A sua amizade basta: amigos distintos na tela do cinema

Em seu livro Sobre a amizade, o brilhante orador e político romano do séc. I a.C., Cícero, escreveu que retirar a amizade dos homens equivaleria a retirar o sol do mundo. De fato, pois uma existência sem amigos chega a ser o castigo mais cruel que alguém pode receber.

Já o filósofo grego Aristóteles, discípulo de Platão e personalidade marcante durante boa parte do século IV a.C., fala, em Ética a Nicômaco, que a amizade é uma virtude e que só existe plenamente entre os homens bons e semelhantes na virtude, porque há uma troca equilibrada entre o dar e o receber, além de um desejar o bem do outro na mesma medida; assim, para Aristóteles, essa era a única forma de amizade em que a calúnia não tinha vez – diferente das amizades forjadas por utilidade e por prazer.

No cinema é bastante comum histórias sobre o valor da amizade, desde farras entre amigos até a relação franciscana entre homens e animais. Porém, a mim, o mais intrigante é a relação de amizade e companheirismo que se estabelece entre pessoas de personalidades completamente distintas, quer sejam pré-adolescentes ou adultos, mostrada em filmes como: Conta Comigo (Stand by me – 1986), No decurso do tempo (Kings of the Road – 1976) e Três Enterros (The Three Burials of Melquiades Estrada – 2005).

Conta Comigo é a adaptação do conto O corpo, de Stephen King, sobre quatro amigos de doze anos (o intelectual, o ingênuo, o valentão e o introspectivo) que moram numa pequena e pacata cidade norte-americana e resolvem embarcar juntos para achar o corpo de um garoto, que provavelmente está dentro de uma mata fechada. Nessa aventura, eles vão passar por inúmeras situações que acabam por fortalecer a amizade entre eles, bem como ajudam cada um a se conhecer melhor e superar seus traumas internos. Esse filme de Rob Reiner é um pequeno clássico e a frase que o personagem de Richard Dreyfuss, o Gordie já adulto, profere, sintetiza todo o espírito das amizades sinceras e desinteressadas que se tem quando se é criança ou pré-adolescente e que terminam por influenciar nossas escolhas e moldar a nossa personalidade: “I never had any friends later on like the ones I had when I was twelve. Jesus, does anybody?”(Eu nunca mais tive amigos como aqueles de quando eu tinha doze anos. Jesus, mas afinal, quem tem?).

No decurso do tempo, filme do diretor alemão Win Wenders, conta a história de Bruno, um balzaquiano que viaja em seu caminhão por várias cidades alemães consertando projetores de cinema. Bruno conhece Robert ao presenciar a sua tentativa frustrada de suicídio, e descobre que este está triste porque recém se separou da esposa. A partir desse encontro inusitado, os dois seguem viagem juntos. O filme mostra como uma amizade forte nasce do nada, entre um solitário convicto e um homem que não consegue ficar sozinho (mesmo após ter se separado de sua esposa, Robert não pode ver um telefone que já está ligando pra ela). Nas curvas da estrada, ao longo de quase três horas, os personagens e os espectadores vão se descobrindo uns aos outros, porque Wenders explora todos os enlaces e desgastes da relação, tanto que ao término do filme, espectadores e personagens sentem-se plenos e tomam seus rumos com convicção e sem qualquer tipo de ressentimento.

Três enterros foi o primeiro filme para cinema dirigido pelo ator Tommy Lee Jones, que também interpreta o personagem Pete Perkins, capataz de um rancho onde vai trabalhar o quieto Melquiades Estrada. Entre Pete e Melquiades estabelece-se uma amizade de irmãos, e quando Melquiades é assassinado, Pete faz das tripas coração para cumprir a promessa que lhe havia feito em vida: levar o corpo de Melquiades para a sua família, no México. E é nessa jornada que Pete irá descobrir quem era o seu amigo e assim por à prova a sua lealdade, seguindo a máxima do filósofo francês do século XVII, La Rochefoucauld, para quem era “mais vergonhoso duvidar de um amigo do que ser enganado por ele”.

Nesses três filmes citados, as relações de amizade que se estabelecem estão próximas do conceito do filósofo grego Heráclito, que viveu como misantropo durante uma parte de sua vida, entre os séculos VI e V a.C., e que entendia o mundo como a “harmonia dos contrários”, ou seja, da relação e interação (conflito) entre os opostos se tem o princípio da própria vida, da realidade. Segundo Heráclito, “o que se opõe é que é amigo”.

Engraçado que revendo minhas próprias amizades, tendo a concordar mais com Heráclito do que com Aristóteles e outros filósofos que acreditavam apenas na amizade entre pessoas que tivessem gostos parecidos, objetivos similares; enfim, que rissem da mesma piada. Tenho amigos com opiniões, com hábitos e modo de viver e ser tão distintos dos que professo, e mesmo assim gosto deles e preciso tê-los por perto. Claro que é bem mais fácil o diálogo com os amigos que leem os mesmos livros, veem os mesmos filmes e escutam as mesmas músicas, mas se não fossem o riso caloroso de alguns quando minhas lágrimas caíam, o deboche de outros ao meu posicionamento um tanto quanto radical à humanidade e os aplausos de alguém quando eu pensava que minhas ideias estavam mortas, eu não teria aprendido muito do que sei hoje.

Às vezes se enxergar no amigo como num espelho não é tão inspirador. Há troca equilibrada entre quem gosta de vinho e quem gosta de água. O covarde pode aprender a ser forte, o arrogante entende que há momentos em que precisa ser humilde, e o racional ao permitir-se emocionar-se tira um peso dos ombros.

O bom faz bem ao mau, e o mal faz o bem estar em perpétua vigilância.

As amizades se bastam por si só, mas na prudência é que reside todo o segredo de uma amizade duradoura.

Roteirista de histórias em quadrinhos, de cinema e games, além de organizar e prestar curadoria para eventos de cultura pop na cidade do Natal. [ Ver todos os artigos ]

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