Super-heroína é criação do Ocidente

Qual é a primeira coisa que você pensa quando me vê? Qual é a leitura que você faz de mim ao ler meus textos, ver meus posts ou assistir a uma live minha? Muita gente me concedeu o título de “rainha”, “deusa” ou “guerreira”. É lisonjeiro e eu realmente me sinto grata pela forma generosa como sou vista, mas a realidade é bem diferente e acredito que é importante pautar isso aqui, para que outres negres se sintam representades de forma real.

Todos os dias pessoas negras sofrem com alguma situação de racismo. Toda manhã, ao levantarmos, já assumimos uma postura rija porque sabemos o que nos espera e precisamos estar minimamente preparades para as pancadas da vida. É tenso.

Recentemente divulguei nas redes sociais um caso de racismo. Uma mulher branca havia postado uma figurinha fazendo piada com o cabelo crespo. Aquilo realmente me deixou muito mal. Depois de todo o barulho que fiz nas mídias, uma amiga querida me mandou uma mensagem pedindo desculpas porque não havia percebido o quanto aquilo foi danoso para mim. Em sua compreensão, eu seria tão segura e dona de mim, que não me deixaria abalar mais por situações como aquela.

É aqui que mora o perigo: quando alguém sofre racismo, a reação imediata de algumas pessoas é atacar o racista no intuito de nos proteger, mas poucas são as vezes que perguntamos a quem foi violentado se elx está bem; ou, como foi o caso da minha amiga, acreditamos que a vítima é tão preparada intelectualmente que esquecemos que, apesar disso, somos seres humanos. A carne dói.

Episódios de racismo envolvendo cabelo, por exemplo, disparam vários gatilhos em mim. Lembro, ainda criança, de manter o cabelo sempre bem preso com vergonha do seu volume. Aos 12 anos, idade mínima na época para alisar o cabelo, comecei a usar todos os produtos que garantissem que ele não desse nem uma volta. Eu ficava cerca de quatro horas sentada, passando pelo procedimento estético, enquanto sentia meu couro cabeludo queimar e meus olhos arderem. Passava dias com a pele sensível, sem poder tocar.

Dias depois, era possível perceber feridas que, quando cicatrizadas, faziam meu cabelo cair junto com as cascas do ferimento. Nos primeiros dias eu realmente buscava qualquer desculpa para não ir à escola. As outras crianças diziam que meu cabelo exalava mau cheiro de água sanitária e ninguém queria ficar perto de mim.

Ver figurinhas como aquela, que parecem inofensivas, são de fato violências às nossas subjetividades. É nos fazer rememorar momentos de muito sofrimento que muitas vezes foi sentido em silêncio. Minha mãe, apesar da consciência racial e das tentativas de me proteger, não discutia o assunto comigo e hoje, adulta e sem minha mãe, procuro apoio entre as minhas iguais, que apesar da empatia, também estão travando suas batalhas.

Olhar para uma mulher negra e ver uma “deusa” ou uma “rainha” pode nos fazer esquecer o fato de que estamos lidando com uma mulher que passou por várias violências físicas e psíquicas ao longo da vida e que hoje tenta se erguer e assumir uma postura firme, porque se abaixar a cabeça, vai ser pior. Mas isso não muda o fato de que estamos esgotades.

Estatisticamente pessoas negras são mais propensas a desenvolverem doenças como diabetes e hipertensão, além de sermos a maioria no número de ocorrências de suicídio. Aprofundar nas leituras sobre nossos antepassados, para entender de onde viemos e quem nós somos, é nosso “sistema imunológico”, como nos informa a filósofa africana Marimba Ani. Porém, aprofundar no conhecimento de tudo que nosso povo viveu, associado ao que ainda vivemos hoje, nos adoece.

Lembrar que a magnífica Lélia Gonzales fez a passagem em decorrência da diabetes e que a intelectual Neuza Santos Sousa cometeu suicídio anos depois de ter escrito o livro “Torna-se negro”, no qual analisa 15 casos de como o racismo afeta pessoas negras de diferentes formas, nos faz perceber que somos, antes de mais nada, humanos.

Precisamos de cuidado, mas muitas vezes o compromisso com a militância é tão urgente que desrespeitamos nossos limites. Mas, quando adoecemos, quem nos ampara?

Sim, nos tornamos indivíduos incrivelmente potentes, mas diariamente somos destituídes de humanidade. Então, se você que me lê é uma pessoa negra e sente que está sem forças, saiba que está tudo bem. Você tem direito de parar. Não estamos em dívida com ninguém.

Entretanto, se você é uma pessoa branca, saiba que ser antirracista é não cobrar de nós força em tempo integral. Isso é uma herança colonial que ainda está nos matando.

Africana em diáspora, educadora, escritora e pesquisadora. [ Ver todos os artigos ]

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