Suicídio em câmera lenta

Por André de Leones
ESTADO DE SÃO PAULO

Biografia do célebre autor norte-americano assinada por David Shields e Shane Salerno,’Salinger’ oferece uma visão profunda daquilo que um dos biógrafos chama, a certa altura, de “um coração em queda livre”. Famoso pela reclusão a que se entregou por mais de meio século, justamente quando alcançava a fama com a publicação de ’O Apanhador no Campo de Centeio’, Jerome David Salinger (1919-2010) teria encontrado primeiro na literatura e depois na religião vedanta, ou na compaginação dessas duas coisas, uma forma de tornar minimamente suportáveis os traumas sofridos durante a Segunda Guerra Mundial. A história de sua vida, refletida na ficção que produziu, ecoa uma guerra interminável e é, também, a narrativa de seu próprio e autoimposto desaparecimento.

Shields e Salerno montam o livro, em sua maior parte, como uma sucessão de depoimentos entrecortados por trechos de escritos do biografado (incluindo algumas preciosidades do começo da carreira) e de outros autores, além de fotos e cartas que se alternam dinamicamente. Com isso, tornam possível ao leitor vislumbrar o personagem em toda a sua complexidade e com todas as contradições que lhe eram inerentes, até pelas reações paradoxais que provocava, e ainda provoca, em amigos, leitores, editores, jornalistas, vizinhos, filhos e ex-companheiras.

Embora seja impossível evitar certas indiscrições, o foco quase sempre permanece nos modos como o escritor nasceu e foi se desenvolvendo, sobretudo à sombra do que testemunhou em alguns dos piores eventos da guerra: além de desembarcar na Normandia em pleno Dia D, ele esteve presente nas batalhas de Hürtgen (novembro-dezembro de 1944) e das Ardenas (dezembro de 1944-janeiro de 1945), e foi literalmente um dos primeiros a chegar ao campo de extermínio Kaufering IV, na primavera de 1945.

Tamanho acúmulo de horrores seria demais para Salinger, nascido e criado no seio de uma família rica da Park Avenue, em Nova York, e é quase um consenso entre os entrevistados que tanto o que de melhor ele escreveu quanto as suas não poucas esquisitices seriam fruto de um transtorno de estresse pós-traumático que não fora devidamente tratado. A guerra, assim, alimenta explícita ou implicitamente obras-primas incontestáveis, desde o romance ’Apanhador’ (descrito por Salerno como “a guerra inacabável traduzida em palavras”) até contos como ’Um Dia Ideal Para os Peixes-banana’, ‘Tio Wiggily em Connecticut’ e ‘Para Esmé, Com Amor e Sordidez’.

A biografia é estruturada segundo as fases do caminho do vedanta: aprendizado, deveres do lar, retirada da vida social e, por fim, renúncia ao mundo (“Estou neste mundo, mas não pertenço a ele”, Salinger afirmou certa vez). Baseados nisso e em suas inúmeras fontes, os autores apontam determinadas coisas como cruciais nessa caminhada rumo ao oblívio: um defeito anatômico congênito que o incomodava barbaramente; o fato de perder sua namorada da juventude, Oona O’Neil (filha do dramaturgo nobelizado Eugene O’Neil), para ninguém menos que Charles Chaplin; e, claro, as carnificinas vivenciadas na guerra. Segundo Shields e Salerno, esses golpes “não só definiram sua arte como também o transformaram em um artista que exigia de si mesmo nada menos que a perfeição”. No entanto, sempre que procurava interagir com as pessoas ao redor, ele fracassava. Assim, “reviver e revisitar interminavelmente suas feridas se tornou muito mais importante para ele do que o mundo que lhe causara as feridas”.

Com toda essa carga, não é de se admirar que Salinger se tenha refugiado numa espécie de bunker: “Sua vida foi um suicídio em câmera lenta. Seu objetivo era desaparecer”. Constatações dessa natureza e a lenta descrição, por meio de uma miríade de vozes não raro desencontradas, de alguém que se esmerou em transformar sua existência em uma não existência, tornam a leitura extremamente dolorosa, sobretudo para quem é familiarizado com seus escritos e aprendeu a admirar a beleza incomparável que eles encerram. Ao mesmo tempo, à medida que aspectos obscuros dessa não existência são paulatinamente iluminados, aqueles mesmos escritos adquirem uma reverberação ainda maior, como parte integrante de um esforço descomunal para, segundo Shields, ressacralizar uma vida totalmente dessacralizada pela guerra e pela violência. O que poderia ser maior do que isso?

Lamentamos apenas os grotescos erros de revisão. Por exemplo, na pág. 469: “Em 31 de outubro de 1938, a revista ‘People’ publicou um artigo sobre o filho de Salinger, Matthew Salinger”. Ocorre que Matthew nasceu em 1960 e a ‘People’ só foi fundada em 1974. Antes, na pág. 102: “Ela ainda era um (sic) adolescente quando se casou com ele”. Portanto, aos que dominam a língua inglesa, sugerimos que esqueçam a edição brasileira e adquiram a original.

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Obra relata vivência de J. D. Salinger na Segunda Guerra

Algumas das passagens mais impressionantes de Salinger, de David Shields e Shane Salerno, dizem respeito ao que o biografado vivenciou na Segunda Guerra Mundial. J. D. Salinger desembarcou na praia Utah, no Dia D (06 de junho de 1944), com o 12.º Regimento de Infantaria, que contava então com cerca de 3.100 soldados. Destes, 2.500 morreriam até o final daquele mesmo mês.

Trabalhando no Corpo de Contrainformação, ele ainda atravessaria o inferno da batalha na floresta de Hürtgen, na fronteira da Bélgica com a Alemanha, e suportaria, a um passo da exaustão completa e da loucura, a sanguinária contraofensiva alemã na região montanhosa das Ardenas, entre a Bélgica, Luxemburgo e a França, num evento também conhecido como a Batalha do Bulge.

Segundo Alex Kershaw, citado na biografia, nas Ardenas ocorreu “a culminação brutal da experiência de combate de J. D. Salinger no teatro europeu”, quando ele “se viu cercado por um imenso volume de sofrimento e aniquilação humana. É impossível acreditar que ele não tenha sido modificado fundamentalmente e de formas irreconhecíveis”.

A culminação, contudo, parece ter sido um pouco depois, quando Salinger e seu regimento entraram no campo de extermínio Kaufering IV, na Alemanha: “Em muitos sentidos, Salinger nunca saiu dali”. Para Robert Abzug, chegar ao lager e se deparar com pilhas de cadáveres em combustão foi algo “como destapar um cemitério e cair dentro dele”. Nas palavras do próprio Salinger: “Por mais que você viva, realmente não consegue tirar o cheiro de carne queimada do nariz”.

Muito em função do que vira em Kaufering, Salinger sofreria um colapso nervoso e seria hospitalizado em Nuremberg. Kershaw afirma que “no maior triunfo de Salinger (a libertação do campo) está a maior tragédia”, pois é justamente o “capítulo final, de purificação da alma”, que se revela “o mais destruidor das almas”. De fato, segundo Eberhard Alsen, “o que destruiu Salinger foi o Kaufering Lager IV”.

Nos anos subsequentes, a ironia devastadora será que “apenas voltando em termos emocionais e imaginativos” à guerra é que Salinger conseguiria “avançar artisticamente”. É verdade, portanto, que ele jamais se libertou daquele cheiro de carne queimada. (André de Leones)

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André de Leones é autor do romance Terra de casas vazias (Rocco), entre outros

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