Os sussurros das mulheres

“Porque há uma história que não está na história e que só se pode resgatar apurando o ouvido e escutando os sussurros das mulheres.” Rosa Montero

Gosto muito do livro da escritora espanhola Rosa Montero “Histórias de Mulheres”. Para você, que talvez nunca tenha ouvido falar desta autora, saiba que ela é uma das mais importantes escritoras de língua latina da atualidade, com inúmeros romances publicados e livros onde aborda assuntos diversos, que fazem link com os artigos que ela publica semanalmente na edição espanhola do jornal El País, do qual é colunista desde 1976.

Um dos seus mais conhecidos livros é “A Louca da Casa”, um texto bem-humorado sobre o que é ser escritor e ser leitor, com referências a livros que ela leu e que recomenda pelos mais variados motivos. A “louca” do título é a imaginação: sem ela fica impossível escrever, e muito mais difícil ainda o simples ato de viver.

Mas eu quero mesmo é falar desse livro “Histórias de Mulheres” (Rio de janeiro, Agir, 2008. 223 p.) Depois de uma introdução gloriosa, onde Montero passeia pela história da Literatura e da Arte pontuando as mulheres que se distinguiram nesses campos, revela a sua paixão pela biografia, a origem deste livro, nascido de artigos que ela publicou na sua coluna em El País.

São 15 perfis femininos, escolhidos pelo critério de predileção da autora, e incluem Agatha Christie, Alma Mahler, Camille Claudel, Frida Kahlo e outras menos conhecidas como Laura Riding e Isabelle Eberhardt.

Algumas dessas histórias são verdadeiramente espantosas, principalmente aquelas que tratam de mulheres escritoras. Motivada por elas, fui em busca de outras. Descobri que muitas dessas mulheres foram silenciadas pela história ou se travestiram em uma roupagem masculina para poderem ser ouvidas.

Com a cabeça cheia de grego

Entendemos então como inúmeras mulheres talentosas e cheias de espírito tiveram a sua voz calada por uma sociedade preconceituosa e sexista, onde imperava a ideia, expressa pelo filósofo Kant, citado por Jair Barboza, de que…

“… estudos laboriosos e reflexão penosa, mesmo que uma mulher aí contribua com algo elevado, anulam as vantagens próprias do seu sexo, e, ainda que possam ser objeto de uma fria admiração, pela raridade do acontecido, ainda assim ao mesmo tempo enfraquecem aquilo que há nela de atraente e com o qual exerce seu grande poder sobre o homem. Numa mulher com a cabeça cheia de grego, como a senhora Dacier, ou que entra em disputas radicais sobre mecânica, como a marquesa de Châtelet, só falta mesmo uma barba, pois esta talvez exprimisse mais claramente os ares de profundidade à qual aspiram.” (Os grifos são meus).

Uma das mulheres citadas por Rosa Montero é Alma Mahler. Bela, talentosa, pianista estupenda, compositora, aos 21 anos se apaixonou por Gustav Mahler, diretor da Ópera de Viena com o dobro da sua idade. Casaram-se em seguida, mas o preço que Alma precisou pagar foi alto: em uma carta abjeta, o futuro marido zombava da sua inteligência e do seu talento, exigindo que ela renunciasse à música.

E completava: “Você deve ter uma só profissão: a de me fazer feliz.”

Ela atendeu a essas absurdas exigências e entre sofrimento e depressão aguentou dez anos, quando conheceu e se apaixonou por Walter Gropius, arquiteto e fundador da Bauhaus. Gustav arrependeu-se, mas era tarde demais, e Alma não voltou para ele.

Os dez anos em que ficou afastada da música pelo casamento não puderam ser recuperados e sua carreira como pianista foi encerrada. Mas teve amores, maridos e amantes, e afirmou com coragem seus desejos e sua personalidade até morrer, com 85 anos de idade.

Pseudônimo masculino

Rosa Montero é uma das escritoras espanholas de maior sucesso, vencedora do Prêmio Nacional de Las Letras; ela é colunista do El País desde 1976; também jornalista, ela vai do ensaio aos romances

Mas eu quero falar sobre as escritoras, principalmente sobre aquelas que, por um motivo ou outro, tiveram que se tornar invisíveis para poderem ser aceitas.

E olhe que eu nem quero tocar nesse imenso contingente de mulheres que deram suporte logístico, doméstico, emocional e até financeiro para que seus maridos ou companheiros pudessem escrever sem se preocupar com as responsabilidades do lar e da família, este inumerável exército de abnegadas criaturas que, segundo o ditado popular, constitui aquela categoria de “grandes mulheres” que está sempre atrás daqueles ditos “grande homens”, que não precisaram lavar, cozinhar, passar, parir, amamentar, administrar e muitas vezes colocar o pão na mesa.

Vou ficar aqui com dois tipos de situação. E, como se diz hoje nas redes sociais, “paciência que lá vem textão”. Se o meu caro leitor não tem paciência de ler, não tem problema: é só me seguir lá no Twitter que os textos são bem menores, ou acessar meu canal Clotilde Comenta no Youtube

No século XIX tornou-se habitual a mulher esconder-se atrás de um nome masculino para que a obra fosse aceita e considerada. Mulheres com dotes intelectuais não eram bem vistas.

E havia o preconceito dos leitores, o que levava os editores a aceitarem com reservas as obras escritas por mulheres ou, simplesmente, recusá-las.

Talvez uma das mais famosas mulheres “com nome de homem” desse período tenha sido George Sand, nascida na França em 1804, cujo nome verdadeiro era Aurore Dupin.

Vestia-se de homem porque achava o traje masculino mais cômodo e mais de acordo com a sua predileção pela vida boêmia. Frequentava o bas-fond, as buates, além de beber e fumar em público, protegida pelo traje.

Todos a sabiam mulher e a aceitavam como tal, tendo ela mantido tórridos romances com homens famosos na época, como Frédéric Chopin, Alfred de Musset, Prosper Merimée e outros.

Vida de uma alma aventureira

Curioso é que os leitores sabiam que ela era mulher, mas o mundo era tão sexista que exigia a manutenção da farsa, do pseudônimo masculino, para ter as obras aceitas no meio literário.


Aos 20 anos, suíca Isabelle Eberhardt se mudou para a Argélia, de onde empreendeu viagens pelo coração da África; filha de dois anarquistas, ela teve experiências sexuais e com drogas chocantes à época

Desse grupo também era Isabelle Eberhardt, nascida em 1877, que foi criada como menino pelos pais. Ao ficar adulta, adotou diversos pseudônimos masculinos, entre os quais Nicolas Podolinsky e Si Mahmoud Saadi.

Fazia-se passar por homem, viajando sozinha, a cavalo, percorrendo a Tunísia, a Argélia e o deserto do Saara. Bebia muito, fumava maconha e frequentava bordéis. Escreveu diários, onde relata suas experiências. Dizia:

“…Com as roupas de uma moça europeia, nunca teria visto nada. O mundo estaria fechado para mim, porque a vida exterior parece ter sido feita para o homem e não para a mulher. (…) Esta é a minha vida real, a vida de uma alma aventureira, livre de mil pequenas tiranias, daquilo que se chama os costumes, o “patrimônio”, e ávida de grandes espaços abertos, e de uma vida variada e livre.” (Do blog 360Meridianos)

E o que dizer de George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, nascida em 1819, romancista britânica que usava o pseudônimo masculino para que seus trabalhos fossem levados a sério?

Eliot queria escapar de estereótipos que ditavam que mulheres só escreviam romances leves e diz-se também que, oculta sob o nome de homem, desejava preservar sua vida íntima, sobretudo seu relacionamento com George Henry Lewes, um homem casado, com quem viveu por mais de vinte anos.


Livro traz 15 perfis femininos, escolhidos pelo critério de predileção da autora, e incluem Agatha Christie, Alma Mahler, Camille Claudel e Frida Kahlo

Literatura não era assunto pra mulheres

Ainda na Inglaterra, as irmãs Brontë, de fama mundial e bem mais conhecidas, também usaram “noms de plume” masculinos.  Anne, Emily e Charlotte eram filhas de um pastor evangélico em Yorkshire, no norte da Inglaterra.

O pai as estimulava na leitura e com elas discutia temas da atualidade, além de permitir-lhes a prática da escrita. As jovens escreviam histórias de fantasia para elas mesmas, à mão, num mundo imaginário cheio de ilusão e encantamento.

Aos vinte anos, Charlote enviou uns versos a um poeta conhecido, e ele respondeu que os versos eram bons mas que a literatura não deveria ser o objetivo da vida de uma mulher.

Mesmo assim, persistiram na escrita e, em 1847, Charlotte escreveu “Jane Eyre”, Emily escreveu “O Morro dos Ventos Uivantes”, e Anne “Agney Grey”. Tinham, respectivamente, 31, 29 e 27 anos de idade. Mas não assinaram as próprias obras. Usaram os pseudônimos masculinos de Currer, Ellis e Acton Bell. Nem o editor sabia que eram mulheres.

Os livros fizeram sucesso e só então elas revelaram ao pai a autoria das obras. Os críticos, sem saber que que por trás das assinaturas masculinas estavam três jovens provincianas, virgens e pobres, fizeram considerações que jamais fariam se soubessem que era obra feminina.

A propósito de “Jane Eyre”, escreveu um deles que a obra era cheia de “rudeza masculina, grosseria e liberdade de expressão”. E “O Morro dos Ventos Uivantes” foi considerado “selvagem, brutal e odioso.”

As moças pouco puderam desfrutar do sucesso e ampliar sua produção. Tuberculosas, Emily e Anne faleceram quatro anos depois da publicação de seus únicos livros. Charlotte ainda casou-se, publicou mais dois livros e morreu poucos anos depois, aos 39 anos.

E as mulheres que escreveram e os maridos assinaram?

No Brasil, um caso sui-generis. Em 1938 foi publicado o primeiro folheto de cordel escrito por uma mulher. Filha do conhecido poeta e editor Francisco das Chagas Batista, Maria das Neves Batista Pimentel, casada com Altino de Alencar Pimentel, era poeta, e das boas.

Publicou o folheto “O violino do diabo ou o valor da honestidade”, mas assinou com um pseudônimo masculino, baseado no nome do marido: Altino Alagoano.

Ela mesma explica o motivo, em depoimento colhido pela pesquisadora Maristela Barbosa de Mendonça para sua dissertação de mestrado:

“Todos os folhetos que foram vendidos na Livraria de meu pai ou que foram impressos, tinham nome de homem, eram homens que faziam, não existia naquele tempo folheto feito por mulher, e eu, para que não fosse a única, né?, meu nome aparecesse no folheto, não fosse eu a única, então eu disse: – Eu não vou botar meu nome. Aí meu marido disse: – Coloque Altino Alagoano.”

Recentemente, dois filmes em cartaz retrataram uma situação diferente da citada acima, quando a mulher se esconde atrás de uma identidade masculina fictícia por ela fabricada.

Nos casos a seguir, a mulher escreve, mas quem assina é o marido ou companheiro. Além de assinar, também recebe os direitos autorais, os lucros e a fama das obras.

O primeiro desses filmes é “A Esposa”, do diretor Björn Runge, com uma interpretação correta e emocionante de Glenn Close no papel da mulher “por trás” do escritor premiado com o Nobel de Literatura.

O filme é recente e não quero incorrer na prática do spoiler. A história é ficcional, mas poderia ser verdadeira, como é verdadeira a vida da escritora francesa Colette, retratada também em filme que esteve há pouco em cartaz, dirigido por Wash Westmoreland.

A esposa

A história de Colette é exemplar. Moça simples, do interior, casada com Willy, um homem mais velho e mundano, viveram na Paris de 1890. Frequentavam as rodas literárias e boêmias da cidade mas Willy vivia afogado em dívidas, e sugeriu à esposa que escrevesse algo para publicação.

Ela criou então um personagem, Claudine, uma menina do interior que, na primeira pessoa, falava sobre seus sonhos, suas interrogações, suas perplexidades. O livro tornou-se um best-seller no país, mas foi Willy quem o assinou e, por esse motivo, acabou por se tornar uma celebridade.

Colette escreveu ainda algumas continuações da vida da fictícia Claudine, mas começou a ficar constrangida e incomodada com a falta de reconhecimento pelo seu trabalho. O marido lhe negava o direito à autoria e somente depois de muitas brigas é que ela conseguiu ganhar na justiça os direitos de propriedade intelectual, depois de ser explorada durante anos.

Ainda no livro de Rosa Montero “Histórias de Mulheres” há um caso que considero muito mais absurdo do que o de Colette. Refiro-me à escritora María de la O Lejárraga García, nascida na Espanha em 1874, também conhecida como María Martínez Sierra, como passou a chamar-se depois do casamento com Gregorio Martínez Sierra.

Ainda jovem, María publicou seu primeiro livro, que não teve nenhum estímulo e só gerou reações desagradáveis na família e no pequeno círculo de amigos.

Sendo assim, de moto próprio, passou a atribuir a autoria das obras ao marido, que não tinha qualquer talento literário e recebia esse favor da mulher como se aquilo fosse uma “obrigação” a ele devida pelo vínculo do casamento.

María era professora e ensinava o dia inteiro. Gregorio não trabalhava e ela, depois de chegar da escola, cuidava das tarefas domésticas e atravessava a noite escrevendo incansavelmente, pois o marido a tratava como uma máquina de fabricar textos. Romances, obras teatrais, artigos variados, eram por ela produzidos em quantidade pois o que faltava a Gregorio em talento literário sobrava em tino comercial.

Loucas e criminosas

Ele montou uma companhia de teatro, revistas culturais e depois a famosa editora espanhola Renacimiento. Mas era María quem escrevia uma peça atrás da outra, artigos opinativos, crônicas, além de fazer todo o trabalho da editora: receber os textos, editar, corrigir as provas tipográficas e cuidar da contabilidade.

Em 1906 o marido tornou-se amante da primeira atriz da companhia que, ironicamente, dependia dos textos teatrais de María para obter sucesso.

Essa situação perdurou até 1922 quando ela separou-se dele e foi para a França, mas continuou produzindo textos para o marido. Apesar do nome de Gregorio continuar na autoria das obras, as pesquisas recentes mostram que ele pouco ou nada contribuiu para aqueles escritos.

Isso hoje nos soa tão ridículo, e nos perguntamos como essa mulher se deixou anular dessa forma. Como ela pode ter deixado isso acontecer? Ao contrário de Alma Mahler, que embora tendo perdido sua carreira musical retomou sua autonomia e viveu novos amores, Maria passou a vida sendo escrava do marido. Ela mesmo se justifica dizendo que tinha certeza de que a sua produção, sendo assinada por um homem, teria mais condição de ser levada a sério.

Essa reação é fácil de compreender quando entendemos que a sociedade da Espanha no início do século XX era tão conservadora que uma revista católica se posicionou violentamente contra um simples clube de mulheres, que se reuniam para tomar chá e eventualmente assistir a uma palestra cultural. A revista publicou:

“A sociedade faria muito bem enclausurando-as como loucas e criminosas. O ambiente moral da rua e da família ganharia muito com a hospitalização ou o confinamento dessas fêmeas excêntricas e desequilibradas.”


“Você deve ter uma só profissão: a de me fazer feliz.”
Ilustração: Weberson Santiago

Ela escreve, mas ele ganha a fama e o dinheiro

Durante muito tempo, María escreveu e Gregório ganhou a fama, inclusive não repassando a parcela dos direitos autorais que a ela cabia, lançando-a na miséria e forçando-a a viver da caridade dos amigos.

Depois que ele morreu, ela ainda teve que dividir os direitos autorais com a filha que ele teve com a amante. Em 1950, María publicou duas obras autobiográficas onde revelava esses fatos mas foi duramente atacada por escritores de todo o mundo, que condenaram suas “pretensões literárias”.

Somente nas últimas décadas os estudos e pesquisas revelaram que sim, que Maria era na verdade a autora da vasta obra de Gregório. 

Penso que uma situação dessas tem base nos ideais de amor romântico, de sacrifício, de entrega, do papel idealizado da mulher como transformadora e redentora.

O sexismo reinante a partir do século XVIII e que se exacerba no anos 1900 indo até meados do século XX, considerando o papel sempre subalterno da mulher, termina por empurrá-la para uma situação que se constitui aos poucos, de escrever para alguém ou por alguém, que geralmente é marido ou companheiro, que assina as obras como se de sua autoria fossem.

É uma relação abusiva, de dominação, e se processa de tal forma que o homem passa a usufruir daquilo como um serviço inerente às obrigações matrimoniais que competem à mulher, como o cuidado com a casa, com os filhos e a disponibilidade eterna para o sexo.

Daí é que Virginia Woolf afirma, no seu livro “Um teto todo seu”, que uma mulher só pode escrever com independência se ela pagar o próprio aluguel, se ela tiver “um teto todo seu”.

E olhe que fiquei somente no campo da Literatura. Imagine em outras áreas, meu caro leitor.

Na Ciência, o trabalho da mulher é muito menos reconhecido do que o do homem, e poucas são ganhadoras de prêmios famosos. A mulher detém apenas 5% de todos os prêmios Nobel concedidos até hoje.

Lembremos então de Hipatia, que viveu no século IV e que deu significante contribuição à geometria, à álgebra e à astronomia. Foi morta por um grupo de cristãos, acusada de heresia.

Maria Kirch descobriu um cometa em 1702, mas passou a vida como ajudante, sempre à sombra do marido e depois do filho. Ada Lovelace, filha do poeta Lord Byron, criou o que chamamos de programação informática, mas quem ficou famoso foi Charles Babbage, que é considerado o precursor do computador, baseado em conceito desenvolvido por Ada. Mina Fleming entrou para o Harvard College Observatory como empregada do professor E. C. Pickering e acabou catalogando mais de 10.000 estrelas e descobrindo 10 novas, 52 nebulosas e 310 estrelas variáveis. Adivinhem quem levou a fama.

Nesse mesmo centro, o já mencionado Pickering contratou Henrietta Swan Leavitt também para catalogar estrelas mas a cientista encontrou um elemento-chave para determinar a distância entre as elas, fundamental anos depois para descobrir como o Universo se expande.

Emmy Noether demonstrou uma teoria da física de partículas e teve um papel essencial no campo da álgebra abstrata, mas trabalhou durante 25 anos sem receber salário. Rosalind Franklin, artífice da imagem que mostra a estrutura helicoidal do DNA, teve seus dados “roubados”. Estes serviram para que Watson e Crick recebessem o Nobel de 1962 por sua contribuição para o entendimento da estrutura da famosa molécula.

O professor Sergio Erill, em cujo trabalho pesquei as referências acima, empreendeu a tarefa de jogar luz sobre o trabalho dessas mulheres e dar-lhes o devido lugar no mundo da ciência.

No seu livro “A ciência oculta”, editado pela Fundação Dr. Antonio Esteve, da Espanha, o professor examina o papel de 14 grandes pesquisadoras que ficaram relegadas a segundo plano – ou ao mais miserável anonimato –, apesar de sua grande contribuição para a ciência.

São casos inúmeros e variados, em todos os campos do conhecimento humano e na vida da sociedade, onde a mulher vive lutando para conseguir seu espaço.

Aqui estou apenas tocando de leve na ponta exposta deste iceberg de mulheres ocultas por pseudônimos de homem, ou escrevendo para o homem assinar, ou sem ter seu nome reconhecido em conquistas científicas.

Escrever, escrever, escrever

Quando já estou chegando no final ainda me lembro de J.K.Rowling, criadora do universo Harry Potter, ocultando-se atrás das iniciais porque os editores assim acharam mais conveniente. 

E mesmo nesses tempos de empoderamento feminino as meninas ainda precisam usar pseudônimos masculinos nos jogos de computador disputados on line para se protegerem de agressões e bullying.

A luta continua.

Ainda há um longo caminho a percorrer na busca do reconhecimento. Hoje estamos deixando de sussurrar para falar, falar muito e escrever, escrever, escrever, como defende a escritora Micheliny “Onça” Verunschk, neste trecho:

escrever / escrever/ escrever/ escrever como quem desatina/ um outro ciclo / uma outra lua /uma outra língua / e voltar para o mesmo sempre início / precipício / escrever como quem constrói um labirinto

Comments

There are 5 comments for this article
  1. Anchella Monte 20 de Março de 2019 7:54

    Texto maravilhoso, Clotilde. Essencial para não recuarmos um passo no campo das conquistas por um lugar ao sol, “claramente” ao sol. A luta continua, agora com redobrada necessidade diante de um cenário político que pretende levar a mulher de volta à submissão, a uma postura subalterna em relação ao homem e a seu papel na sociedade. Ainda louvo as indicações literárias, as quais vou buscar adquirir pela Internet. Quando crescer, gostaria muito de escrever como você!

  2. Clotilde Tavares 23 de Março de 2019 20:59

    Querida Anchella, grata pela leitura e pelo comentário. Estamos juntas na batalha pela manutenção dos espaços tão duramente conquistados para a produção feminina. Vamos em frente. #somosresistencia.

  3. Tatiana 28 de Março de 2019 11:29

    Obrigada por esse artigo maravilhoso, Clotilde!

  4. Clotilde Tavares 28 de Março de 2019 17:51

    Oi Tatiana, estarei aqui periodicamente com temas semelhantes. Um abraço e grata pela leitura.

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