O sueño de Eduardo Galeano

Por Wilson Alves-Bezerra
O ESTADO DE S. PAULO

“A divisão internacional do trabalho consiste em que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamados de América Latina, foi precoce: especializou-­se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se lançaram ao mar e lhe cravaram os dentes na garganta”. Com tom apaixonado, linguagem direta e imagética, e trazendo à discussão teóricos e pensadores latino-­americanos como Caio Prado Jr., Celso Furtado e Fernando Ortiz, era lançado, há 44 anos, As veias abertas da América Latina, o livro mais influente do uruguaio Eduardo Galeano, quando o escritor, hoje falecido, era um jovem de 31 anos.

O livro é uma síntese apaixonada da história latino-­americana, que remonta à chegada de Cristóvão Colombo ao Caribe, em 1492, e que pretendia dialogar com o presente de ditaduras militares do continente. A urgência e o fôlego da escrita de Galeano impressionam, por seu hábil manejo textual, ao articular as falas dos primeiros cronistas espanhóis do século dezesseis a pronunciamentos de Richard Nixon e Robert McNamara, pontuados por observações de Marx e Sartre. Foi um livro concebido, nas palavras do autor, “para falar com as pessoas”, e falou: vendeu milhões de exemplares e tornou-­se responsável por sistematizar e difundir um discurso anti-­imperialista
continental e, mais ainda, para ajudar a forjar uma ideia de América Latina como ente coeso. Seu potencial rebelde foi compreendido logo nos primeiros anos e foi proibido em países como Chile, Uruguai e Argentina, já naqueles anos. Seu legado é mais pulsional que teórico, pois o que propõe é um modo de posicionar-­se diante da vida política e da história.

Seria possível dizer que ficou datado mas, quem revisar o debate político dos últimos anos, pode se surpreender: logo após a queda do muro de Berlim e o colapso da URSS, quando Francis Fukuyama declarava, em seu O fim da história e o último homem, que o capitalismo já tinha dado todas as respostas à humanidade e que o liberalismo olhará por nós, a historicização apaixonada de Galeano mantinha-­se firme trazendo ainda um não como resposta. Quando, na década seguinte, dizia­se que a incorporação do Brasil à Área de Livre Comércio das Américas era inevitável, era possível ouvir reverberar Galeano entre os discursos de resistência. Certamente, mais do que dizer que ficou datado, constatata-­se que foi a marca de uma época, ao se tornar um dos pilares da esquerda latino-­americana a partir dos anos 70. Em 2009 ­ para que se possa dar um exemplo da longevidade do livro ­ um exemplar seu foi entregue como presente pelo então presidente venezuelano Hugo Chávez a seu colega Barack Obama ­ na 5ª Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago. Parece evidente que enquanto houver um discurso de esquerda na América Latina, aí estará o livro de Galeano.

As veias abertas da América Latina é ainda fundador em outro sentido: o livro prefigura a obra futuro do escritor. Seus outros livros, mesmo que abordando temas diversos, parecem trafegar por estas veias prematuramente abertas. A trilogia Memória do fogo 1982-­1986) tem pretensão semelhante: quer contar a história da América Latina, porém agora não mais a partir 1492, mas desde a origem do mundo. É quando o autor faz vir ao primeiro plano o que já estava em potencial, a prosa poética ao invés do ensaio, adotando uma forma que ele mesmo se recusa a definir: “O autor ignora a que gênero pertence esta obra: narrativa, ensaio, poesia épica, crônica, depoimento… Talvez pertença a todos e a nenhum.” São crônicas ou poemas em prosa, como os que Baudelaire praticou em seu Le spleen de Paris ­ adotando um ponto de vista que lhe permite falar da história, dos costumes, de acontecimentos históricos ou vividos,
sempre com estranhamento; com uma leveza de todo ausente no livro precursor. Com tal forma narrativa conceberá parte considerável de sua obra, como O livro dos abraços, Bocas do tempo e mesmo o seu também popular Futebol ao sol e à sombra (1995), coletânea de crônicas sobre o esporte que vinham sendo ampliadas a cada nova Copa do Mundo.
Galeano foi sobretudo jornalista, no sentido alto do termo: aquele que está atento a seu tempo, e que dialoga com o presente. Manteve­-se ao longo da vida um homem de esquerda, em contextos ­ sucessivamente ­ ditatorial, liberal e finalmente esquerdista. Acima de tudo: manteve-­se como um crítico dos governos, de Fidel Castro a Barack Obama. Escreveu livros inspiradores e cunhou frases de efeito; em uma rápida incursão no Twitter, em 20 de novembro de 2009, escreveu: “Nosso inimigo não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo. E nós o levamos conosco…”

No ano passado, na Bienal do livro de Brasília, declarou­-se cansado até para reler sua obra maior. Seu sonho se tornara sono. Sua ironia fina não foi compreendida por muitos: “Eu não seria capaz de reler esse livro; cairia dormindo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera”. Para quem passou o último meio século alerta, crítico e vigilante, talvez seja compensador constatar: Eduardo Galeano já pode descansar.
(Wilson Alves­Bezerra é escritor e professor do departamento de Letras da UFSCar)

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