as efígies presentes nas notas de dinheiro dos diversos países, às quais, como ídolos, todos devotam seus esforços e energias como oferendas para possuí-las, passá-las adiante e retomá-las.

Em certo sentido, toda aura que se criou em torno de Steve Jobs, e agora, após a sua morte, o seu coroamento como semideus da tecnologia e da criatividade, relaciona-se com este caráter religioso do capitalismo. No fundo, à despeito da criatividade e da habilidade ímpar em combinar, de maneira didática, eficiente e encantadora, tecnologia e arte (design), Steve Jobs foi de fato um grande empresário capitalista. Sua trajetória, o começo de um negócio numa garagem até o topo em uma das empresas mais valiosa do mundo, confunde-se com a saga mítica de outros grandes empresários capitalistas. Contada e recontada exaustivamente, esta saga do empreendedor instila nos corações e mentes as crenças acerca do mérito e da igualdade de oportunidades na conquista do sucesso tão vitais para condução, justificação e legitimação do comprometimento dos indivíduos com o sistema.

Steve Jobs foi verdadeiramente um gênio. Mas não tanto no sentido intelectual quanto foi no sentido do fetichismo da mercadoria. Ele foi um gênio da mercadoria, um profeta de sua magia que, com sua sensibilidade e criatividade, transformou radicalmente o cotidiano de nossas sociedades. Com sua equipe, soube como poucos jogar com a lógica do status e da distinção social, da autenticidade e originalidade em relação a produção e comercialização de seus produtos. A magia e encanto de seus produtos foram capazes, inclusive, de fazer com que seus consumidores-fiéis fechem os olhos para as várias denúncias de exploração e violações contra suas fábricas na China – crianças “contratadas” e jornadas abusivas de trabalho com 98h extras por mês e com apenas um dia livre a cada duas semanas, dezenas de suicídios no local de trabalho, conforme denúncia de ONG’s em reportagem publicada no jornal inglês The Guardian -, e continuem o culto. Da mesma forma, pouco importa se Steve Jobs foi, desde o início, um inimigo do software livre e do compartilhamento livre e criativo de tecnologias e conhecimentos.

O que importa é o mito por trás das práticas e convicções do homem. É sobre o mito e a personalidade, a crença em seus dotes extraordinários em criar computadores pessoais e gadgets com designers inovadores que repousa o culto. Para os fiéis, essa é única “realidade” que interessa, pois, sob o efeito do fetichismo da mercadoria, tal crença, a personalidade erigida em ídolo extraordinário, ganha corpo e vida nas mãos destes quando os seus dedos começam a passear, intuitivamente, pelos “mundos” desenhados pela genialidade de Jobs em suas criações e máquinas mágicas; iPad, iPhone e o iPod, dispostos em suas milhares de lojas-templos em cujos santuários, diariamente, vamos adorar.

Cada época produz e inventa o gênio que lhe é próprio. Dito de outro modo, o gênio é a encarnação do espírito de uma época, onde todos os seus filhos podem reconhecer naquele aquilo o que seu tempo supostamente tem de melhor, de mais alto e mais próprio. Nesse sentido, Steve Jobs é o gênio da moderna civilização dos meios de comunicação de nossos dias, na qual nada realmente pode se considerado vivo senão se movimenta, circula, vibra e reluz. De fato, num mundo comercial e informacional como o nosso, nada parece marchar nem desperta desejos sem ser tecnologicamente mediado e executado, sem passar pelo crivo de tecnologias de armazenamento, comunicação e circulação de informações, que, hoje, em todos os lugares, são, num nível individual, o ornamento universal de nosso narcisismo, bem-estar, felicidade e sentimento de distinção e integração ao mundo.

Com efeito, dada a atual configuração do capitalismo e de nossa sociedade informacional, um Shakespeare, um Mozart ou um Einstein não fariam lá tanto sentido como gênios de uma época como a nossa. Inspirariam admiração e respeito, mas não arrastariam atrás de si um culto, não seriam ídolos capaz de suscitar a devoção de milhões. O gênio, no capitalismo contemporâneo, não pode se prender a este ou aquele domínio de prestígio da cultura, a arte ou a ciência, quando se trata de aferir sua genialidade. No capitalismo flexível, gênio só pode ser aquele que, por seu talento singular, é capaz de interligar produtiva e intimamente arte e ciência com o capital e com a produção de vultosos lucros para uma dezena de investidores. Sua obra não é um poema, uma partitura ou uma equação brilhantes, sua obra é uma empresa bilionária construída no menor espaço de tempo possível.

Nesse sentido, Steve Jobs foi um gênio do tamanho de nossa época. Ele foi sendo progressivamente divinizado e mitificado pelas tecnologias de sacralização do capital, o marketing e a publicidade, segundo uma manipulação combinada de imagens de ciência e arte, paixões consumistas e fetichismo tecnológico até se erigir um culto a sua personalidade, alçada, agora, ao status de ídolo. Com objetivo, óbvio, de vender mais e ganhar mais e mais dinheiro, atrair mais e mais investidores e jovens promissores ávidos por enriquecimento rápido e notoriedade midiática a sua empresa.

A ideia de fetichismo, quer em Marx, quer em Freud, diz respeito a operação de uma supressão ou apagamento; das relações (humanas) de trabalho no primeiro, da diferença sexual no segundo. Se, de uma forma geral, o gênio é aquele que fala a todas as épocas como se se dirigisse a cada uma delas em particular, no caso de Steve Jobs, penso, que é essa dimensão universal do gênio que está sendo suprimida.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Claudio 14 de outubro de 2011 19:13

    Excelentes reflexões. Um dos melhores que li também. Quando se trata de mitificar o capitalismo, o velho Marx é sempre boa pedida para pôr as coisas no lugar.

  2. Viviane 12 de outubro de 2011 0:51

    É bom ler textos assim para colocar alguns freios em toda a verborragia pseudogenial com que estão ornando o “empresário capitalista” Steve Jobs. Parabéns!

  3. Rilke Vieira 11 de outubro de 2011 17:45

    essa frase resume tudo: “nesse sentido, steve Jobs foi um gênio do tamanho de nossa época”, parabéns freire pelo texto brilhante, o melhor que li até agora sobre a genialidade de mister jobs.

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