Sua Incelença Ricardo III

A obra de Shakespeare tem vilões para todos os gostos. Difícil é apontar qual o maior deles. Ricardo III, certamente, se destaca em qualquer lista que se fizer. A sordidez e carnificina que ele comanda são impressionantes. Não tenho certeza, mas acho que nenhum outro personagem shakespeareano é responsável pelo assassinato de crianças. Ricardo III, você lembra, manda matar, entre outros, os dois sobrinhos para reinar absoluto.

Ontem à noite fui assistir “Sua Incelença Ricardo III”, encenada pelo premiado Clowns de Shakespeare, com direção de Gabriel Vilela (ao lado do barracão do grupo, no final da Av. Amintas Barros, em Nova Descoberta). Permanece em cartaz hoje e amanhã (27 e 28) às 20 horas. Não perca, é um espetáculo ousado e que dará muito o que falar no país – em breve, o grupo inicia tournée nacional. Chegue cedo porque pode não ter lugar sentado, ontem estava superlotado. A encenação está ocorrendo num grande terreno, embaixo de três vistosas árvores, o que cria uma atmosfera meio mágica, de circo popular com teatro de rua.

A alteração no nome da peça e a foto que abre esse texto, com os atores rindo, dão pistas de que esse é um espetáculo diferente. É provável que deixe os shakespeareanos ortodoxos de cabelo em pé. Como não tinha lido nada a respeito da encenação levei um choque tremendo. Não são poucas as liberdades tomadas com relação à montagem. Da trilha sonora, que junta rock com o forró, a presença em cena do cangaceiro Jararaca. Os elementos cênicos, preponderantemente, remetem à realidade nordestina.

O que me causou mais espanto foi a diluição da tragicidade da peça original. Não há do que rir nesse texto de Shakespeare. No entanto, a platéia se diverte bastante em vários momentos. Principalmente, com a rainha Elizabeth, que encarna uma perua desbocada e que maltrata a língua portuguesa sem pena.

A peça surpreende desde o início, com as pinturas nos rostos e a dança inicial, ambas sinistras. Curioso é que esse impacto vai sendo suavizado no decorrer da montagem. As ignomínias e o banho de sangue provocados por Ricardo III, em alguns momentos arrancam… risos. E não lágrimas como seria de se esperar. O espírito alegre de um certo teatro de rua vigora na peça.

Escrevendo agora, lembrei-me dos filmes de Tarantino, principalmente, “Bastardos Inglórios”, onde o terror e a violência aparecem de uma maneira que nos incomodam de uma forma diferente da convencional como é geralmente mostrada na arte.

Visualmente, a montagem é muito bonita, figurinos de nuances fortes, que lembram as cores dos bois-de-reis. Gostei de todos os atores.

Embora não tenha repertório para uma crítica abalizada, portanto não se deixe levar por meus comentários, vá lá, assista e tire suas próprias conclusões, achei tudo muito massa e recomendo com entusiasmo.

Na saída, encontrei com o poeta Moacy Cirne, e trocamos algumas impressões. Seria ótimo se ele enviasse um comentário sobre o que achou da encenação. (TC)

No link abaixo tem um texto de Dib Carneiro Neto, publicado no Estadão, além de uma galeria de fotos do espetáculo.

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